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segunda-feira, 3 de novembro de 2008

IS ESTELLE THE NEW AMY WINEHOUSE?

A menos que você esteja passando 2008 em Marte, você também deve ter se pego cantarolando “take me on a trip, I'd like to go some day, take me to New York, I'd love to see L.A.". E depois, "cool down – down, don't act a fool now – now, I always act a fool – ow, ow, ain't nothing new – now, now". A deliciosa American Boy toca tanto que sua compositora e intérprete, Estelle, diz estar cansada da canção. Mas não eu.

Vira e mexe alguém se refere a Estelle como the new Amy Winehouse. Será? Estelle tratou de decretar que a música das intérpretes brancas (Amy, Duffy, Adele, Lilly Allen) do chamado novo soul britânico – bem, it ain’t soul. E que ela, Estelle, é uma garota britânica not on drugs or crazy.

Não sei se Estelle é a nova Amy Winehouse. Mas na minha primavera de 2008, American Boy is the new Umbrella. E na minha história das imagens, o seu vídeo é um ícone do branco e preto.

She writes, she sings, she raps. Ok, Estelle can’t dance – mas como diz aquele cara na cena final de Some Like it Hot, outro ícone do branco e preto, nobody’s perfect.



Nota: Esta é a versão clean edit. Sumiu do YouTube a versão dirty edit, sem edições, em que Kanye West diz "most of this press don't f*ck wit me", e onde há um close do button do Michael Jackson quando Mr. West diz "and I'm feelin like Mike at his baddest". De que se tratam essas versões clean edit? De uma infantilização do entretenimento? (Não, esta blogueira não escreve ou fala palavrões. Mas não tem problemas em lê-los ou ouví-los; aliás, tem problemas em vê-los censurados. Qualquer hora escrevo sobre essa escolha.)

OUTRO RETRATO EM BRANCO E PRETO

Quando, nos anos 90, os jornais começaram a estampar fotografias coloridas, aquilo me pareceu um desastre. Não que eu achasse que a essência da fotografia é o branco e preto, como disse Henri Cartier-Bresson. Ou que eu visse o mundo em branco e preto, para falar com Sebastião Camargo. Nem que eu concordasse que cores, em fotografia, tiram a elegância e a seriedade do jornalismo. Nada disso. Fotografia colorida em jornal pareceu-me uma grande idéia – mas a execução, isso sim, era um desastre. O jornal chegava às minhas mãos com fotografias coloridas cheias de distorções cromáticas, fantasmas e sombras.

Muita coisa mudou desde então.

Outro dia chegou às minhas mãos um exemplar do jornal gratuito Metro. Um anúncio de página dupla, central, estampava uma enorme barra de chocolate. Num dos cantos faltava uma mordida, cada dente bem definido, sugerindo que ele tinha a consistência do chocolate que se morde, não se parte com as mãos. E não só a consistência que a imagem sugeria – mas também a maciez que senti ao tocar-lhe com a ponta dos dedos. Trouxe-o para perto do rosto – sim, o aroma de chocolate vinha do anúncio.

Não fosse uma fotografia estampada num jornal, acredito que o meu cérebro processaria as informações que a minha visão, o meu tato e o meu olfato percebiam para concluir que eu estava diante não de uma imagem – mas de um chocolate, ele mesmo.

Se eu estivesse numa galeria de arte contemporânea, teria sido uma experiência de hiper-realismo. Como eu folheava um jornal – eu era alvo de uma ação de marketing sensorial. Neurocientistas, psicólogos e Marcel Proust estão a descobrir como o olfato, o mais primitivo dos nossos sentidos, é uma conexão direta às nossas memórias, às nossas emoções, aos nossos desejos. E os profissionais de marketing estão a usar essas descobertas para influenciar nossas decisões de consumo. Deixo essa fascinante reflexão para outro dia.

Hoje recorro a essa experiência com o jornal Metro porque ela deixa claro que existe tecnologia para produzir e imprimir fotografia colorida de muita qualidade, em alta escala, a custos razoáveis – mesmo para ser veiculada num meio de comunicação feito para durar um só dia. Ainda assim, o preto e branco continua fuerte. Nos vídeos de música, nos comerciais, nos editoriais de moda e estilo, no jornalismo, na arte. I wonder why.

Talvez porque sejamos nostálgicos – ainda que de um passado que muitos de nós sequer viveu.

