quinta-feira, 6 de novembro de 2008

A ARTE DE PERDER 2

Mas será que é assim mesmo?

Será que posso, Mr. Warhol, quebrando uma coisa por semana, aprender sobre a fragilidade da vida? Melhor: Aprender a lidar com a fragilidade da vida? Posso, Ms. Bishop, perdendo um pouquinho a cada dia – chaves, tempo, lugares, nomes –, dominar a arte de perder a vida?

Minha grande amiga Renata saberia melhor: Ela dedicou sua vida profissional e acadêmica a ajudar pessoas a lidar com a fragilidade da vida. Em 2001, sua tese de mestrado concluiu que vítimas de um tumor maligno desejavam ter o máximo de informações sobre seu estado de saúde, ainda que o quadro fosse terminal. Na época, a maioria dos profissionais que cuidava de vítimas de câncer era adepta da "mentira piedosa": Diagnóstico completo não para o paciente, mas para a sua família. A conclusão da Renata foi tão inovadora que ganhou também as páginas da imprensa brasileira não especializada, e as do International Journal of Psychiatry in Medicine. “Ao ser informado do que está ocorrendo, o doente sente-se no controle de sua vida: aceita ou não o tratamento proposto, altera projetos de vida e se prepara para o que está por vir", afirmou a Renata. Se é que podemos aprender a perder a vida, a nossa própria e aquela de quem amamos, se é que isto é uma arte – a Renata a dominava.

Mas não dá mais para perguntar para ela: Minha grande amiga Renata, que aqui já descrevi como uma irmã, foi assassinada hoje. Pensei até em suavizar, dizendo que a Renata partiu ou não está mais entre nós. Mas em respeito ao compromisso que ela tinha com a verdade – a Renata foi assassinada.

Que a sua carreira ajudando pessoas a lidar com a fragilidade da vida, que a sua vida pacífica, corajosa, generosa, comprometida, amorosa, divertida – que a memória da vida da Renata nos inspire a lidar com essa situação-limite, com essa provação, com a dor da sua falta.

A ARTE DE PERDER

Ontem ouvi o cineasta Bruno Barreto declamar um trecho da poesia One Art, de Elizabeth Bishop. As primeiras estrofes da versão em português são assim:

"A arte de perder não é nenhum mistério;
tantas coisas contêm em si o acidente
de perdê-las, que perder não é nada sério.

Perca um pouquinho a cada dia. Aceite, austero,
a chave perdida, a hora gasta bestamente.
A arte de perder não é nenhum mistério.”

Invadiu-me um quase déjà vu. Uma frase reconstruiu-se aos poucos na minha memória. “I broke something today, and I realized I should break something once a week... to remind me how fragile life is”. Era de Andy Warhol.

Invadiu-me então uma epifania, uma súbita sensação de realização: É possível transcender não só a partir de uma situação-limite, de uma provação – mas também a partir de experiências corriqueiras, do cotidiano! Agora, ao escrever, dou-me conta de que não foi de todo súbita essa sensação de realização – aqui mesmo eu já lhes havia confidenciado que "muitas vezes o sagrado se revela para mim na mais profana das experiências".

Mas invadiu-me, dessa vez sim, ao lado dessa sensação de realização, também uma esperança: Que maravilha transcender não a partir de uma situação-limite, de uma provação – mas a partir de experiências corriqueiras, do cotidiano!

DEZ IRMÃOS

Postado originariamente em 1/5/2007, DEZ IRMÃOS

Éramos quatro irmãos: Ana, Lúcia, Marília e Toni. Na nossa infância ganhamos mais quatro: Bel, Bia, Cínthia e Aninha. E na nossa adolescência ganhamos mais duas: Kiki e Renata.

Dez irmãos é coisa muito boa... mas é muita coisa! Ainda bem que morávamos em três casas... Quem daria conta de dez crianças? Dez adolescentes?

Imaginem a minha mãe arrumando dez crianças para levar à Cultura Inglesa, à Aliança Francesa, à natação, ao ballet, ao judô, à escolinha, ao Porto Seguro, aos casamentos das suas dezenas de primos. “Aviso aos navegantes: Quem vai, vai. Quem não vai, fica!” Quantas ficariam prontas a tempo? Imaginem o meu pai contanto estória para dez crianças dormir. Haja personagem! E consertando os secadores de nove meninas? E o Toni tendo de lidar com nove calcinhas penduradas no chuveiro? Nove meninas disputando o telefone. A minha avó Neta fazendo bolinho de chuva para um quase time de futebol. A minha avó Ermelinda fazendo dez crianças escolher seu tenor predileto entre Tito Schipa, Beniamino Gigli e Caruso.

Imaginem a tia Beth ensinando bons modos para uma dezena de mal-criados. O tio Ernesto entretendo dez crianças com mágicas e palhaçadas. A Zê pedindo para dez crianças moderar na bagunça. Que carro o tio Geraldo teria para levar dez adolescentes baladeiros ao Papagaio’s, às festinhas? Uma Kombi? E que paciência a tia Marilena precisaria ter para tirar da cama dez adolescentes dorminhocos em Guaecá! E quanta estória de namoro a Inês precisaria contar para prender a atenção de dez adolescentes curiosos?

Ninguém daria conta!

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

IS GABRIELLA CILMI THE NEW AMY WINEHOUSE?

Vira e mexe alguém se refere também à australiana Gabriella Lucia Cilmi como the new Amy Winehouse. Ela prefere ser the next Robert Plant. Não sei.

Na minha história da música, Gabriella é a nova Mallu Magalhões. Ok, a Mallu não aquele vozeirão lindamente rouco. Mas as duas compõem, interpretam, tocam. As duas têm canções em comerciais de TV – J1 para Vivo, Sweet About Me para Rexona.

E as duas têm, cada uma delas, dezesseis aninhos. Não resisto ao trocadilho: Everything's sweet about them. (Ouch!)


IS SAM SPARRO THE NEW MIKA?

Black and Gold e 21st Century Life não me entusiasmam. Mas adzoro a interpretação jazzy de American Boy de Sam Sparro – o australiano a quem, vira e mexe, alguém se refere como the new Mika.

He writes, he sings, he raps. Alguém sabe se ele dança?

IS ESTELLE THE NEW AMY WINEHOUSE?

A menos que você esteja passando 2008 em Marte, você também deve ter se pego cantarolando “take me on a trip, I'd like to go some day, take me to New York, I'd love to see L.A.". E depois, "cool down – down, don't act a fool now – now, I always act a fool – ow, ow, ain't nothing new – now, now". A deliciosa American Boy toca tanto que sua compositora e intérprete, Estelle, diz estar cansada da canção. Mas não eu.

Vira e mexe alguém se refere a Estelle como the new Amy Winehouse. Será? Estelle tratou de decretar que a música das intérpretes brancas (Amy, Duffy, Adele, Lilly Allen) do chamado novo soul britânico – bem, it ain’t soul. E que ela, Estelle, é uma garota britânica not on drugs or crazy.

Não sei se Estelle é a nova Amy Winehouse. Mas na minha primavera de 2008, American Boy is the new Umbrella. E na minha história das imagens, o seu vídeo é um ícone do branco e preto.

She writes, she sings, she raps. Ok, Estelle can’t dance – mas como diz aquele cara na cena final de Some Like it Hot, outro ícone do branco e preto, nobody’s perfect.



Nota: Esta é a versão clean edit. Sumiu do YouTube a versão dirty edit, sem edições, em que Kanye West diz "most of this press don't f*ck wit me", e onde há um close do button do Michael Jackson quando Mr. West diz "and I'm feelin like Mike at his baddest". De que se tratam essas versões clean edit? De uma infantilização do entretenimento? (Não, esta blogueira não escreve ou fala palavrões. Mas não tem problemas em lê-los ou ouví-los; aliás, tem problemas em vê-los censurados. Qualquer hora escrevo sobre essa escolha.)

OUTRO RETRATO EM BRANCO E PRETO

Quando, nos anos 90, os jornais começaram a estampar fotografias coloridas, aquilo me pareceu um desastre. Não que eu achasse que a essência da fotografia é o branco e preto, como disse Henri Cartier-Bresson. Ou que eu visse o mundo em branco e preto, para falar com Sebastião Camargo. Nem que eu concordasse que cores, em fotografia, tiram a elegância e a seriedade do jornalismo. Nada disso. Fotografia colorida em jornal pareceu-me uma grande idéia – mas a execução, isso sim, era um desastre. O jornal chegava às minhas mãos com fotografias coloridas cheias de distorções cromáticas, fantasmas e sombras.

Muita coisa mudou desde então.

Outro dia chegou às minhas mãos um exemplar do jornal gratuito Metro. Um anúncio de página dupla, central, estampava uma enorme barra de chocolate. Num dos cantos faltava uma mordida, cada dente bem definido, sugerindo que ele tinha a consistência do chocolate que se morde, não se parte com as mãos. E não só a consistência que a imagem sugeria – mas também a maciez que senti ao tocar-lhe com a ponta dos dedos. Trouxe-o para perto do rosto – sim, o aroma de chocolate vinha do anúncio.

Não fosse uma fotografia estampada num jornal, acredito que o meu cérebro processaria as informações que a minha visão, o meu tato e o meu olfato percebiam para concluir que eu estava diante não de uma imagem – mas de um chocolate, ele mesmo.

Se eu estivesse numa galeria de arte contemporânea, teria sido uma experiência de hiper-realismo. Como eu folheava um jornal – eu era alvo de uma ação de marketing sensorial. Neurocientistas, psicólogos e Marcel Proust estão a descobrir como o olfato, o mais primitivo dos nossos sentidos, é uma conexão direta às nossas memórias, às nossas emoções, aos nossos desejos. E os profissionais de marketing estão a usar essas descobertas para influenciar nossas decisões de consumo. Deixo essa fascinante reflexão para outro dia.

Hoje recorro a essa experiência com o jornal Metro porque ela deixa claro que existe tecnologia para produzir e imprimir fotografia colorida de muita qualidade, em alta escala, a custos razoáveis – mesmo para ser veiculada num meio de comunicação feito para durar um só dia. Ainda assim, o preto e branco continua fuerte. Nos vídeos de música, nos comerciais, nos editoriais de moda e estilo, no jornalismo, na arte. I wonder why.

Talvez porque sejamos nostálgicos – ainda que de um passado que muitos de nós sequer viveu.

