segunda-feira, 7 de janeiro de 2008

BÁRBARA!

Eu tinha nove ou dez anos quando a Célia (acho) gravou o álbum Caetano e Chico Juntos e ao Vivo em cassete para a minha irmã Ana. Eu me apropriei desse cassete e o ouvia ad nauseam no gravador da sala.

Talvez pelo uso repetido, esse cassete emperrava o tempo todo. Yada yada yada chegou a hora em que era mais seguro não ir além da faixa 8, Bárbara.

Estava bem assim – eu ainda ouvia Bárbara. Eu amava essa canção, sabia a sua letra, sabia quando entrariam e sairiam os aplausos. Aplausos? Eu nunca havia ido a um show – não imaginava que aqueles aplausos estavam fora de lugar, que eram fake, que tinham sido incluídos na pós-produção para abafar trechos censurados.

Eu não compreendia a letra dessa canção. E tinha consciência disso. E não me importava. Eu não precisava compreender o seu significado para adorar cantar nún-quetarde, nunqué-demais. Além disso, essa era apenas mais uma das coisas que eu, não compreendendo, guardava no meu coração. Chegaria a hora, eu tinha fé, em que tudo ficaria claro. Agora me parece inverossímil que uma criança aos nove ou dez anos pensasse dessa forma. Mas era assim.

Acontece que hoje, tantos anos depois, ainda não chegou a hora em que tudo fica claro. Um pouco porque eu não vi ou li a peça Calabar, de Chico Buarque e Ruy Guerra, para a qual eles compuseram Bárbara. Sequer sei se Bárbara é personagem histórica ou fictícia.

Mas é mais do que isso, não?

Mesmo que eu conclua uma pesquisa histórica ou dramatológica de Bárbara, isso não me ajudaria a me conectar, a empatizar, a me colocar no lugar de uma mulher “cujo destino é caminhar assim, desesperada e nua, sabendo que no fim da noite serei tua”. Isso é além do meu universo – de mim e das minhas circunstâncias.

Ainda acredito que essa hora em que tudo fica claro chegará. Nunca é tarde, nunca é demais.

Enquanto isso, e até então, se a minha vida tivesse uma trilha sonora, cada vez que eu me pegasse não conseguindo me conectar, empatizar ou me colocar no lugar do outro, nós ouviríamos Bárbara.

Mais uma vez em homenagem à mamãe, deixo-os com a versão em que Chico interpreta Bárbara solo.


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6 comentários:

Tony Goes disse...
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Lúcia BL disse...
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Tony Goes disse...
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Lúcia BL disse...
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Tony Goes disse...
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