Talvez porque algumas coisas fiquem melhor em branco e preto. Pense na adaptação para o cinema dos romances policiais a la Raymond Chandler e Dashiel Hammet – o film noir. Em estrelas de Hollywood fumando. Nos garimpeiros de Serra Pelada. Para sair do mundo das imagens, pense no tabuleiro de xadrez. Ou no keffieh – lenço-símbolo da cultura palestina transformado em objeto-culto no mundo da moda.

Talvez porque, no meio de tanta informação visual, alguma simplificação nos faça bem. Pense no vídeo de alto contraste para a deliciosa American Boy – precisa de alguma outra cor?

sábado, 5 de julho de 2008

e-love 2

Certa vez li um artigo do Rubem Alves que dizia que relacionamentos são ou como tênis ou como frescobol. Esses são jogos muito parecidos: Em ambos há dois jogadores, duas raquetes, uma bola. Mas o barato do tênis é lançar a bola de modo que o outro não consiga devolvê-la: O bom jogador conhece o ponto fraco do outro, e é para lá que dirige a bola. E o barato do frescobol? É lançar a bola de modo que o outro consiga devolvê-la: Mesmo quando a bola vem meio torta, o jogador faz o maior esforço para devolvê-la no lugar certo, para que o outro possa pegá-la. Tênis é competitivo, frescobol é colaborativo. Ou, como diriam as minhas ameegas, tênis é carão, frescobol é carinho.

E os meus relacionamentos? Nenhum deles é 100% tênis ou 100% frescobol, pensei. Eles têm um pouco dos dois. Mas são mais como frescobol. Depois me dei conta que, na maior parte do tempo, quem ditava a regra dos meus jogos era o outro. Meu ponto de partida era frescobol – mas bastava eu receber uma bola atravessada para transformar-me numa tenista. E das vorazes.

Será que dá para estar assim no mundo – delegando tanto do meu humor, do meu estado de ânimo, da minha energia para o outro? Ah, não.

Então tomei uma decisão: O que o outro me dá é informação – eu escolho o humor, o estado de ânimo, a energia com que eu recebo e respondo a essa informação. Bom, não é fácil. Mas aos poucos estou conseguindo devolver no lugar certo, para que o outro possa pegá-la, essa bola que me vem meio torta. Acho que é um pouco o que Otis Redding chama de try a little tenderness.

Mas essa empatia, essa compaixão, essa ternura que eu lanço – será que é assim que chega ao outro?

Pois é: Nem sempre.

Teclando comigo, a Drica me diz que se sente num duelo de esgrima. Há, no que eu digo, uma certa sofisticação ou elaboração que não oferece conforto, que a deixa ansiosa, em guarda. Eu me desculpo, agradeço, digo que não é de propósito, não é consciente. Peço que ela me ajude – ela responde que sim, claro.

Grazie mille, principessa!

quarta-feira, 2 de julho de 2008

e-love

Que coisa linda, que coisa boa começar o dia hoje com essa mensagem de texto no meu celular: “Buon giorno, principessa! Que o seu dia seja iluminado! Keep running, keep texting, keep shining. Do seu leitor.”

Grazie mille, ragazzo mio.

sábado, 28 de junho de 2008

VELOCIDADE ESTONTEANTE

Pensei em qualificar a velocidade com que as coisas acontecem na minha vida de estonteante – mas daí que adjetivo restaria para qualificar a velocidade com que as coisas acontecem na vida da Mallu Magalhães? Desde que postei sobre ela, em fevereiro deste ano, a Mallu foi do mundo alternativo do MySpace para o mundo mainstream da publicidade. Creio que agora tout le monde et son père conheça a paulistana fofa de quinze anos – que compôs e interpretou esse papapapa-pá delicioso do comercial da Vivo.

Kátia, o nome da canção é J1 – será que você e a Ana são co-autoras?

sexta-feira, 27 de junho de 2008

SENDO FELIZ

Desfile do Lino Villaventura no SPFW verão 2009.

O segurança deixa que eu e três meninas, elas de credencial de imprensa, entremos na sala quando as luzes já se apagaram e a música já toca. Ficamos ao lado do pit dos fotógrafos, em pé – atrás de tantas outras pessoas em pé.

Uma das três meninas desabafa: “Ah, não dá pra ser feliz. Não vejo nada.” Outra responde: “Sério? Eu tô sendo muito feliz.” Eu sorrio. Elas percebem que presto atenção na conversa. Uma delas me diz: “Você tá sendo feliz.” Sim, do alto dos meus 1,81 metro de altura (en tacones), tenho uma boa visão do espetáculo de cores e formas geométricas do Lino.