Talvez porque algumas coisas fiquem melhor em branco e preto. Pense na adaptação para o cinema dos romances policiais a la Raymond Chandler e Dashiel Hammet – o film noir. Em estrelas de Hollywood fumando. Nos garimpeiros de Serra Pelada. Para sair do mundo das imagens, pense no tabuleiro de xadrez. Ou no keffieh – lenço-símbolo da cultura palestina transformado em objeto-culto no mundo da moda.

Talvez porque, no meio de tanta informação visual, alguma simplificação nos faça bem. Pense no vídeo de alto contraste para a deliciosa American Boy – precisa de alguma outra cor?

sexta-feira, 24 de outubro de 2008

COSI È SE VI PARE

Meu amigo Alexandre Lucas, o divertidíssimo blogueiro do RH do Inferno, tem um alterego: Um talentosíssimo médico-psiquiatra. Imagino-o, numa tarde de domingo, a revelar-me como se relacionam psique, mente e cérebro. Imagino-o ajudando-me a entender como psique, mente e cérebro processam o mundo que os nossos sentidos percebem. Como processam, para continuar o tema do meu post RETRATO EM BRANCO E PRETO, as cores que os nossos olhos vêem.

Enquanto não tenho esse quality time, como ele gosta de dizer, com o Dr. Alexandre, quase tudo que eu sei do último tema vem da minha própria experiência – incluindo a exposição de Jackie O. E, desde ontem, de um estudo da Universidade de Giessen, na Alemanha. Os cientistas de Giessen concluíram que a associação entre banana e amarelo está tão fortemente registrada em nossos cérebros que, diante de uma fotografia em branco e preto de uma banana, não enxergamos o cinza que nossos olhos vêem – mas o amarelo que nossos cérebros querem enxergar. Enxergamos as cores não apenas como nossos olhos as vêem – mas também como nossos cérebros acreditam que devam ser.

E quando a associação entre coisas e cores ainda não está registrada? Que cores têm as coisas que nos são apresentadas em branco e preto? No exemplo de Jackie O., mulheres e modistas enxergaram não os tons vibrantes de tantos dos seus modelitos – mas tons sóbrios ou pastéis que, intuo, acreditavam ser mais adequadas a uma primeira-dama americana nos anos 60.

E para mim? Que cores têm as coisas que me são apresentadas em branco e preto?

Passei os últimos minutos transportando-me para alguns registros em branco e preto que me são especialmente caros. Vi-me sobrevoando Tóquio ao lado do National Kid. Pedindo para Sam tocar As Time Goes By. Beijando Benicio del Toro no comercial de Obsession. Beijando um marinheiro para comemorar o fim da guerra. Tomando um banho de espuma na festa dos Pet Shop Boys.

E não é que, reconsiderando um pouco o que afirmei no meu post RETRATO EM BRANCO E PRETO, que "certamente todo mundo já enxergou, [nos] infinitos matizes de cinza, infinitas cores", não é que vi tudo em branco e preto? Até a mim mesma, eu me vi em branco e preto.

E você? Tenta esse exercício e depois me conta como foi.

quarta-feira, 24 de setembro de 2008

RETRATO EM BRANCO E PRETO

Para K., a leitora que insiste em comentar como anônima

Em 2001, eu e a minha amiga Sílvia Helena visitamos, no Metropolitan Museum, a muito concorrida exposição de peças do guarda-roupa de Jacqueline Kennedy, nos anos em que fora primeira-dama. A grande revelação dessa exposição é que Ms. Kennedy vestia-se em tons vibrantes. Nos anos 60, jornais e revistas do mundo todo recheavam-se com imagens da primeira-dama dos Estados Unidos – mas essas eram imagens em branco e preto. Nos infinitos matizes de cinza dessas imagens, mulheres e modistas enxergavam não os tons vibrantes de tantos dos modelitos de Ms. Kennedy – mas tons sóbrios ou pastéis. E assim, em tons sóbrios ou pastéis, reproduziam esses modelitos.

Talvez nem todo mundo esteja consciente de que há infinitos matizes de cinza. Mas certamente todo mundo já viu uma imagem em branco e preto – uma imagem que retrata um fenômeno tridimensional (i.e. com altura, largura e profundidade) em uma superfície bidimensional (i.e. com altura e largura) justamente por conta dessa infinidade de matizes de cinza. E, imagino, certamente todo mundo já enxergou, nesses infinitos matizes de cinza, infinitas cores.

Que cores você enxerga neste retrato em branco e preto em que K. e eu, nas nossas adolescências, celebramos com amigos a partida do Guiga para o Atlantic College?

quarta-feira, 6 de agosto de 2008

ABRINDO O MAR VERMELHO

Minha amiga Ana Sofia gosta de contar que uma das coisas mais importantes que aprendeu na faculdade de Direito, onde estudamos juntas, deu-se numa aula de processo civil. Uma aula sobre prescrição e decadência. Certos direitos e certas obrigações extinguem-se depois de um certo lapso de tempo, defendeu o professor, porque não podemos revisitar o passado indefinidamente. Pra frente é que se anda, ele concluiu, um pouco à moda de Aldir Blanc ou Ary Barroso. Para a Ana Sofia esse enunciado foi um hino de libertação do passado, um ode ao contínuo reinventar-se – um Mar Vermelho a abrir-se diante dela.

Tenho certeza que tive muitas, ou ao menos algumas, experiências semelhantes na faculdade – só que agora nenhuma me ocorre.

Mas me lembro de várias situações onde aprendi algo cujo valor só percebi depois, e muitas vezes aos poucos. Uma dessas situações foi apresentar e comentar, numa aula de filosofia do direito, um texto do pensador italiano Norberto Bobbio. Dell' uso delle grandi dicotomie nella teoria del diritto. Eu tinha 23 anos.

Era esperado que um mestrando trabalhasse com textos em espanhol, inglês e francês. Mas italiano? Tudo que eu sabia (sei) da língua de Dante vinha de Parole, Parole. (Fãs da Dalida: Attenzione a essa interpretação de Mina Sono! Tão incrível como aquela onde Dalida canta com um Alain Delon qui n'est pas là!) Durante muito tempo carreguei esse texto do Bobbio e um dicionário português-italiano pra cima e pra baixo, com esperança que agora, sim, rolaria. E com o auxílio luxuoso de um amigo tão inteligente quanto generoso, Marco Pelegatti, e do meu pai, que é um grande tradutor de qualquer língua – e não sou eu que digo: Ele ganhou um Prêmio Jabuti por um original em alemão –, com a ajuda deles, rolou. Debrucei-me sobre esse texto com tal afinco que ainda hoje me lembro de algumas de suas frases.

Mas a grande revelação desse texto, esse Mar Vermelho que se abre para mim aos poucos, é que certas idéias, sensações e sentimentos, só os conhecemos, ou os conhecemos melhor, pelo contraste, pela oposição. Daí o uso das grandes dicotomias na teoria do Direito, de que fala Bobbio. E também – e agora sou eu que falo – no pensamento de Platão (o mundo da razão e o mundo dos sentidos), de Santo Agostinho (Cidade de Deus e Cidade dos Homens), e de René Descartes (mente e corpo). Daí o bem e o mal do zoroastrismo (Aúra-Masda e Arimã), das religiões abraâmicas (Deus e Diabo), e dos filmes de ação de Hollywood (mocinho e bandido). Daí os contrastes nas imagens, os contrapontos na música.

Assim como não temos, a maioria de nós, um ouvido absoluto para sons, também não temos um olhar absoluto, um sentir absoluto, um pensar absoluto. Ouvimos, sentimos, pensamos, processamos e elaboramos o mundo por comparação – em relação a algum parâmetro, a alguma experiência, a algum conhecimento. Tudo é relativo, teria dito Albert Einstein.

Comparar dois elementos (daí os termos dicotomia ou dualismo), da mesma natureza, que estão em pólos opostos (daí o termo polaridades, como prefere Carl C. Jung) ajuda, pelo contraste, a conhecer cada um desses elementos opostos. E também, para os não-maniqueístas, a entender que há um espectro entre esses elementos opostos. Para usar o mais didático dos exemplos, comparar as cores preto e branco ajuda, pelo contraste, a conhecer o preto, a conhecer o branco. E a entender que há, entre o preto e o branco, infinitos matizes de cinza – daí a expressão zona cinzenta (gray zone) para aquilo que não é claramente legal ou ilegal, certo ou errado, ético ou antiético. Para quem entende que há infinitos matizes de cinza, e que o preto e o branco estão em constante transformação – voilà o yin e o yang do taoísmo e do confucionismo.

E tudo isso para que mesmo?

terça-feira, 15 de julho de 2008

EU SINTO MUITO, EU AMO VOCÊ! 4

Trair a minha confiança é uma coisa. Outra, e bem mais perversa, é fazê-lo na semana em que – como você sabia – a minha família lembra um ano da morte dos meus sobrinhos Rafaella e Caio no acidente da TAM. What a sense of timing! Que compaixão! Que sensibilidade! Você é assim – uma superpessoa!

Espera: Tô ouvindo alguma coisa. Ei, é uma mensagem do universo pra você: "Ardil atrai ardil, crueldade atrai crueldade – você colhe o que você planta!" Olha, os Beatles também estão aqui pedindo para avisá-lo que "in the end, the love you take is equal to the love you make".

Divindade, se sou eu que crio a minha realidade, que parte de mim criou essa situação? Porque meu trabalho de criação não resulta na realidade que quero? Me ajuda? Por favor limpe em mim o que está contribuindo para esse problema.

Eu sinto muito.
Por favor me perdoe.
Eu amo você.
Muito obrigada.

domingo, 13 de julho de 2008

EU SINTO MUITO, EU AMO VOCÊ! 3

Há uns poucos meses aprendi mais algumas lições sobre o ho’oponopono. Compartilho aqui quatro delas. (Se você não acredita em nada disso, ao menos divirta-se imaginando a sua trilha sonora para essa série de posts. Que tal Twilight Zone? A minha trilha sonora, essa eu já escolhi.)

Uno. Posso usar o ho’oponopono não só quando eu vejo um problema, uma doença no outro – mas sobretudo quando eu vejo um problema, uma doença em mim. Para usar a metáfora do post e-love-2, posso usar o ho’oponopono quando eu me dou conta que passei, nos meus relacionamentos, a jogar tênis. Ou, pior, esconde-esconde e queimada. Ouch!

