sexta-feira, 20 de junho de 2008

MON JAPON

Para Douglas Mendez, que adoraria ter-me como amiga – eu também adoraria tê-lo como amigo!

O generoso comentário do Douglas Mendez no meu post O MEU JAPÃO chegou-me um pouco como a pequena madeleine que Marcel Proust mergulha no chá, e então saboreia.

“Invadiu-me um prazer delicioso, isolado, sem noção de sua causa”, que me levou de volta ao passado – melhor, trouxe-o para o presente: Estou de pé em frente a uma tela que retrata um homem de barba, que veste kimono, sentado no tatami em seiza ou em lótus e, a seu lado, um homem de barba, que veste calça e paletó, sentado numa cadeira. Nos meus ouvidos, tenho fones de um aparelho de audioguia. O audio transcreve uma carta que o pintor, francês, escrevera: “Mon Japon!”, ele suspira a certa hora.

O meu Japão, agora me dou conta, não é algo que eu criei ontem para expressar a minha experiência: É uma experiência de japonisme que eu ouvi num audioguia. Googlei algumas palavras e eis a tela: “Paul Alexis Lendo um Manuscrito a Zola”, de Paul Cézanne. Ocorre que a tela é parte do acervo do Masp, onde jamais fiz um tour audioguiado. Aliás, não acredito que o Masp ofereça esse serviço.

Será que eu estou criando agora esse passado? Será que eu combinei a minha experiência frente a “Paul Alexis Lendo um Manuscrito a Zola” no Masp com uma outra, como aquela frente a “Retrato de Émile Zola”, de Édouard Manet no Musée d'Orsay? Sim, pois no Musée d’Orsay fiz tours audioguiados.

Não sei. Mas é-me muito libertador, BHY, saber que, ao contrário do que argumentei em fevereiro deste ano, posso não apenas atribuir um novo significado a uma experiência do passado: Posso também mudar o meu passado.

5 comentários:

Internet Guru disse...

nice blog...me gusta mucho!mine is: personalresources.blogspot.com

Douglas Mendez- O Homem é um ilha disse...

Depois de um pequeno entrevero na blogosfera com outros, eis que um pouco de poesia para me invadir na sexta-feira!
Querida Lúcia, apesar da gente ser forçado pelos compromissos sociais e pelas rugas no rosto a acreditar que ele exista, eu continuo a acreditar que o tempo não existe. Por isso, suas memórias, ainda que inventadas podem e devem construir seu passado "real" e torná-lo novamente presente, já que é experinciado novamente.
E viva: Comte-Sponville, Norbert Elias e Bergson e é claro, Proust.
bjs!

BHY disse...

É incrível essa capacidade que você possui de escrever um tópico em um blogue e esse virar desde uma animada conversa de botequim a tese de fim de curso em universidade! Incrível e meus elogios não são rasgados nem floridos, mas poderiam ser tão seda cor de flor quanto seus textos.
;-)

Alexandre Lucas disse...

Lúcia, amei os este post e o anterior, mas essa de mudar o passado eu estou achando muito simbólico... Para não entrar no campo do imaginário.
A mim basta o superpoder de "atribuir um novo significado a uma experiência do passado".
Bjs e saudades =)

Rico E disse...

Proust sempre nos traz surpresas maravilhosas! Toda vez que leio resgato sentimentos.
Continue escrevendo desta forma!