À minha frente, um homem muito alto faz anotações concisas, rápidas e (imagino) precisas num bloquinho de papel. Ele tem altura, postura, estilo para estar na passarela. Aproximo-me para sentir o seu grau de felicidade. E então o reconheço: É o Alberto, de Zapping News, cobrindo o evento para o Agora São Paulo.

Se o jornalismo não der certo, Alberto, vá ser modelo!

quarta-feira, 25 de junho de 2008

ISSO É COISA QUE SE TEXTE?

Minha mãe me pergunta, com entusiasmo, sobre o casaquinho com cachecol que eu comprei para o meu cachorro Clio. O casaquinho que eu comprei do porteiro, ela esclarece. E então comenta: "Um porteiro que vende roupa de cachorro – isso eu ainda não tinha visto!"

Não é nada disso. Eu comprei, isso sim, um casaquinho com cachecol para a filhinha do porteiro do prédio onde eu moro, que nasceu há cerca de um mês. A confusão deu-se porque eu textei (ai, meus ouvidos!) essa informação para a minha irmã Marília de forma – agora reconheço – ambígua. Era algo como “comprei p bb do porteiro ksaco c kxecol mto fofo”. E a minha irmã leu, imagino, que eu havia comprado “para o meu bebê, do porteiro, um casaco com cachecol muito fofo”.

Esse esclarecimento desperta um olhar isso-é-coisa-que-se-texte? na minha mãe. What a WOMBAT, ela deve estar pensando. Para a minha mãe, a referência mais próxima do que eu lhe descrevo talvez seja o telegrama – uma comunicação que se convencionou reservar para informações de importância ou urgência. Eu não mandaria um telegrama para contar algo assim – é cla-ro. Nem ao menos faria um telefonema.

Mas e textar? Bien sûr! É tão objetivo, discreto, rápido, simples, gostoso – que se convencionou fazer mesmo para informações sem qualquer importância ou urgência. Talvez eu o use tanto porque os meus dois polegares deslizam sobre o teclado com rapidez e precisão – uma habilidade que desenvolvi em duas décadas de uso da calculadora financeira HP 12c. GFF: Uma calculadora de método antiquado (notação polonesa inversa) e design anacrônico preparou-me para os novos desafios da sociedade da informação.

YKW? Texto melhor do que muito adolescente: Quando houver um campeonato de texting por aqui, a taça é minha!

segunda-feira, 23 de junho de 2008

QUAL É A PARADA?

Quarta-feira, véspera de Corpus Christi, uns poucos dias antes da Parada Gay. Falo ao telefone com a veterinária da clínica onde o meu cachorrinho Clio treina agility: Ele teve uma parada cardíaca, ela o ressuscitou. Mas ele ainda corre risco de vida e precisa fazer, nas próximas horas, um eletrocardiograma, um ecocardiograma e um raio-X torácico.

Como é que é isso?

Como é que uma mesma palavra serve para nomear idéias tão opostas quanto parada cardíaca e Parada Gay? Para nomear a interrupção, a paralisação, a suspensão do funcionamento do coração – aquilo que, até os anos 70, era o próprio critério de morte, uma sentença de Thanatos. Mas, também, para nomear a mobilização, a participação, a celebração de um estilo de vida, de uma festa de Eros – aquilo que é o maior show da Terra, o mais magnífico, o maior e o mais grandioso espetáculo processional do mundo. Oops, essa é a street parade do circo Barnum & Bailey. Mas vocês me entendem.

O substantivo parada, no sentido de desfile ou marcha – e os seus correspondentes nas outras línguas românicas, parada (espanhol), parata (italiano), parade (francês), paradă (romeno) – vem do latim parere – de preparar, aparar, parir, esforçar-se para obter. E o verbo em português parar, no sentido de cessar – do qual parado/parada é o particípo? Vem, OMG, do mesmo latim parare – de preparar, aparar, parir, esforçar-se para obter. Segundo o Houaiss, o verbo parar só ganhou o sentido de cessar ou interromper no séc XIV. Até então, tinha o sentido de fazer, mobilizar, apresentar. Talvez daí venha parada, o desfile: Uma apresentação. Mas que o verbo parar tenha evoluído para significar o seu oposto, isso não me ajuda a eliminar o paradoxo entre os sentidos contidos em parada – apenas o confirma.

E a etimologia da palavra em inglês parade? Pois o nome Parada de Orgulho Gay é a, er, tropicalização de Gay Pride Parade – parade é uma palavra comum para desfile informal, não-militar, como em carnival parade ou Christmas parade. Bem, a palavra em inglês parede também vem do latim parere – através do moyen français parer. Isso também não me ajuda.