Dos. O ho’oponopono requer que eu assuma completa responsabilidade pelo problema, pela doença. Se eu o vejo em mim ou no outro ou no mundo, não importa: Eu criei esse problema, essa doença. Aliás, eu não criei apenas esse problema, essa doença: Eu criei toda a minha realidade, eu criei toda a realidade do meu mundo.

Tres. Responsabilidade é uma coisa. Outra coisa, e muito diferente, é culpa. Talvez sentir culpa consista em carregar algum fardo, a executar algum auto-flagelo. Assumir responsabilidade é conscientizar-me de que eu poderia ter feito melhor – e em seguida fazer esse melhor: Pedir desculpas, reparar o dano que eu causei, transformar os meus comportamentos.

Catorce. Não dá para fazer tudo isso sozinha, não é? Um lado meu (a Vítima?) logo trataria, como as crianças na minha roda de leitura, de me defender: Foi ela que começou! Um outro lado meu (a Superior?) decretaria: You know what? I am what I am. F@*k you! Um outro ainda (a Louca?) decidiria – oops, paro por aqui. Mas vocês entenderam: Não dá para fazer tudo isso sozinha. Então peço ajuda à força divina. Assim:

Divindade, limpe em mim o que está contribuindo para esse problema.

Eu sinto muito.
Por favor me perdoe.
Eu amo você.
Muito obrigada.

A minha trilha sonora para essa série de posts? É a maravilhosa At the Hop, do delicioso Devendra Banhart. Não tem nada a ver com ho’oponopono, eu sei. Mas Devendra recolocou o xamanismo no mundo pop. Jallalla!

EU SINTO MUITO, EU AMO VOCÊ! 2

Postado originariamente em 13/2/2007, EU SINTO MUITO, EU AMO VOCÊ! 2

Na estrada perigosamente molhada que liga Brasília a Luziânia, um Gol Turbo preto ultrapassa-nos em alta velocidade. Cinco, dez quilômetros à frente vemos uma motociclista, macacão de nylon e capacete, caída no chão, algumas peças ao seu redor. Ela se levanta com dificuldade e apressa-se para o canteiro que divide a estrada. Um pouco adiante, no acostamento, vemos estacionado o Gol Turbo preto. O motorista salta do carro, atravessa a pista em direção à motociclista, mesmo se lança, se projeta em sua direção, nenhuma atenção no fluxo de carros e caminhões. Ele encontra a motociclista no canteiro, olha-a nos olhos, e logo a abraça.

“Eu sinto muito, eu amo você!”, eu e o Thomas o imaginamos dizendo.

sábado, 12 de julho de 2008

EU SINTO MUITO, EU AMO VOCÊ!

Postado originariamente em 13/2/2007, EU SINTO MUITO, EU AMO VOCÊ!

No ISH lemos um texto sobre uma prática de cura do xamanismo havaiano, ho’oponopono. Essa prática nos lembra que o outro não é o outro: O outro só existe como reflexo, como projeção de mim mesma, só está no meu universo para me ensinar algo sobre mim mesma.

Se eu vejo no outro um problema, uma doença – Lúcia don’t preach! Devo antes encontrar esse problema, essa doença em mim, e curar a mim mesma! Curando a mim mesma eu curo o outro, eu curo o meu mundo, eu curo o mundo.

O amor, diz o ho’oponopono, é a melhor forma de cura. Basta que eu invoque o espírito do amor, sem pensar em algo ou alguém em particular, para que o amor cure dentro de mim o problema ou a doença que vejo no outro. Basta que eu repita e repita “eu sinto muito, eu amo você!”.

quinta-feira, 10 de julho de 2008

O SEU OLHAR AINDA MELHORA O MEU

Postado originariamente em 9/7/2007, O SEU OLHAR MELHORA O MEU. Desde então muita coisa aconteceu na minha vida – mas não conheci ninguém com uma narrativa como a da Ludeju. Feliz aniversário!

“Jallalla!” Quando ela começa a falar com aquela voz grave e linda, a Ludeju tem toda a minha atenção, os meus sentidos, a minha emoção. Ela não vai reportar uma idéia, uma sensação, um sentimento – enfim, ela não vai apresentar-me (apresentar-nos) algo pronto como ela o percebe, sente, vivencia. Não. Como é que eu explico? É como se a Ludeju fosse tecer, fabricar, compor essa idéia, essa sensação, esse sentimento comigo – palavra por palavra, gesto por gesto, olhar por olhar.

Mal começo a dar forma às suas palavras, seus gestos, seus olhares – e a Ludeju salta para uma segunda idéia, sensação ou sentimento. Sem que eu perceba a conexão entre eles, ou intua aonde a Ludeju quer chegar. Por alguns instantes perco-me na profusão, na exuberância dessas palavras, gestos, olhares, pausas, entonações, posturas. Tudo isso para que mesmo? Para onde estamos indo? E então a Ludeju salta para uma terceira idéia. E outra, e outra.

E chega o momento em que essas idéias para mim incompletas e até então estanques começam a dialogar, a se cruzar, a se entrelaçar. E como camadas numa tela de Beatriz Milhazes, ou como núcleos de personagens num filme de Robert Altman ou Alejandro González Iñárritu, essas idéias inicialmente estanques encaixam-se, combinam-se, completam-se... para compor algo surpreendente, revelador!

Será que me fiz entender? E se eu tentasse de outro modo? O que a Ludeju não faz – apresentar algo pronto como ela o percebe, sente, vivencia –, isso eu disse bem. Mas o que ela faz, então? Ela cria uma conexão? Sim, mas isso é amplo demais. E se eu disser que ela me transporta ao seu mundo interno? Assim começou melhor. E lá, eu no seu mundo interno – ou ela no meu mundo interno, vai saber –, lá a Ludeju faz com que eu pense com ela uma idéia, tenha com ela uma sensação, sinta com ela um sentimento. E quando ela anuncia – jallalla! – que disse o que tinha a dizer, não é mais a idéia da Ludeju, a sensação da Ludeju, o sentimento da Ludeju. Essa idéia, essa sensação, esse sentimento... agora são meus também! E com eles meu horizonte se ampliou, meu coração abriu, meu olhar melhorou.

Ficou ainda mais confuso? Barroco? Sei que não me explico bem. Talvez haja um vocabulário, no alemão ou no grego, ou entre os neologismos de Jacques Derrida, Naom Chomsky ou Martin Heidegger, um vocabulário que expresse esse pensar-com, esse ter-a-sensação-com, esse sentir-com. Ou talvez isso seja algo do qual não se fale – seja algo que apenas se sinta. Talvez o Arnaldo Antunes tenha chegado próximo ao cantar um olhar-com... um olhar que ora é seu, ora é meu.

Taí: Se a minha vida tivesse uma trilha sonora, cada vez que a Ludeju aparecesse nós ouviríamos Arnaldo Antunes e Zaba Moreau cantando O Seu Olhar.

sábado, 5 de julho de 2008

e-love 2

Certa vez li um artigo do Rubem Alves que dizia que relacionamentos são ou como tênis ou como frescobol. Esses são jogos muito parecidos: Em ambos há dois jogadores, duas raquetes, uma bola. Mas o barato do tênis é lançar a bola de modo que o outro não consiga devolvê-la: O bom jogador conhece o ponto fraco do outro, e é para lá que dirige a bola. E o barato do frescobol? É lançar a bola de modo que o outro consiga devolvê-la: Mesmo quando a bola vem meio torta, o jogador faz o maior esforço para devolvê-la no lugar certo, para que o outro possa pegá-la. Tênis é competitivo, frescobol é colaborativo. Ou, como diriam as minhas ameegas, tênis é carão, frescobol é carinho.

E os meus relacionamentos? Nenhum deles é 100% tênis ou 100% frescobol, pensei. Eles têm um pouco dos dois. Mas são mais como frescobol. Depois me dei conta que, na maior parte do tempo, quem ditava a regra dos meus jogos era o outro. Meu ponto de partida era frescobol – mas bastava eu receber uma bola atravessada para transformar-me numa tenista. E das vorazes.

Será que dá para estar assim no mundo – delegando tanto do meu humor, do meu estado de ânimo, da minha energia para o outro? Ah, não.

Então tomei uma decisão: O que o outro me dá é informação – eu escolho o humor, o estado de ânimo, a energia com que eu recebo e respondo a essa informação. Bom, não é fácil. Mas aos poucos estou conseguindo devolver no lugar certo, para que o outro possa pegá-la, essa bola que me vem meio torta. Acho que é um pouco o que Otis Redding chama de try a little tenderness.

Mas essa empatia, essa compaixão, essa ternura que eu lanço – será que é assim que chega ao outro?

Pois é: Nem sempre.

Teclando comigo, a Drica me diz que se sente num duelo de esgrima. Há, no que eu digo, uma certa sofisticação ou elaboração que não oferece conforto, que a deixa ansiosa, em guarda. Eu me desculpo, agradeço, digo que não é de propósito, não é consciente. Peço que ela me ajude – ela responde que sim, claro.

Grazie mille, principessa!

quarta-feira, 2 de julho de 2008

e-love

Que coisa linda, que coisa boa começar o dia hoje com essa mensagem de texto no meu celular: “Buon giorno, principessa! Que o seu dia seja iluminado! Keep running, keep texting, keep shining. Do seu leitor.”

Grazie mille, ragazzo mio.

sábado, 28 de junho de 2008

VELOCIDADE ESTONTEANTE

Pensei em qualificar a velocidade com que as coisas acontecem na minha vida de estonteante – mas daí que adjetivo restaria para qualificar a velocidade com que as coisas acontecem na vida da Mallu Magalhães? Desde que postei sobre ela, em fevereiro deste ano, a Mallu foi do mundo alternativo do MySpace para o mundo mainstream da publicidade. Creio que agora tout le monde et son père conheça a paulistana fofa de quinze anos – que compôs e interpretou esse papapapa-pá delicioso do comercial da Vivo.

Kátia, o nome da canção é J1 – será que você e a Ana são co-autoras?

sexta-feira, 27 de junho de 2008

SENDO FELIZ

Desfile do Lino Villaventura no SPFW verão 2009.

O segurança deixa que eu e três meninas, elas de credencial de imprensa, entremos na sala quando as luzes já se apagaram e a música já toca. Ficamos ao lado do pit dos fotógrafos, em pé – atrás de tantas outras pessoas em pé.

