sexta-feira, 29 de fevereiro de 2008

I SEE DEAD PEOPLE

Ninguém pode mudar o passado – é simples assim. Mas todo mundo pode atribuir um novo significado a uma experiência do passado. Para mim funciona, toda e cada vez. Aqui e agora, só me vêm lembranças onde eu quis, busquei e estava consciente dessa ressignificação – porque, por exemplo, eu não desejava carregar um ressentimento, um trauma, uma mágoa.

Mas ressignificar uma experiência do passado acontece o tempo todo, não? Mesmo quando não a quero, quando não a busco, quando dela não estou consciente. Imagino que é disso que se utilizam os spin doctors, os marqueteiros, os políticos e os, er, maus namorados quando me convencem a repetir experiências das quais, outro dia mesmo, eu jurara manter distância.

Muitas das ressignificações, sobretudo as que não quero ou busco, são despertadas por novas informações. Pense, por exemplo, em The Sixth Sense, de M. Night Shyamalan. Uma nova informação no final do filme (um complemento ao “I see dead people” do garoto) fez com que você reavaliasse toda a estória até então, fez com que você atribuísse novos significados a muitas das cenas anteriores do filme. Pense, por exemplo, na sua colega de escritório que sempre chega tarde e sai cedo, que sempre faz sobrar para você, que sempre parece imune às expectativas de performance a qual você se vê sujeito. Bitch! Agora você fica sabendo que ela cuida, sozinha, do pai em estado terminal. Sniff.

Mas tudo isso agora porque?

Tudo isso agora porque na manhã de segunda-feira deixei o Island Escape amando tudo, ou quase tudo. Amei estar num navio, amei estar cercada por um monte de gente o tempo todo, amei estar sob o sol, amei estar cercada por uma energia "woo” (não era, Alberto, “woohoo, galera!"), amei estar numa rave em alto-mar.

Preservar esses significados e sensações, tão positivos e tão deliciosos, me é muito desejável. (Ainda mais porque entrei no navio com a intenção de quebrar bloqueios, de – ah, sobre isso falo mais tarde.) Mas será que preservar esses significados e sensações é viável? Explico. O Tony Goes deixa no meu post EVERYBODY DANCE NOW! um breve e divertido comentário. Mas eu o recebo como um convite – um convite sedutor para reavaliar o meu Tribe Onboard.

MORE POWER TO ME!
Como é que é isso? O comentário me revela uma nova e surpreendente informação? O que ele me revela, boa coisa não parece ser. Mas sequer o entendo bem: Falta-me o who’s-who, a enciclopédia da cena eletrônica – e, está parecendo, também do mundo funk.

Aqueles significados e sensações, tão positivos e tão deliciosos, eram frágeis, superficiais? Eram como o anel que tu me destes, era vidro e se quebrou? Talvez.

Tenho dificuldade em aceitar que curti algo que o antenadíssimo Tony, agora me parece, acha uncool? Ele tem todo esse poder sobre mim? Tenho algo (ou muito) de uma adolescente disposta a trocar autenticidade e espontaneidade por aceitação e pertencimento? Talvez, talvez e talvez também.

Mas deixemos esses porquês, ao menos por ora, em aberto. (Eu sei, é claro, que sequer passou pela cabeça do fofo do Tony abrir essa, er, lata de minhocas.) Agora me interessa mais perceber como se opera, em mim, esse convite sedutor à ressignificação. Não é a pronta ressignificação do bloco todo: “Em retrospectiva, agora sinto assim e penso assado. Ponto.” Não. É primeiro a desconstrução da experiência em seus pedacinhos, suas pecinhas e, aí sim, a reconstrução de novos blocos ou combinações. Quaisquer novas combinações? Não. Novas combinações que comprovem, substanciem, evidenciem aquilo que, agora, me é tão tentador pensar e sentir.

Será que me faço entender? É um pouco como se você me propusesse um enigma sensorial ao contrário: Você me diz como eu devo pensar e me sentir, e eu busco as pistas no meu banco de memória. Há pouco me peguei pensando: “Mmm, uma festa onde estava a atriz-modelo conhecida como Bandida do Funk?”

Humm. Atenção spin doctors, marqueteiros, políticos, e maus namorados: Começo a entender como o seu feitiço se opera em mim! Os seus complementos-ao-I-see-dead-people só vão me pegar se e quando eu quiser. More power to me!

3 comentários:

BHY disse...

Eu só queria saber se vc consegue ter esse auto-controle o tempo todo? Seu texto é brilhante!
;-)

BHY disse...

And I love Tony!
;-)

Alexandre Lucas disse...

You go, GIRL!