Fazer o que? Como dizia o meu orientador Celso Lafer na época de mestrado, talvez esse seja mais um paradoxo, contradição ou ambigüidade com o qual eu tenha que saber lidar.


QUAL É A PARADA? 2

E foi tirar esse enigma da minha cabeça para receber a sua solução. Talvez não a solução consensual e erudita, mas a solução que me faz sentido – e que mais uma vez me chega assim cantarolada, em versos do Chico Buarque:

O homem sério que contava dinheiro – parou
O faroleiro que contava vantagem – parou
A namorada que contava as estrelas – parou
Para ver, ouvir e dar passagem

Pra ver a banda passar, cantando coisas de amor

Voilà. Quem está parada é a Avenida Paulista – para ver, ouvir e dar passagem à maior mobilização da Terra!

quarta-feira, 18 de junho de 2008

O MEU JAPÃO

Para três nipo-brasileiros novos ao meu mundo: Shoichi Iwashita, Too-tsie e Edson Matsuo

Certa vez li a Natalie Merchant reconhecer que era difícil continuar a ouvir algumas canções de grande sucesso do 10,000 Maniacs – canções cujas letras ela escrevera aos 17, 18 anos. Vi a Alanis Morissette falar algo semelhante sobre Jagged Little Pill, o álbum que vendeu 30 milhões de cópias – e que ela lançou aos 21 anos.

Para mim, é-me um pouco difícil até mesmo ler posts do Religare! que escrevi em fevereiro do ano passado – ou alguns que escrevi em fevereiro deste ano. Passam-se algumas poucas semanas, BHY – e agora eu já ouviria, veria e diria de forma diferente, pelo menos um pouquinho. A minha verdade já mudou, pelo menos um pouquinho – e aqui me vejo diante de uma dimensão interna do “quid est veritas?” de Pilatos.

E ler uma monografia que escrevi há 22 anos? É um desafio e tanto, BHY. Compartilhá-la com vocês? Humph. Ainda assim, resolvi disponibilizar essa monografia online.

Explico.

Em 1986 venci, com essa monografia, um concurso da Japan Airlines. Como prêmio passei, ao lado de outros 50 vencedores, de quinze países – acho que era isso –, passei dois incríveis meses vivendo no dormitório da JAL em Chiba, e estudando na Universidade de Sophia em Tóquio.

Na monografia, falo da imagem dos japoneses no Brasil – que se construiu, em muito, com a chegada do navio Kasato Maru a Santos em 18 de junho de 1908 – há cem anos! Mas, agora me dou conta, na monografia falo mesmo é do meu Japão. Depois eu elaboro um pouco.

Por ora, ao Japão de cada brasileiro, e ao japonês em cada brasileiro: Banzai!

YESHUA BAR ABBA

Para mim, abba foi primeiro o grupo sueco pop, o de Dancing Queen e Knowing Me, Knowing You, depois um tipo de rima na poesia, onde o primeiro verso rima com o quarto, e o segundo com o terceiro, e só então – e muito recentemente – a palavra em aramaico para pai.

Por que falo sobre isso agora?

Porque alguns estudiosos argumentam que decorre daí, do desconhecimento das palavras em aramaico para “filho de” (bar) e pai (abba), decorre daí boa parte do anti-semitismo.

Explico.

Nos textos do Novo Testamento, que foram escritos originalmente em grego koiné, Jesus dirige-se a Deus como abba ou pai. Esse dirigir-se a Deus com intimidade contrariava a tradição judaica de dirigir-se a Deus com temor ou subserviência. E teria valido a Jesus também o nome Yeshua bar Abba: Jesus, o filho do Pai.

Portanto, quando Pilatos perguntou à multidão de judeus “qual dos dois vocês querem que eu solte?”, e eles responderam “Barrabás!” – quem eles realmente queriam soltar era bar Abba, nome que foi helenizado para Barrabás.

Será que é esta a verdade? Aqui eu responderia como Pilatos: Quid est veritas?

Para os cristãos, a verdade é que Jesus é o filho de Deus encarnado. Para os muçulmanos, que ele é um dos profetas mais amados por Alá. Para os judeus, que ele não é o Messias. Para alguns historiadores e arqueólogos, que Jesus foi um líder judeu entre tantos. Para outros, que ele é um personagem fictício da mitologia cristã.