Uma das três meninas desabafa: “Ah, não dá pra ser feliz. Não vejo nada.” Outra responde: “Sério? Eu tô sendo muito feliz.” Eu sorrio. Elas percebem que presto atenção na conversa. Uma delas me diz: “Você tá sendo feliz.” Sim, do alto dos meus 1,81 metro de altura (en tacones), tenho uma boa visão do espetáculo de cores e formas geométricas do Lino.

À minha frente, um homem muito alto faz anotações concisas, rápidas e (imagino) precisas num bloquinho de papel. Ele tem altura, postura, estilo para estar na passarela. Aproximo-me para sentir o seu grau de felicidade. E então o reconheço: É o Alberto, de Zapping News, cobrindo o evento para o Agora São Paulo.

Se o jornalismo não der certo, Alberto, vá ser modelo!

quarta-feira, 25 de junho de 2008

ISSO É COISA QUE SE TEXTE?

Minha mãe me pergunta, com entusiasmo, sobre o casaquinho com cachecol que eu comprei para o meu cachorro Clio. O casaquinho que eu comprei do porteiro, ela esclarece. E então comenta: "Um porteiro que vende roupa de cachorro – isso eu ainda não tinha visto!"

Não é nada disso. Eu comprei, isso sim, um casaquinho com cachecol para a filhinha do porteiro do prédio onde eu moro, que nasceu há cerca de um mês. A confusão deu-se porque eu textei (ai, meus ouvidos!) essa informação para a minha irmã Marília de forma – agora reconheço – ambígua. Era algo como “comprei p bb do porteiro ksaco c kxecol mto fofo”. E a minha irmã leu, imagino, que eu havia comprado “para o meu bebê, do porteiro, um casaco com cachecol muito fofo”.

Esse esclarecimento desperta um olhar isso-é-coisa-que-se-texte? na minha mãe. What a WOMBAT, ela deve estar pensando. Para a minha mãe, a referência mais próxima do que eu lhe descrevo talvez seja o telegrama – uma comunicação que se convencionou reservar para informações de importância ou urgência. Eu não mandaria um telegrama para contar algo assim – é cla-ro. Nem ao menos faria um telefonema.

Mas e textar? Bien sûr! É tão objetivo, discreto, rápido, simples, gostoso – que se convencionou fazer mesmo para informações sem qualquer importância ou urgência. Talvez eu o use tanto porque os meus dois polegares deslizam sobre o teclado com rapidez e precisão – uma habilidade que desenvolvi em duas décadas de uso da calculadora financeira HP 12c. GFF: Uma calculadora de método antiquado (notação polonesa inversa) e design anacrônico preparou-me para os novos desafios da sociedade da informação.

YKW? Texto melhor do que muito adolescente: Quando houver um campeonato de texting por aqui, a taça é minha!

segunda-feira, 23 de junho de 2008

QUAL É A PARADA?

Quarta-feira, véspera de Corpus Christi, uns poucos dias antes da Parada Gay. Falo ao telefone com a veterinária da clínica onde o meu cachorrinho Clio treina agility: Ele teve uma parada cardíaca, ela o ressuscitou. Mas ele ainda corre risco de vida e precisa fazer, nas próximas horas, um eletrocardiograma, um ecocardiograma e um raio-X torácico.

Como é que é isso?

Como é que uma mesma palavra serve para nomear idéias tão opostas quanto parada cardíaca e Parada Gay? Para nomear a interrupção, a paralisação, a suspensão do funcionamento do coração – aquilo que, até os anos 70, era o próprio critério de morte, uma sentença de Thanatos. Mas, também, para nomear a mobilização, a participação, a celebração de um estilo de vida, de uma festa de Eros – aquilo que é o maior show da Terra, o mais magnífico, o maior e o mais grandioso espetáculo processional do mundo. Oops, essa é a street parade do circo Barnum & Bailey. Mas vocês me entendem.

O substantivo parada, no sentido de desfile ou marcha – e os seus correspondentes nas outras línguas românicas, parada (espanhol), parata (italiano), parade (francês), paradă (romeno) – vem do latim parere – de preparar, aparar, parir, esforçar-se para obter. E o verbo em português parar, no sentido de cessar – do qual parado/parada é o particípo? Vem, OMG, do mesmo latim parare – de preparar, aparar, parir, esforçar-se para obter. Segundo o Houaiss, o verbo parar só ganhou o sentido de cessar ou interromper no séc XIV. Até então, tinha o sentido de fazer, mobilizar, apresentar. Talvez daí venha parada, o desfile: Uma apresentação. Mas que o verbo parar tenha evoluído para significar o seu oposto, isso não me ajuda a eliminar o paradoxo entre os sentidos contidos em parada – apenas o confirma.

E a etimologia da palavra em inglês parade? Pois o nome Parada de Orgulho Gay é a, er, tropicalização de Gay Pride Parade – parade é uma palavra comum para desfile informal, não-militar, como em carnival parade ou Christmas parade. Bem, a palavra em inglês parede também vem do latim parere – através do moyen français parer. Isso também não me ajuda.

Fazer o que? Como dizia o meu orientador Celso Lafer na época de mestrado, talvez esse seja mais um paradoxo, contradição ou ambigüidade com o qual eu tenha que saber lidar.


QUAL É A PARADA? 2

E foi tirar esse enigma da minha cabeça para receber a sua solução. Talvez não a solução consensual e erudita, mas a solução que me faz sentido – e que mais uma vez me chega assim cantarolada, em versos do Chico Buarque:

O homem sério que contava dinheiro – parou
O faroleiro que contava vantagem – parou
A namorada que contava as estrelas – parou
Para ver, ouvir e dar passagem

Pra ver a banda passar, cantando coisas de amor

Voilà. Quem está parada é a Avenida Paulista – para ver, ouvir e dar passagem à maior mobilização da Terra!

sexta-feira, 20 de junho de 2008

MON JAPON

Para Douglas Mendez, que adoraria ter-me como amiga – eu também adoraria tê-lo como amigo!

O generoso comentário do Douglas Mendez no meu post O MEU JAPÃO chegou-me um pouco como a pequena madeleine que Marcel Proust mergulha no chá, e então saboreia.

“Invadiu-me um prazer delicioso, isolado, sem noção de sua causa”, que me levou de volta ao passado – melhor, trouxe-o para o presente: Estou de pé em frente a uma tela que retrata um homem de barba, que veste kimono, sentado no tatami em seiza ou em lótus e, a seu lado, um homem de barba, que veste calça e paletó, sentado numa cadeira. Nos meus ouvidos, tenho fones de um aparelho de audioguia. O audio transcreve uma carta que o pintor, francês, escrevera: “Mon Japon!”, ele suspira a certa hora.

O meu Japão, agora me dou conta, não é algo que eu criei ontem para expressar a minha experiência: É uma experiência de japonisme que eu ouvi num audioguia. Googlei algumas palavras e eis a tela: “Paul Alexis Lendo um Manuscrito a Zola”, de Paul Cézanne. Ocorre que a tela é parte do acervo do Masp, onde jamais fiz um tour audioguiado. Aliás, não acredito que o Masp ofereça esse serviço.

Será que eu estou criando agora esse passado? Será que eu combinei a minha experiência frente a “Paul Alexis Lendo um Manuscrito a Zola” no Masp com uma outra, como aquela frente a “Retrato de Émile Zola”, de Édouard Manet no Musée d'Orsay? Sim, pois no Musée d’Orsay fiz tours audioguiados.

Não sei. Mas é-me muito libertador, BHY, saber que, ao contrário do que argumentei em fevereiro deste ano, posso não apenas atribuir um novo significado a uma experiência do passado: Posso também mudar o meu passado.

quarta-feira, 18 de junho de 2008

O MEU JAPÃO

Para três nipo-brasileiros novos ao meu mundo: Shoichi Iwashita, Too-tsie e Edson Matsuo

Certa vez li a Natalie Merchant reconhecer que era difícil continuar a ouvir algumas canções de grande sucesso do 10,000 Maniacs – canções cujas letras ela escrevera aos 17, 18 anos. Vi a Alanis Morissette falar algo semelhante sobre Jagged Little Pill, o álbum que vendeu 30 milhões de cópias – e que ela lançou aos 21 anos.

Para mim, é-me um pouco difícil até mesmo ler posts do Religare! que escrevi em fevereiro do ano passado – ou alguns que escrevi em fevereiro deste ano. Passam-se algumas poucas semanas, BHY – e agora eu já ouviria, veria e diria de forma diferente, pelo menos um pouquinho. A minha verdade já mudou, pelo menos um pouquinho – e aqui me vejo diante de uma dimensão interna do “quid est veritas?” de Pilatos.

E ler uma monografia que escrevi há 22 anos? É um desafio e tanto, BHY. Compartilhá-la com vocês? Humph. Ainda assim, resolvi disponibilizar essa monografia online.

Explico.

Em 1986 venci, com essa monografia, um concurso da Japan Airlines. Como prêmio passei, ao lado de outros 50 vencedores, de quinze países – acho que era isso –, passei dois incríveis meses vivendo no dormitório da JAL em Chiba, e estudando na Universidade de Sophia em Tóquio.

Na monografia, falo da imagem dos japoneses no Brasil – que se construiu, em muito, com a chegada do navio Kasato Maru a Santos em 18 de junho de 1908 – há cem anos! Mas, agora me dou conta, na monografia falo mesmo é do meu Japão. Depois eu elaboro um pouco.

Por ora, ao Japão de cada brasileiro, e ao japonês em cada brasileiro: Banzai!

YESHUA BAR ABBA

Para mim, abba foi primeiro o grupo sueco pop, o de Dancing Queen e Knowing Me, Knowing You, depois um tipo de rima na poesia, onde o primeiro verso rima com o quarto, e o segundo com o terceiro, e só então – e muito recentemente – a palavra em aramaico para pai.

Por que falo sobre isso agora?

Porque alguns estudiosos argumentam que decorre daí, do desconhecimento das palavras em aramaico para “filho de” (bar) e pai (abba), decorre daí boa parte do anti-semitismo.

Explico.

Nos textos do Novo Testamento, que foram escritos originalmente em grego koiné, Jesus dirige-se a Deus como abba ou pai. Esse dirigir-se a Deus com intimidade contrariava a tradição judaica de dirigir-se a Deus com temor ou subserviência. E teria valido a Jesus também o nome Yeshua bar Abba: Jesus, o filho do Pai.

