sábado, 5 de janeiro de 2008

YOU WON’T GO TO THE BALL!

Alguém gravou o álbum Picture Book do Simply Red em cassete para mim, e esse cassete não saía do meu walkman. No Japão eu havia presenteado-me com um walkman compacto – para padrões da época era compacto sim! –, e eu o carregava para todo lado. Éramos uma versão um pouquinho crescida de Linus e seu cobertor. Ah, mas por que esse álbum todo? Eu só ouvia Jericho, um milhão de vezes – mesmo que o comando rewind levasse tanto tempo e gastasse tanta pilha!

Ainda assim, jamais consegui entender do que se trata essa canção.

Algum tipo de relação mestre/aprendiz yuppie? Como aquela retratada em Wall Street de Oliver Stone? E quem se seduziria por alguém que vai construir-lhe uma carreira, torná-lo rico – mas também transformá-lo num brinquedo, no seu garotinho? Qual seria a graça de se ter uma carreira e ser rico se isso não fosse acompanhado de liberdade e de poder sobre si mesmo? E por que passar tanto tempo tirando fotos bonitas do garoto? Is there something gay going on here? E onde entram nisso tudo as muralhas de Jericó?

Essas eram algumas das minhas inquietações em 1986, 1987. Bom, "inquietações" não é uma boa escolha de palavra. Nenhuma dessas perguntas chegou a me impedir o sono, a paz, a tranqüilidade. Mas há algo de surreal, talvez, em eu ter ouvido tantas vezes as mesmas palavras, sabê-las de cor, cantá-las com Mick Hucknall, cantá-las sem Mick Hucknall... sem jamais alcançar uma boa compreensão daquilo que eu repetia.

Talvez não haja nada mesmo a ser compreendido. Ou talvez se trate de algum tipo de linguagem cifrada, cuja chave eu desconheça. E nem queira conhecer – caso contrário eu já a teria buscado, não? Mas já que revisitei esse assunto aqui, vinte anos depois, será que trato de resgatar essa minha dívida com essa canção? Será que, para tanto, peço ajuda ao Tony Goes, um aficionado dos anos 80? Ao Arthur Nestrovski, que em toda canção me revela um novo olhar, uma nova canção? Ou será que amanhã tudo isso já se dissolveu – como acontece com tantas das, er, dúvidas céticas que me visitam?

De todo modo, há algo nessa canção para o qual eu não preciso ajuda: O seu refrão, “you won’t go to the ball”! A minha reflexão sobre isso, sobre ser e/ou sentir-se excluído de algo que se nos apresenta como uma promessa irresistível de felicidade, é um bocado elaborada. Escrevo outra hora.

Por ora deixo-os com Cinderela, o arquétipo de quem leva – e não aceita – um “you won’t go to the ball”. Sim, ela vai ao baile. E sim, aquela promessa irresistível de felicidade concretiza-se. Aqui é a maravilhosa Scarlett Johansson fotografada pela genial Annie Liebovitz para uma campanha da Disney. Retratada assim, fugindo ao soar das doze badaladas, com pressa mas sem angústia ou arrependimento, essa Cinderela nos lembra que o seu conto de fadas é o mais perfeito elogio à desobediência.

I will go to the ball!

music player
I made this music player at MyFlashFetish.com.

3 comentários:

CARIOCA VIRTUAL disse...

LuciaaA! sAUDADES! E mais um fã seu manda muitas lambidas... Olha! Este blog no blogger está chique dimais, sô!

beijos dos pais Marcos e Willian e do fofo Zé Carioca.

ludo diniz disse...

Não conhecia essa música do Simply Red. Gosto deles mas não chego a ser fã.
Engraçado esses institutos americanos tão martelado em nossas cabeças mas que por algum motivo não pegaram por aqui.
Bailes, cheerleaders, time da escola. Bem, pelo menos eu nunca vivi nada disso por aqui.
O máximo dessa relação de popularidade dos High Schools americanos era a Monitoria. Não se tratava da monitoria de estudos como nas universidades, mas sim um programa de interação entre as séries, onde os alunos mais velhos cuidavam dos mais novos em viagens turísticas e educacionais.
Ao entrar na Monitoria, se deixava de ser mais um para então chamar a atenção naquele populoso Rio Branco.
Os populares que se diziam cool ficavam na Monitoria. Já os lideres nerds ficavam no Interact.
É, ajudar ao próximo não era visto com bons olhos. O o politicamente correto ainda não era moda.
Não preciso dizer quais estão bem encaminhados e quais não estão.
Foi a experiência mais próxima de popularidade adolescente mostrada nos seriados americanos.

Lúcia BL disse...

Respostas:

dearest carioca: estou escrevendo um post para agradecer as palavras muito generosas e especiais que li aqui de você, do shoichi e do alberto. aguarda um pouquinho? beijoteamo

dearest ludo: sim, concordo com tudo isso. muito interessante. veja "another one bites the dust". beijoooo!