Para mim, e agora me refiro a bar Abba e Barrabás, a verdade é que essa teoria dilui o anti-semitismo. E qualquer teoria que dilui o ódio, o medo, a aversão, a discriminação a grupos de pessoas, em decorrência de etnia, nacionalidade, gênero, espiritualidade, orientação sexual, idade, necessidades especiais – qualquer teoria dessas é a minha religião.

segunda-feira, 16 de junho de 2008

ERRAMOS: YESHUA BAR YOSEF

Faça você mesmo: Entre no Google, digite Yeshua ben Yosef, e clique em Pesquisa Google. O Google buscará e encontrará 7.720 páginas da internet com o texto Yeshua ben Yosef, e listará os resultados por ordem de relevância. Este blog estará entre as três primeiras páginas de web encontradas.

E é assim, informa-me o contador do Religare!, Site Meter, que muitos vêm aqui: Em busca de Yeshua ben Yosef.

Como é que é isso? Será que o que este blog diz sobre Yeshua ben Yosef, que eu sugeri ser o nome verdadeiro de Jesus de Nazaré, é mesmo tão relevante? É mais provável, agora me parece, que Yeshua ben Yosef não seja o nome verdadeiro de Jesus de Nazaré.

Explico.

Jesus é a helenização de um nome em hebraico – um nome que se acredita ser ישוע .ישוע pode ser transliterado para o inglês (e para línguas românicas, imagino) como Yeshua, Yeshu ou Yehoshua – a forma preferida por estudiosos é Yeshua.

Na época do nascimento de Jesus, os judeus não usavam sobrenome: As pessoas (ao menos os homens) eram chamadas de Fulano, filho de Beltrano. Em hebraico, “filho de” é ben. Mas na época do nascimento de Jesus, o aramaico havia substituído o hebraico como língua falada. Em aramaico, “filho de” é bar. Portanto, um melhor nome verdadeiro para Jesus de Nazaré – Jesus, filho de José – é Yeshua bar Yosef.

É pouco provável que este blog tenha boa colocação numa busca Google por Yeshua bar Yosef: Yeshua bar Yosef é o nome inscrito em um ossuário de pedra calcária de cerca de dois mil anos, encontrado recentemente em Israel. Segundo documentário co-produzido por James “Titanic” Cameron e Simcha Jacobovici, e exibido milhares de vezes pelo Discovery Channel, esse ossuário guarda os restos mortais de Jesus de Nazaré – tese que, se comprovada, derrubaria a teologia da ressurreição do Filho do Homem.

quarta-feira, 7 de maio de 2008

THAT DOES NOT COMPUTE, WILL ROBINSON

Acabo de conhecê-lo e ele me pergunta de onde eu sou. Intuo que ele queira saber de onde eu conheço o aniversariante, ou em que bairro de São Paulo eu moro. Não. Esse paulista me pergunta mesmo de que país eu sou. De que país da Europa eu sou, ele esclarece.

Não fosse ele lindo lovely sexy, eu teria respondido de pronto: Sou brasileira, paulistana. Mas essa pergunta fica ali congelada – eu sorrio enquanto algum locus do meu cérebro percorre minha memória em busca de informações e experiências que, associadas ou reassociadas, me ajudem a valorar aquela pergunta: Que eu tenha uma aparência européia, isso é bom ou ruim? De um homem, que se diga que ele parece italiano, isso é bom. Mas europeu? Mmm. E de uma mulher? Italiana seria bom. Ou não?

Não tem registro, Will Robinson.

É que eu falo de boca fechada, ele me explica, o que é típico dos povos ao norte do Equador. Durante invernos rigorosos, é preciso usar o calor e a energia do corpo com parcimônia – inclusive falando pouco, mais rápido, e de boca quase fechada.

Quê? Perigo, Will Robinson.

Procuro numa janela o meu próprio reflexo, tento imaginar o quanto a minha boca abre ao pronunciar cada sílaba. Percebo-me prestando atenção não no que ele fala, não no que as pessoas falam – mas em como os seus lábios se movem enquanto eles falam. É esse o olhar do dublador, Herbert? Do leitor de lábios, Alezito? Do fonoaudiólogo, Marília?

Por alguns dias, I can’t take my mind off of it. Googlo climate, language, lips. E encontro algumas teorias que correlacionam – caramba! – clima e sonoridade de idiomas. Pego-me falando algumas coisas em frente ao espelho. O rato roeu a roupa do rei de Roma. The rain in Spain stays mainly in the plain. Olho o lábio das pessoas com que converso – algumas parecem incomodadas; desvio o olhar. Na TV, observo como jornalistas de idiomas e culturas distintas comunicam uma mesma informação. Globo News, CNN, BBC, Deutsche Welle, TVE, RAI, TV5.