Portanto, quando Pilatos perguntou à multidão de judeus “qual dos dois vocês querem que eu solte?”, e eles responderam “Barrabás!” – quem eles realmente queriam soltar era bar Abba, nome que foi helenizado para Barrabás.

Será que é esta a verdade? Aqui eu responderia como Pilatos: Quid est veritas?

Para os cristãos, a verdade é que Jesus é o filho de Deus encarnado. Para os muçulmanos, que ele é um dos profetas mais amados por Alá. Para os judeus, que ele não é o Messias. Para alguns historiadores e arqueólogos, que Jesus foi um líder judeu entre tantos. Para outros, que ele é um personagem fictício da mitologia cristã.

Para mim, e agora me refiro a bar Abba e Barrabás, a verdade é que essa teoria dilui o anti-semitismo. E qualquer teoria que dilui o ódio, o medo, a aversão, a discriminação a grupos de pessoas, em decorrência de etnia, nacionalidade, gênero, espiritualidade, orientação sexual, idade, necessidades especiais – qualquer teoria dessas é a minha religião.

segunda-feira, 16 de junho de 2008

ERRAMOS: YESHUA BAR YOSEF

Faça você mesmo: Entre no Google, digite Yeshua ben Yosef, e clique em Pesquisa Google. O Google buscará e encontrará 7.720 páginas da internet com o texto Yeshua ben Yosef, e listará os resultados por ordem de relevância. Este blog estará entre as três primeiras páginas de web encontradas.

E é assim, informa-me o contador do Religare!, Site Meter, que muitos vêm aqui: Em busca de Yeshua ben Yosef.

Como é que é isso? Será que o que este blog diz sobre Yeshua ben Yosef, que eu sugeri ser o nome verdadeiro de Jesus de Nazaré, é mesmo tão relevante? É mais provável, agora me parece, que Yeshua ben Yosef não seja o nome verdadeiro de Jesus de Nazaré.

Explico.

Jesus é a helenização de um nome em hebraico – um nome que se acredita ser ישוע .ישוע pode ser transliterado para o inglês (e para línguas românicas, imagino) como Yeshua, Yeshu ou Yehoshua – a forma preferida por estudiosos é Yeshua.

Na época do nascimento de Jesus, os judeus não usavam sobrenome: As pessoas (ao menos os homens) eram chamadas de Fulano, filho de Beltrano. Em hebraico, “filho de” é ben. Mas na época do nascimento de Jesus, o aramaico havia substituído o hebraico como língua falada. Em aramaico, “filho de” é bar. Portanto, um melhor nome verdadeiro para Jesus de Nazaré – Jesus, filho de José – é Yeshua bar Yosef.

É pouco provável que este blog tenha boa colocação numa busca Google por Yeshua bar Yosef: Yeshua bar Yosef é o nome inscrito em um ossuário de pedra calcária de cerca de dois mil anos, encontrado recentemente em Israel. Segundo documentário co-produzido por James “Titanic” Cameron e Simcha Jacobovici, e exibido milhares de vezes pelo Discovery Channel, esse ossuário guarda os restos mortais de Jesus de Nazaré – tese que, se comprovada, derrubaria a teologia da ressurreição do Filho do Homem.

domingo, 15 de junho de 2008

ET VOILÀ TON JARDIN!

Veja, Kátia. Não fui acometida por uma crise de preguiça, por bloqueios generalizados, como me ocorreu no ano passado, ou mesmo por writer’s block. Se eu falasse aqui da vida alheia, imagino que sempre sairia como o som de Tim Maia, sem grilos de mim. Mas como falo da minha própria, e de coisas densas da minha própria, por vezes esbarro – não sempre numa crise de preguiça, em bloqueios generalizados ou mesmo em writer’s block. Por vezes esbarro – melhor, perco-me no universo de possibilidades de como narrar uma experiência.

Sim, porque os meus queridos leitores não vêm aqui em busca de novidade, de informação. Os meus queridos leitores já sabem que esta blogueira, embora nascida sob o signo de Áries, não quer chegar antes. Os meus queridos leitores já sabem que esta blogueira, embora nascida no ano do Coelho, não tem pressa, muita pressa. Os meus queridos leitores vêm aqui em busca de experiência. Da minha experiência onde, vai saber como, os meus queridos leitores enxergam as suas próprias.

E são muitas, e muito ricas, as experiências das últimas semanas. Estou utilizando as novas descobertas da neurociência para tornar mais doce, divertida a aprendizagem das crianças na minha roda de leitura. Aperfeiçoei algumas das minhas técnicas gastronômicas – como a de caramelização do aceto balsâmico. Apresentei aos magos do engenho & arte na Melissa-Grendene, com sucesso, certos, er, conceitos de experiência sensorial no pós-venda. Estou ajudando a administração do condomínio onde vivo a limpar o seu entulho autoritário. Estou explorando (as dores) e a delícia de trabalhar com comunicação social. Passei pela dor, às vésperas da Parada Gay, de lidar com a parada cardíaca do meu cachorrinho Clio. Estou, como diria Max Weber, buscando comprovação de que sou parte do povo eleito – entre outras coisas, participo do concurso de contos do Estadão. O meu grupo de desenvolvimento pessoal no ISH, após proposta de dissolução, avança um bocado na direção de entender, trabalhar e melhorar o intento. Salvei a fase UOL do Religare! de um inexplicável desparecimento virtual.

É. Este blog está fora do Chronos da novidade, da informação: Este blog está no Kairos da experiência. Mas nem todo mundo vêm aqui em busca de experiência. Muitos vêm aqui em busca de Yeshua ben Yosef – que, como sugiro em YESHUA BEN YOSEF, é o nome verdadeiro de Jesus de Nazaré. Sobre isso falo em seguida.

domingo, 25 de maio de 2008

ERRAMOS: LÚCIA RENNT

Do trocadilho já se disse que é o menos sofisticado dos recursos retóricos, a mais simplória forma de humor, a mais baixa manifestação de inteligência.

Ainda assim, não resisto a fazer um trocadilho com o genial Run, Lola, Run de Tom Tykwer ao escolher o título do post sobre a minha amiga Julie que está sempre, er, correndo. Ou dos posts sobre as minhas bem-aventuranças e mal-andanças com a, er, corrida. Ok, é mais uma referência do que um trocadilho.

Talvez pior faux pas de redação e estilo seja transcrever palavras numa língua que não é nem aquela em que as palavras foram originalmente proferidas, nem aquela em que se escreve o resto do texto. Para dar um exemplo que talvez só eu e a minha grandeamiga Fernanda de L. achemos engraçado, ao citar trechos de A Montanha Mágica de Thomas Mann num texto em português, não use o original em francês! (Confirmado: Só eu e a Fernanda de L. achamos engraçado.)

Ainda assim, não resisto a usar o título com que o alemão Lola rennt é conhecido, diz o IMDb, na Austrália e nos Estados Unidos.

Imagino que The New York Times Manual of Style and Usage reprove ambas as escolhas. Mas vou deixar assim: Run, Lola, Run é bom pra caramba.

RUN, LÚCIA, RUN 4

Feriado de 21 de abril, 17 horas. Chego ao clube Paulistano. Tenho um encontro com a Emília na Avenida Paulista às 19 horas para assistir a My Blueberry Nights. Procrastinei o dia todo. Deixei essa janela, essa fresta entre 17 e 18 horas para treinar.

Chego ao clube Paulistano mas não vou logo às esteiras. Não. Passo pelo bar, pelo café. Procuro, então me dou conta, uma Raposa ou um Gato. Não uma Raposa ou um Gato para me convencer, como ao Pinocchio, a “mangiare, bere, dormire, divertirmi e fare dalla mattina alla sera la vita del vagabondo”. Não. A minha Raposa ou o meu Gato quer a minha opinião sobre a taxa de câmbio, desabafa comigo as suas preocupações com o filho adolescente, pondera porque devo ser contra a reforma da piscina projetada por Gregori Warchavchik. Não me basta distrair-me e então concluir que ficou tarde para treinar. Não. É preciso, BHY, que eu sinta que renunciei a esse treino por um bem maior, que eu deixei de treinar por altruísmo.

Passo pelo bar, pelo café. Nada de Raposa, nada de Gato. O celular toca. É a Marise. Explico-lhe que em cinco dias farei a Reebok 10 km, que desde aquele momento Scarlett O’Hara treinei três vezes. Sim, três vezes apenas. Em dois dos treinos, corri, melhor, trotei por trinta minutos a 7 km/h; no terceiro trotei sessenta minutos a 6 km/h. Nessa velocidade é mais fácil caminhar do que correr ou trotar.

Cada um desses treinos – e eu digo agora, Fabiano, o oposto do que eu disse antes –, cada um desses treinos teve lá o seu prazer: O prazer da missão cumprida, o prazer do apesar-dos-pesares-eu-fiz, o prazer do até-que-não-foi-tão-ruim, o prazer do até-que-eu-gostei. No final de cada um desses treinos parecia que agora-vai-deslanchar, amanhã-vai-ser-tão-fácil-treinar.

Qual o quê.

O que está em jogo aqui, Marise, além da força do hábito?

Não são só quarenta anos de força do hábito, ela pondera lembrando argumento de Drauzio Varella, mas também milhares (ou mesmo milhões) de anos de herança ancestral. Fomos construídos para viver num ambiente de escassez de alimentos: Acumulamos energia na forma de gordura, poupamos energia através da preguiça. Devo fazer exercícios físicos? Claro, diz o Dr. Drauzio. Devo esperar a disposição para fazê-los? Não, a disposição jamais virá: Faça exercícios físicos com disciplina militar.

Estou muito tentada, respondo, a poupar energia e a ficar conversando com você. Silêncio. Desligou, Marise?

Claro: Marise é espiritualidade em tudo, o budismo no dia-a-dia, a pessoa mais aqui e agora que eu conheço. E aqui e agora, ela é o Grilo Falante.

Quarto treino: 45 minutos a 7 km/h.

sexta-feira, 16 de maio de 2008

RUN, LÚCIA, RUN 3

Não sei o que foi, se senti dúvida, ceticismo naquele silêncio, se me senti desafiada, provocada. Só sei que foi assim, Fabiano. Senti o vigor da certeza crescendo em mim, como se o meu ego, o meu id e o meu super-id se alinhassem, como se todas as minhas células se sintonizassem e – ah, que poder, que fuerza, que yang, que mobilização, que Scarlett O'Hara jurando para si mesma "eu nunca mais vou passar fome"! Amanhã eu volto a correr, prometo para mim mesma. Já me visualizo concluindo a maratona de Nova York. Ou Paris. Ou Berlim. Que pena que já é tarde da noite, senão eu começaria aqui e agora. But tomorrow is another day, Scarlett: O dia em que darei vida ao meu eu maratonista.