Observo tudo isso, experimento tudo isso – é, algumas pessoas abrem mais a boca do que as outras. Mas meu cérebro não cria nada com isso. Ainda não tem registro, Will Robinson.

Alguns dias depois, estou na Livraria Cultura. Folheio The Game: Penetrating the Secret Society of Pick-up Artists, de Neil Strauss. Eu também não sabia, mas há uma cultura de sedução nos Estados Unidos, que faz uso de ferramentas mais comumente associadas à comunicação social e à neuro-lingüística. Enfim. Uma das táticas mais bem sucedidas, ensina o autor, é o neg hit ou cantada negativa – uma frase ou pergunta inusitada e ambígua, algo entre o elogio e a crítica. O neg hit funciona porque, entre outras coisas, gets her to think of the neg hit; therefore, gets her to think of you.

Was he neg hitting on me? Ah, não importa. Meu cérebro encontrou algum significado para aquela pergunta, aquele comentário. Closure, caso encerrado, resolução. Mas a grande descoberta aqui, a grande conexão, foi eu ter-me dado conta desse meu, er, sistema de busca e atribuição de sentido ou significado ao mundo, às minhas experiências.

E esse sistema é bom ou ruim? Como sistema ou ferramenta, imagino que seja bom. Mas uma coisa é esse sistema ser disparado como resultado de uma escolha que faço aqui e agora. Outra coisa, e muito diferente, é que ele opere em piloto-automático, buscando o significado de estímulos, ou ansiando por respostas a perguntas – apenas porque esses estímulos ou perguntas apertaram, em mim, certos botões.

E há algo mimético nisso. Não é só "o que ele quis dizer com eu falo de boca fechada?". É também, com 186 milhões (ouch!) de brasileiros, "que motivo do crime o promotor Francisco Cembranelli apresentará na sua denúncia?", "a Nike manterá o contrato com o Ronaldo?". É esse automatismo, imagino, que nutre a curiosidade superficial e saltitante (die Neugier) de que fala Martin Heidegger.

Atenção pick-up artists, marqueteiros, id e super-id: Começo a entender como seus neg hits e teasers se operam em mim! More power to me!

High five, Will Robinson!

terça-feira, 6 de maio de 2008

FAZENDO A CLEÓPATRA

Mas por que falo de Cleópatra agora?

Porque na semana passada um, er, presentear lembrou-me desse de Cleópatra a Júlio César. Explico, Fabiano.

Você e os meus leitores, imagino, lembram-se da minha amiga Kaká, ah Libanesa, aquela que ME FAZ TÃO BEM. Pois. No final de janeiro, talvez vocês também se lembrem, ela se mudou para Dubai. Em São Paulo ela deixou dezenas de amigos, centenas de leitores, dois cachorros – y su madre Ana también.

Enfim. Noite de segunda-feira. Kaká pede que seu confidente Tony Goes atraia Ana até o prédio onde ele mora (e onde mora esta blogueira). Ela (Ana) deve buscar, naquela mesma noite, uma encomenda da Kaká, que chegou ao Tony em São Paulo por uma Paula, vindos (a encomenda e a Paula) de Dubai.

Ana chega. Tony a espera na portaria do prédio. Entrega-lhe a encomenda: Uma mala, e das grandes. E não é só isso, ele explica a uma constrangida Ana. O resto, ele precisa da ajuda da Ana para carregá-lo.

Dirigem-se ao elevador. E eis que, de trás de uma coluna, surge a audaz, ousada, linda e sexy Kaká. Em passagem-relâmpago por São Paulo, a primeira desde que se mudou para Dubai, a Libanesa presenteia su madre com, er, si mesma. Su madre está dichosísima y emocionadísima. A Kaká, vestida de Jeannie é um Gênio, não fez a egípcia: Ela fez a Cleópatra.

Mas será que foi mesmo assim?

Sim: Eu estava lá. A Kaká não me convidou para essa trama. Mas o Tony me contou, e eu me aboletei. Eu também não fiz a egípcia: Eu fiz a íntima.

segunda-feira, 5 de maio de 2008

O NARIZ DE CLEÓPATRA

Falemos um pouco mais de presentes, Fabiano. Vamos agora para Alexandria, costa norte do Egito. 48 a.C. Sobra pouco, ao Egito, do esplendor e poder que conhecemos em Êxodus. Roma é o novo Egito.