Não sei bem como isso se dá, Fabiano. Mas na manhã seguinte ficar um pouco mais na minha cama apresenta-se como uma proposta irresistível de felicidade. Sair da minha cama para correr – sounds like a really bad idea. Correr de quem? Correr para que? E que eu tenha feito uma promessa a mim mesma, que hoje eu volto a correr – agora me parece algum deslize de bom-senso, algo movido por vaidade, por orgulho. Volto a dormir.

RUN, LÚCIA, RUN 2

Verão de 2008. Uma amiga conta-me que ficou com um bonitão num cruzeiro de navio. Não o meu cruzeiro; outro. Envolve-se. De volta à terra firme, encontra o seu perfil orkut. Relacionamento: “Namorando”. Sniff. O que não suporto: “Mentira e traição”. Quê? Com os relacionamentos anteriores aprendi: “Que prefiro as dores da verdade às flores de mentira”. Grrr. Comunidades: “Confiança é igual virgindade”. “Fidelidade é tudo”. “Amo tudo em minha namorada”. “A verdade dói, a mentira mata”. *&%$@#!

Mentira, hipocrisia, falta de caráter, personalidade borderline? “O que você acha?”, ela me pergunta.

Faltou-me, agora me dou conta, a presença que a empatia requer. Ponho-me a fazer, bem, uma análise dessa faceta da condição humana. Por vezes, eu argumento, as pessoas identificam-se com virtudes ou hábitos que admiram – mesmo que lhes faltem. Veja o orkut. Conheço pessoas filiadas à comunidade “Adoro ler livros” que estariam melhor representadas numa comunidade “Um dia ainda termino de ler um livro”. Haveria mais honestidade se os membros de “Odeio mentira” que eu conheço migrassem para “Odeio que mintam para mim”. “Inteligência é afrodisíaca”? Os afiliados que eu conheço encontrariam mais ressonância em “Beleza e poder (mesmo em pessoas burras e superficiais) são afrodisíacos”.

Propaganda enganosa? Não, eu continuo, não necessariamente. Talvez essas pessoas estejam buscando as virtudes ou os hábitos que admiram e que lhes faltam. Talvez elas o estejam fazendo cercando-se da energia dessas virtudes ou desses hábitos – não é essa a idéia dos mantras, da programação neurolingüística? De O Segredo? Dos Vigilantes do Peso? Dos Alcoólicos Anônimos?

Mmm.

Olhemos o meu perfil no orkut, sugiro. Ao participar da comunidade “A Loca”, eu digo “seria incrível ter a energia de ir à Loca todos os domingos – o que não tenho há mais de um ano”. “CB Bar”? “Seria incrível ter a energia de ir ao CB todos os sábados – o que só tive uma vez”. “Iranian Cinema”? “Amei ter assistido a quatro filmes iranianos – o último deles, À Caminho de Kandahar, há sete anos”. Ela se anima. Com a minha filiação à comunidade “Run!”, ela argumenta, eu quero dizer “eu corro de quem me convida para correr.”

Epa! Alto lá! O que está acontecendo aqui, BHY? Só eu posso falar dos meus vícios com toda essa leveza e humor. Ah, não!, eu intervenho. Com “Run!” quero dizer “correr me faz bem, em breve voltarei a correr”.

Silêncio.

RUN, LÚCIA, RUN 1

A proximidade das Olimpíadas de Beijing lembra-me que há dois temas que eu gostaria de compartilhar com vocês: As minhas bem-aventuranças e mal-andanças com os esportes, e a minha relação, er, especial com o Tibete.

Começo com os esportes. Não sou naturalmente esportiva. Futebol é bonito – sobretudo quando são dribles em câmera lenta, tomada fechada, e ao som de Que bonito é. Atletismo é maravilhoso – sobretudo quando visto pela lente renascentista de Leni Riefenstahl. Basquete é uma explosão – sobretudo se assisto a um jogo do Nicks no Madison Square Garden.

Quanto aos esportes que eu pratico. Corrida e natação são as âncoras, no meio de várias novidades aeróbicas como step, street dance e spinning. Nos períodos em que pratico com freqüência e continuidade, eu o faço mais por disciplina do que por runner’s high ou qualquer outro tipo de prazer. Não curto a energia “woohoo, galera!” que cerca essas atividades, não desejo mais e melhores tênis de corrida, maiôs ou monitores cardíacos, tampouco vibro por efetuar um deslocamento, em terra ou em água, num menor intervalo de tempo.

É uma relação um bocado tênue, eu reconheço. Qualquer coisa me afasta da prática dos esportes – e poucas coisas me levam de volta.

quarta-feira, 7 de maio de 2008

THAT DOES NOT COMPUTE, WILL ROBINSON

Acabo de conhecê-lo e ele me pergunta de onde eu sou. Intuo que ele queira saber de onde eu conheço o aniversariante, ou em que bairro de São Paulo eu moro. Não. Esse paulista me pergunta mesmo de que país eu sou. De que país da Europa eu sou, ele esclarece.

Não fosse ele lindo lovely sexy, eu teria respondido de pronto: Sou brasileira, paulistana. Mas essa pergunta fica ali congelada – eu sorrio enquanto algum locus do meu cérebro percorre minha memória em busca de informações e experiências que, associadas ou reassociadas, me ajudem a valorar aquela pergunta: Que eu tenha uma aparência européia, isso é bom ou ruim? De um homem, que se diga que ele parece italiano, isso é bom. Mas europeu? Mmm. E de uma mulher? Italiana seria bom. Ou não?

Não tem registro, Will Robinson.

É que eu falo de boca fechada, ele me explica, o que é típico dos povos ao norte do Equador. Durante invernos rigorosos, é preciso usar o calor e a energia do corpo com parcimônia – inclusive falando pouco, mais rápido, e de boca quase fechada.

Quê? Perigo, Will Robinson.

Procuro numa janela o meu próprio reflexo, tento imaginar o quanto a minha boca abre ao pronunciar cada sílaba. Percebo-me prestando atenção não no que ele fala, não no que as pessoas falam – mas em como os seus lábios se movem enquanto eles falam. É esse o olhar do dublador, Herbert? Do leitor de lábios, Alezito? Do fonoaudiólogo, Marília?

Por alguns dias, I can’t take my mind off of it. Googlo climate, language, lips. E encontro algumas teorias que correlacionam – caramba! – clima e sonoridade de idiomas. Pego-me falando algumas coisas em frente ao espelho. O rato roeu a roupa do rei de Roma. The rain in Spain stays mainly in the plain. Olho o lábio das pessoas com que converso – algumas parecem incomodadas; desvio o olhar. Na TV, observo como jornalistas de idiomas e culturas distintas comunicam uma mesma informação. Globo News, CNN, BBC, Deutsche Welle, TVE, RAI, TV5.

Observo tudo isso, experimento tudo isso – é, algumas pessoas abrem mais a boca do que as outras. Mas meu cérebro não cria nada com isso. Ainda não tem registro, Will Robinson.

Alguns dias depois, estou na Livraria Cultura. Folheio The Game: Penetrating the Secret Society of Pick-up Artists, de Neil Strauss. Eu também não sabia, mas há uma cultura de sedução nos Estados Unidos, que faz uso de ferramentas mais comumente associadas à comunicação social e à neuro-lingüística. Enfim. Uma das táticas mais bem sucedidas, ensina o autor, é o neg hit ou cantada negativa – uma frase ou pergunta inusitada e ambígua, algo entre o elogio e a crítica. O neg hit funciona porque, entre outras coisas, gets her to think of the neg hit; therefore, gets her to think of you.

Was he neg hitting on me? Ah, não importa. Meu cérebro encontrou algum significado para aquela pergunta, aquele comentário. Closure, caso encerrado, resolução. Mas a grande descoberta aqui, a grande conexão, foi eu ter-me dado conta desse meu, er, sistema de busca e atribuição de sentido ou significado ao mundo, às minhas experiências.

E esse sistema é bom ou ruim? Como sistema ou ferramenta, imagino que seja bom. Mas uma coisa é esse sistema ser disparado como resultado de uma escolha que faço aqui e agora. Outra coisa, e muito diferente, é que ele opere em piloto-automático, buscando o significado de estímulos, ou ansiando por respostas a perguntas – apenas porque esses estímulos ou perguntas apertaram, em mim, certos botões.

E há algo mimético nisso. Não é só "o que ele quis dizer com eu falo de boca fechada?". É também, com 186 milhões (ouch!) de brasileiros, "que motivo do crime o promotor Francisco Cembranelli apresentará na sua denúncia?", "a Nike manterá o contrato com o Ronaldo?". É esse automatismo, imagino, que nutre a curiosidade superficial e saltitante (die Neugier) de que fala Martin Heidegger.

Atenção pick-up artists, marqueteiros, id e super-id: Começo a entender como seus neg hits e teasers se operam em mim! More power to me!

High five, Will Robinson!

terça-feira, 6 de maio de 2008

FAZENDO A CLEÓPATRA

Mas por que falo de Cleópatra agora?

Porque na semana passada um, er, presentear lembrou-me desse de Cleópatra a Júlio César. Explico, Fabiano.

Você e os meus leitores, imagino, lembram-se da minha amiga Kaká, ah Libanesa, aquela que ME FAZ TÃO BEM. Pois. No final de janeiro, talvez vocês também se lembrem, ela se mudou para Dubai. Em São Paulo ela deixou dezenas de amigos, centenas de leitores, dois cachorros – y su madre Ana también.

Enfim. Noite de segunda-feira. Kaká pede que seu confidente Tony Goes atraia Ana até o prédio onde ele mora (e onde mora esta blogueira). Ela (Ana) deve buscar, naquela mesma noite, uma encomenda da Kaká, que chegou ao Tony em São Paulo por uma Paula, vindos (a encomenda e a Paula) de Dubai.

Ana chega. Tony a espera na portaria do prédio. Entrega-lhe a encomenda: Uma mala, e das grandes. E não é só isso, ele explica a uma constrangida Ana. O resto, ele precisa da ajuda da Ana para carregá-lo.