Conta-nos Plutarco que, buscando apoio para reger sozinha o Egito (e não dividir o trono com seu irmão e marido Ptolomeu 13, como era o desejo do falecido pai dos dois, Ptolomeu 12), a jovem Cleópatra faz com que seu confidente Apolodoro leve até o cônsul romano Júlio César, hospedado no palácio dos Ptolomeus em Alexandria (onde Cleópatra é persona non grata), um presente. Esse presente é um tapete. Bom, Plutarco diz uma colcha – mas uma colcha?

Enfim. Desenrolado, esse tapete revela a audaz, ousada, linda e sexy Cleópatra. Tão maravilhado ficou Júlio César que Cleópatra levou o trono do Egito. E, ainda, um filho do cônsul romano – que ela tratou de batizar de Ptlomeu César, e de chamar de Cesarion. (Cleópatra, todo mundo sabe, mais tarde levaria também Marco Antonio.)

E tão maravilhados ficamos nós com esse, er, presentear com si mesma que não nos cansamos de ver a Cleópatra de Elizabeth Taylor, Vivien Leigh, Claudette Colbert e de todo mundo desenrolar-se daquele tapete para Júlio César.

Mas será que foi mesmo assim?

Imagino que não saberemos como realmente aconteceu esse primeiro encontro. Por Osíris, foi em 48 a.C.! E Plutarco escreveu circa 110 d.C. As atuais pesquisas no Palácio de Alexandria submerso podem, é verdade, revelar-nos novas informações desse encontro – mas, reconheçamos, mesmo essas informações refletiriam não como aconteceu o encontro, mas como Cleópatra escolheu que ele fosse registrado. A história é escrita pelos vencedores – e eles têm as suas versões dos fatos.

Mas há uma nova informação que nos permite, ao menos, uma releitura desse primeiro encontro: Uma moeda com o perfil de Cleópatra, datada de 32 a.C., exposta na Inglaterra em 2007, revela-nos – por Ísis! – que Cleópatra era um bocado feia. O seu nariz não era longo, como acreditaram Pascal e os leitores de Asterix, incluindo esta blogueira – mas adunco. Fosse produzido hoje, Monica Bellucci estaria fora do elenco de Astérix & Obélix: Mission Cléopâtre.

E isso, em contraponto, sugere que Cleópatra era ainda mais inteligente do que imaginávamos. De fato, é preciso inteligência para seduzir os dois homens mais poderosos de Roma. Seduzir os dois? É preciso inteligência para presentear um dos homens mais poderosos de Roma. Veja Ptolomeu 13. Buscando apoio para reger sozinho o Egito, Ptolomeu 13 também presenteou Júlio César – com a cabeça arrancada do general Pompeu, adversário de César em Roma. Não funcionou: Júlio César ficou chocado com tamanha barbárie.

Voltemos então ao segundo parágrafo: Desenrolado, esse tapete revela a audaz, ousada, inteligente e sexy Cleópatra. Agora sim. E talvez M Pascal, estivesse vivo, editaria o seu “le nez de Cléopâtre: s'il eût été plus court, toute la face de la terre aurait changé.”: L'intelligence de Cléopâtre: s'elle eût été plus court, toute la face de la terre aurait changé.”

terça-feira, 29 de abril de 2008

TODO O PODER AOS GENEROSOS

Fabiano, se você estiver na costa noroeste dos Estados Unidos e do Canadá, entre Oregon e Alasca, e for convidado para um potlach em uma comunidade indígena, não se preocupe em levar um presente. Preocupe-se, sim, em como trazer para o Brasil todos os seus presentes. Explico: Depois de entretê-los (os convidados) com gastronomia, música e dança, o homenageado distribuirá todos os seus bens entre vocês. E se houver rivais do homenageado entre os convidados, é possível que ele, o homenageado, destrua parte de seus bens.

Os praticantes do potlach não acumulam riqueza? Acumulam, sim. E a custo de muito trabalho – eles não são a cigarra da fábula de Esopo. Mas acumulam riqueza tão-somente para, em seguida, distribuí-la, presenteá-la, desfazer-se dela – eles não são a formiga da fábula de Esopo. Na época de ouro do comércio de pele de animais, a riqueza era tanta, e o potlach era tão suntuoso e extravagante, que os governos dos Estados Unidos e do Canadá chegaram a proibí-lo. Sim: No mundo protestante de austeridade e parcimônia, o potlach é uma perda irracional de recursos.