Dirigem-se ao elevador. E eis que, de trás de uma coluna, surge a audaz, ousada, linda e sexy Kaká. Em passagem-relâmpago por São Paulo, a primeira desde que se mudou para Dubai, a Libanesa presenteia su madre com, er, si mesma. Su madre está dichosísima y emocionadísima. A Kaká, vestida de Jeannie é um Gênio, não fez a egípcia: Ela fez a Cleópatra.

Mas será que foi mesmo assim?

Sim: Eu estava lá. A Kaká não me convidou para essa trama. Mas o Tony me contou, e eu me aboletei. Eu também não fiz a egípcia: Eu fiz a íntima.

segunda-feira, 5 de maio de 2008

O NARIZ DE CLEÓPATRA

Falemos um pouco mais de presentes, Fabiano. Vamos agora para Alexandria, costa norte do Egito. 48 a.C. Sobra pouco, ao Egito, do esplendor e poder que conhecemos em Êxodus. Roma é o novo Egito.

Conta-nos Plutarco que, buscando apoio para reger sozinha o Egito (e não dividir o trono com seu irmão e marido Ptolomeu 13, como era o desejo do falecido pai dos dois, Ptolomeu 12), a jovem Cleópatra faz com que seu confidente Apolodoro leve até o cônsul romano Júlio César, hospedado no palácio dos Ptolomeus em Alexandria (onde Cleópatra é persona non grata), um presente. Esse presente é um tapete. Bom, Plutarco diz uma colcha – mas uma colcha?

Enfim. Desenrolado, esse tapete revela a audaz, ousada, linda e sexy Cleópatra. Tão maravilhado ficou Júlio César que Cleópatra levou o trono do Egito. E, ainda, um filho do cônsul romano – que ela tratou de batizar de Ptlomeu César, e de chamar de Cesarion. (Cleópatra, todo mundo sabe, mais tarde levaria também Marco Antonio.)

E tão maravilhados ficamos nós com esse, er, presentear com si mesma que não nos cansamos de ver a Cleópatra de Elizabeth Taylor, Vivien Leigh, Claudette Colbert e de todo mundo desenrolar-se daquele tapete para Júlio César.

Mas será que foi mesmo assim?

Imagino que não saberemos como realmente aconteceu esse primeiro encontro. Por Osíris, foi em 48 a.C.! E Plutarco escreveu circa 110 d.C. As atuais pesquisas no Palácio de Alexandria submerso podem, é verdade, revelar-nos novas informações desse encontro – mas, reconheçamos, mesmo essas informações refletiriam não como aconteceu o encontro, mas como Cleópatra escolheu que ele fosse registrado. A história é escrita pelos vencedores – e eles têm as suas versões dos fatos.

Mas há uma nova informação que nos permite, ao menos, uma releitura desse primeiro encontro: Uma moeda com o perfil de Cleópatra, datada de 32 a.C., exposta na Inglaterra em 2007, revela-nos – por Ísis! – que Cleópatra era um bocado feia. O seu nariz não era longo, como acreditaram Pascal e os leitores de Asterix, incluindo esta blogueira – mas adunco. Fosse produzido hoje, Monica Bellucci estaria fora do elenco de Astérix & Obélix: Mission Cléopâtre.

E isso, em contraponto, sugere que Cleópatra era ainda mais inteligente do que imaginávamos. De fato, é preciso inteligência para seduzir os dois homens mais poderosos de Roma. Seduzir os dois? É preciso inteligência para presentear um dos homens mais poderosos de Roma. Veja Ptolomeu 13. Buscando apoio para reger sozinho o Egito, Ptolomeu 13 também presenteou Júlio César – com a cabeça arrancada do general Pompeu, adversário de César em Roma. Não funcionou: Júlio César ficou chocado com tamanha barbárie.

Voltemos então ao segundo parágrafo: Desenrolado, esse tapete revela a audaz, ousada, inteligente e sexy Cleópatra. Agora sim. E talvez M Pascal, estivesse vivo, editaria o seu “le nez de Cléopâtre: s'il eût été plus court, toute la face de la terre aurait changé.”: L'intelligence de Cléopâtre: s'elle eût été plus court, toute la face de la terre aurait changé.”

terça-feira, 29 de abril de 2008

TODO O PODER AOS GENEROSOS

Fabiano, se você estiver na costa noroeste dos Estados Unidos e do Canadá, entre Oregon e Alasca, e for convidado para um potlach em uma comunidade indígena, não se preocupe em levar um presente. Preocupe-se, sim, em como trazer para o Brasil todos os seus presentes. Explico: Depois de entretê-los (os convidados) com gastronomia, música e dança, o homenageado distribuirá todos os seus bens entre vocês. E se houver rivais do homenageado entre os convidados, é possível que ele, o homenageado, destrua parte de seus bens.

Os praticantes do potlach não acumulam riqueza? Acumulam, sim. E a custo de muito trabalho – eles não são a cigarra da fábula de Esopo. Mas acumulam riqueza tão-somente para, em seguida, distribuí-la, presenteá-la, desfazer-se dela – eles não são a formiga da fábula de Esopo. Na época de ouro do comércio de pele de animais, a riqueza era tanta, e o potlach era tão suntuoso e extravagante, que os governos dos Estados Unidos e do Canadá chegaram a proibí-lo. Sim: No mundo protestante de austeridade e parcimônia, o potlach é uma perda irracional de recursos.

Por que todo esse desprendimento, todo esse presentear, toda essa generosidade? Tudo isso, intuo, revela uma fé absoluta na abundância do universo, no Deus-dará, na força da comunidade – o que, por si só, deve ser uma libertação, uma leveza, um luxo.

Mas para antropólogos (e alguns economistas), o potlach é uma manifestação típica daquilo que chamam de economia do presente. Na economia do presente, bens e serviços circulam sem um acordo explícito de pagamento imediato ou futuro: A dádiva gera recompensas sociais ou intangíveis como o karma, a honra, a lealdade, a gratidão. O potlach, para os seus praticantes, é a medida de status social: Aqueles com mais prestígio ou poder num clã ou numa tribo não são os que têm mais riqueza – mas sim os que se desprendem mais dessa riqueza, os que presenteiam mais, os que são mais generosos.

Fabiano, já na costa sudeste do Brasil, em São Paulo, a celebração do meu aniversário – se a celebração do meu aniversário fosse um potlach, esta blogueira teria sido destituída de qualquer prestígio ou poder. Já a minha família e os meus amigos, eles estariam num grande empate técnico: Foram muitos os presentes, foram muitos os bens e serviços que circularam. A todos os que me presentearam no meu aniversário – para me ater à blogosfera, o Carioca Virtual e o BHY –, a vocês todo o prestígio, o poder, o karma, a honra, a minha lealdade e a minha gratidão!

quarta-feira, 16 de abril de 2008

DE TOLERANTIA

Sou um pouco como naquela canção do Sam Cooke: Don’t know much about geography, don’t know much biology. Sei ainda menos sobre a teoria dos redutos, como a chamam os geógrafos, ou dos refúgios, como preferem os biólogos. A última vez em que olhei temas desse universo com rigor foi nos anos 80, quando traduzi o livro Biologia da Poluição.

Mas nasci e cresci entre cientistas. E conheço o geógrafo Aziz Ab’Saber para saber, como naquela canção do Spandau Ballet, to know this much is true: Ele é uma das pessoas mais éticas e lúcidas do país. É verdade que sou suspeita. Respeito e admiro o professor Aziz não só como homem público (o cientista, o professor, o cidadão) mas também como amigo: Os laços que unem o meu pai ao Professor Aziz, e a minha família aos Ab’Saber, são a própria definição de philia.

Também respeito e admiro o zoólogo e compositor Paulo Emílio Vanzolini, inclusive na esfera pessoal. Até os meus vinte e poucos anos, fomos vizinhos. Vizinhos de fundo. E convivi muito com os seus filhos Fernanda e Toni.

Portanto, lendo a matéria de Eduardo Geraque na Folha de São Paulo, sinto-me diante de algum tipo de erro. Alguém, e de alguma forma, cometeu um erro de discernimento ou de comunicação. E diante do que leio, eis o meu discernimento: Não, o Professor Aziz não está “nessa fase de invenção, de dizer que ele descobriu a teoria dos refúgios”, tampouco ele “colocou isso na internet”.

Como já lhes contei, procuro ser tolerante diante de certos erros de discernimento ou de comunicação – inclusive quando sou objeto desses erros. Por exemplo, também já lhes contei, quando alguém usa palavras duras como frivolidade, hipocrisia ou burrice para se referir à minha escolha de dieta vegetariana. Esclarecer-me, justificar-me, defender-me muitas vezes não vale a pena: Deixe que esses erros evanesçam. Assim é se lhe parece, diria Luigi Pirandello. Cada um pensa como pode, diria Mário Quintana.

Mas a tolerância só é uma virtude, diria André Comte-Sponville, se acompanhada de limite. E uma sugestão de apropriação indevida de tese científica, em letra impressa – no meu discernimento, aqui o limite foi ultrapassado. E, diante disso, são precisos uma retificação e um pedido de desculpas ao Professor Aziz. Não dá para fazer por menos.

E enquanto não acho (melhor: não procuro) a fotografia do meu pai com um filhote de onça no colo, a bordo de um navio numa expedição no Rio Amazonas, ilustro este post com outra foto dele – aqui no III Seminário Sobre a Realidade Amazônica. Tratei de colocar-lhe um papagaio no antebraço. Não sei se chega a causar um estranhamento, um ostranenie, como numa foto de Juergen Teller. Mas que ficou fofo, ficou.


HE’S TOTALLY LIP-SYNCHING!
Papagaio! Por Herbert Richers e a sua descendência! Esse vídeo do Spandau Ballet para True é o pior lip-synching da história das imagens! É ainda pior, Too-tsie, do que Britney Spears em Gimme More nos VMAs. É alguma brincadeira que eu não consigo entender? Se fosse Laurie Anderson ou David Byrne, eu diria que se trata de uma proposta de estranhamento. Mas aqui – está parecendo negligência, imprudência ou imperícia mesmo.

sábado, 12 de abril de 2008

O BEIJO

Esse beijo estampado, parede a parede, na estação de metrô Vila Madalena, no anúncio do novo filme de Wong Kar Wai, esse beijo que tem algo daquele de Gustav Klimt, apenas os rostos e as mãos visíveis, os restos dos corpos mesclados, fundidos, como que no mito de Aristófanes, esse beijo que me faz parar, olhar e desejar ficar ali bem mais – elegi esse beijo de Jude Law e Norah Jones na estação de metrô Vila Madalena a experiência urbana mais deliciosa da minha semana.

quinta-feira, 10 de abril de 2008

LENDO IMAGENS

No doubt everyone has seen Victoria Beckham in the Marc Jacobs ads. Bom, ao menos um desses anúncios. E, bom, algumas pessoas, como esta blogueira, não tinham idéia de que as pernas que saem de uma enorme bolsa (uma sacola, das de compras) na qual se vê C JAC, e que nossos olhos lêem Marc Jacobs, os pés com sapatos cujos saltos estão no antepé, e não no calcanhar – de que essas pernas eram da Posh Spice. A mulher mais fotografada do mundo, que aprendemos a ver montadérrima e fazendo carão, aqui se permite ser retratada um pouco fora de controle, um pouco feia, um pouco desajeitada, um pouco pastelão.

Uma imagem fala por mil palavras. Mas será? Tantas imagens ao nosso redor, tantas delas de coisas ou pessoas que nos são tão familiares, tendem a automatizar o nosso olhar. Diante de uma imagem de Ms. Beckham, por exemplo, o cérebro desta blogueira está programado não para olhar, mas para sentenciar. E não em mil palavras, mas em três. Ela está bonita. Ela está feia. Ela está magra.

Mas ver Ms. Beckham um pouco fora de controle, um pouco feia, um pouco desajeitada, um pouco pastelão – isso nos desperta um certo estranhamento, provoca-nos um segundo olhar. Agora aquilo que me é familiar deixa-me maravilhada, instigada, curiosa. Não é mais "ela está bonita?" (e a sua resposta binária, sim ou não), mas "o que acontece aqui?" – e a sua resposta cheia de possibilidades.

Essa descoberta, de que eu olho o que me é familiar com automatismo – mas posso olhá-lo com o maravilhamento, a instigação e a curiosidade daquilo que me é novo, essa descoberta já é muita coisa. Mas esta blogueira adora ir além, adora saber what’s behind the scenes.

Mas saber what’s behind the scenes não é (re)transformar o estranhamento em familiaridade ou mesmo banalização? Não é substituir uma mágica por um truque? E quando esse behind the scenes se revela por palavras? Ler sobre imagens não é, parafraseando Steve Martin, como dançar sobre arquitetura?

Não para mim – pelo menos não por ora. As mil palavras de Cathy Horin sobre a colaboração entre Marc Jacobs e o fotógrafo Juergen Teller – mais: sobre o diálogo entre a publicidade e a arte –, essas mil palavras educam, apuram o meu olhar. E deixam-me, diante dessas imagens que provocam um segundo olhar, e uma pergunta diferente da banalidade do "ela está bonita?", deixam-me ainda mais maravilhada, instigada, curiosa.



Para ver as tais fotografias:
Entre no site do Marc Jacobs
Clique em MARC JACOBS COLLECTIONS
Clique em ADS
Clique em cada um dos anúncios para ver o próximo

segunda-feira, 7 de abril de 2008

FAZENDO AMOR

Sobre ações amorosas, 3

Meu aniversário é dia 18, mas já comecei a me presentear. São várias ações amorosas – para comigo. Amanhã terei o primeiro de doze encontros com a minha roda de leitura de dez crianças. Elas escolherão, para lermos juntas, um livro entre A bolsa amarela, De olho nas penas, Diário de Kaxi e Pippi Meialonga. Estou inscrita na Corrida Reebok 10 km, prova que se define com o inusitado conceito "corrida-balada". Ah, se ela corre, eu corro. (Minha linda, a festa do fetiche, como você sugere em comentário – está um pouco em cima da hora para 2008. Que tal 2009? Ou que tal se o Chico organizasse como um dos eventos dele – e nós fôssemos como convidadas?) Participo de Vida Vício Virtude, ciclo de conferências com curadoria de Adauto Novaes. Já temos (eu, Lord Herbert e Tony Goes) os ingressos para o espetáculo do muito talentoso Rufus Wainwright.

Na muito linda Going to a town, Mr. Wainwright lamenta a America que faz guerra, e nos convida a fazer amor – no one goes to hell for having loved. He's got a soul to feed, America. Eu também. E Mr. Wainwright tem ajudado-me a alimentá-la desde que eu ouvi a sua voz na Tower Records da Union Square, em 2001, cantando sobre cigarettes and chocolate milk.


sexta-feira, 4 de abril de 2008

אהיה אשר אהיה

Sobre ações amorosas, 2

É claro que há um amor que se sente. E não me refiro apenas ao eros, ao amor romântico. Eu mesma já lhes mencionei uma experiência mística que tive em 2007, um sentir-me amada por um Deus pai, um abba, um papai. Ainda não estou preparada para compartilhar essa experiência aqui. Mas a quem me perguntar pessoalmente, eu conto.

Enfim. Depois da reflexão com o meu grupo de desenvolvimento pessoal no ISH, como comecei a contar em SANS LE CHOIX, JE NE SUIS RIEN, dei-me conta de que o amor de que fala A Liberdade é Azul, para o qual Paulo escolhe a palavra grega agape, traduzida para o latim como caritas – esse amor não é um sentimento. Ou, ao menos, não é um sentimento. Bento 16, na encíclica Deus Caritas Est, diz que "o sentimento pode ser uma maravilhosa centelha inicial, mas não é a totalidade do amor". Até porque "os sentimentos vão e vêm".

O que é, então, o amor de que fala A Liberdade é Azul? Para a Cynthia e o Scott Peck, é uma ação.

Mas essa ação é desencadeada por um sentimento amoroso? Não necessariamente. A mãe age com amor com o filho que ama – e mesmo quando, chorando a noite toda, ele lhe desperta irritação ou raiva. (Bom, nem toda mãe consegue, muito menos sempre.) A nossa protagonista age com amor com a mulher que desconhece – e que, imagino, desgoste. A irmã Helen Prejean (retratada em Dead Man Walking de Tim Robbins) age com amor com o homem que assassinara dois adolescentes brutalmente – um homem que, imagino, cause-lhe algum tipo de repulsa.

E eu? Eu procuro agir com amor com alguém que eu amo quando, ali e então, esse alguém me desperta irritação ou raiva. Mas, reconheço, isso requer um bocado da minha energia: Eu também tenho um cérebro reptiliano programado para agir em modo, como diz Lenine em Do it, “se tá puto, quebre; tá feliz, requebre”. Agir com amor com alguém que desgosto? Sim, quando essa é a minha escolha. E agir com amor com alguém que desgosto requer ainda mais da minha energia – e sequer me ocorre doar-lhe a minha herança.

Com alguém que me causa algum tipo de repulsa? Bom, interajo pontualmente com pessoas que me causam algum tipo de repulsa – mas nunca cheguei a me relacionar continuamente com elas. É uma experiência muito diferente daquela da minha amicíssima Cláudia A.: Ela trabalha, dentro de uma penitencíária, como advogada de mulheres carentes em cárcere. Estou envolvida nos esforços de cultura de paz liderados, em São Paulo, pela Palas Athena – e isso envolve a luta por cidadania e dignidade para todos, inclusive aqueles que cometeram crimes hediondos. É um amor em ação? Quero acreditar que sim. Mas o exerço sem interagir com aqueles que cometeram crimes hediondos. Seria diferente se eu interagisse com eles e, conjecturo, com ao menos um pouco das suas agressividades? Talvez. Seria diferente se entre as suas vítimas estivesse alguém que eu amasse? Talvez.

Digo talvez porque eu desejaria, numa situação-limite, seguir o exemplo virtuoso e libertador de Massataka e Keiko Ota: Eles escolheram perdoar (perdoar, o que é diferente de inocentar ou deixar impunes) os homens que seqüestraram e mataram seu filho Ives, de oito anos. E fundaram uma organização de cultura de paz que, entre outras coisas, trabalha pela recuperação de presos. Mas por vezes alguma coisa se perde entre o que eu desejo fazer e o que eu consigo fazer.

Há, ainda, mais uma pergunta: Essa ação amorosa que faço por alguém que não amo, e que não é desencadeada por um sentimento amoroso – essa ação se faz seguir de um sentimento amoroso? De acordo com A Liberdade é Azul, não necessariamente. Apesar de sua ação amorosa, até o final do filme vemos a nossa protagonista rodeada de uma certa malaise. O amor que ela escolheu não lhe deu um mundo brilhante, colorido e fácil – o mundo de que fala, por exemplo, o personagem apaixonado de Gene Kelly em Singin' in the Rain. O amor que ela escolheu também não se fez acompanhar de uma sensação de alegria, felicidade ou mesmo completude. Pelo menos não lá e então. Mas libertou-a (ou ajudou a libertá-la) da vingança e do ressentimento – e isso, como atesta Ota-san ("o ódio come a gente"), é muita coisa.

Quanto à minha própria experiência, não sei. Preciso prestar um pouco mais de atenção. Provavelmente eu sinta algo mais próximo do alívio ("mantive-me centrada") do que do amor. Algo que, imagino, a Joss Stone ou a Beyoncé devem ter sentido quando o Ashton Kutcher anunciou-lhes: "You just got punk'd!".

Mas essa ação amorosa, se eu a faço por alguém que não amo, se ela não é desencadeada por um sentimento amoroso, se ela não se faz seguir de um sentimento amoroso – o que cria essa ação amorosa? E por que, entre tantos adjetivos, qualificamos essa ação como amorosa?

A encíclica Deus Caritas Est ajuda-nos com a primeira dessas perguntas: Bento 16 diz que o amor pode ser criado pela vontade. Mas não nos ajuda com a segunda dessas perguntas: Bento 16 não diz o que o amor é. Talvez, imagino, porque na visão cristã de Deus, Deus é amor. E Deus, quando Moisés perguntou-lhe o seu nome, respondeu: אהיה אשר אהיה. Eu sou o que sou. O amor, logo, é o que é.

Enquanto eu apreendo o amor que é o que é, deixo-os com (what a surprise!) uma versão remixada de Gloria Gaynor interpretando I am what I am, de La Cage aux Folles. Por muito tempo esta blogueira acreditou que I am what I am fosse o nome não de Deus – mas dessa canção.