Por que todo esse desprendimento, todo esse presentear, toda essa generosidade? Tudo isso, intuo, revela uma fé absoluta na abundância do universo, no Deus-dará, na força da comunidade – o que, por si só, deve ser uma libertação, uma leveza, um luxo.

Mas para antropólogos (e alguns economistas), o potlach é uma manifestação típica daquilo que chamam de economia do presente. Na economia do presente, bens e serviços circulam sem um acordo explícito de pagamento imediato ou futuro: A dádiva gera recompensas sociais ou intangíveis como o karma, a honra, a lealdade, a gratidão. O potlach, para os seus praticantes, é a medida de status social: Aqueles com mais prestígio ou poder num clã ou numa tribo não são os que têm mais riqueza – mas sim os que se desprendem mais dessa riqueza, os que presenteiam mais, os que são mais generosos.

Fabiano, já na costa sudeste do Brasil, em São Paulo, a celebração do meu aniversário – se a celebração do meu aniversário fosse um potlach, esta blogueira teria sido destituída de qualquer prestígio ou poder. Já a minha família e os meus amigos, eles estariam num grande empate técnico: Foram muitos os presentes, foram muitos os bens e serviços que circularam. A todos os que me presentearam no meu aniversário – para me ater à blogosfera, o Carioca Virtual e o BHY –, a vocês todo o prestígio, o poder, o karma, a honra, a minha lealdade e a minha gratidão!

quarta-feira, 16 de abril de 2008

DE TOLERANTIA

Sou um pouco como naquela canção do Sam Cooke: Don’t know much about geography, don’t know much biology. Sei ainda menos sobre a teoria dos redutos, como a chamam os geógrafos, ou dos refúgios, como preferem os biólogos. A última vez em que olhei temas desse universo com rigor foi nos anos 80, quando traduzi o livro Biologia da Poluição.

Mas nasci e cresci entre cientistas. E conheço o geógrafo Aziz Ab’Saber para saber, como naquela canção do Spandau Ballet, to know this much is true: Ele é uma das pessoas mais éticas e lúcidas do país. É verdade que sou suspeita. Respeito e admiro o professor Aziz não só como homem público (o cientista, o professor, o cidadão) mas também como amigo: Os laços que unem o meu pai ao Professor Aziz, e a minha família aos Ab’Saber, são a própria definição de philia.

Também respeito e admiro o zoólogo e compositor Paulo Emílio Vanzolini, inclusive na esfera pessoal. Até os meus vinte e poucos anos, fomos vizinhos. Vizinhos de fundo. E convivi muito com os seus filhos Fernanda e Toni.

Portanto, lendo a matéria de Eduardo Geraque na Folha de São Paulo, sinto-me diante de algum tipo de erro. Alguém, e de alguma forma, cometeu um erro de discernimento ou de comunicação. E diante do que leio, eis o meu discernimento: Não, o Professor Aziz não está “nessa fase de invenção, de dizer que ele descobriu a teoria dos refúgios”, tampouco ele “colocou isso na internet”.

Como já lhes contei, procuro ser tolerante diante de certos erros de discernimento ou de comunicação – inclusive quando sou objeto desses erros. Por exemplo, também já lhes contei, quando alguém usa palavras duras como frivolidade, hipocrisia ou burrice para se referir à minha escolha de dieta vegetariana. Esclarecer-me, justificar-me, defender-me muitas vezes não vale a pena: Deixe que esses erros evanesçam. Assim é se lhe parece, diria Luigi Pirandello. Cada um pensa como pode, diria Mário Quintana.

Mas a tolerância só é uma virtude, diria André Comte-Sponville, se acompanhada de limite. E uma sugestão de apropriação indevida de tese científica, em letra impressa – no meu discernimento, aqui o limite foi ultrapassado. E, diante disso, são precisos uma retificação e um pedido de desculpas ao Professor Aziz. Não dá para fazer por menos.

E enquanto não acho (melhor: não procuro) a fotografia do meu pai com um filhote de onça no colo, a bordo de um navio numa expedição no Rio Amazonas, ilustro este post com outra foto dele – aqui no III Seminário Sobre a Realidade Amazônica. Tratei de colocar-lhe um papagaio no antebraço. Não sei se chega a causar um estranhamento, um ostranenie, como numa foto de Juergen Teller. Mas que ficou fofo, ficou.


HE’S TOTALLY LIP-SYNCHING!
Papagaio! Por Herbert Richers e a sua descendência! Esse vídeo do Spandau Ballet para True é o pior lip-synching da história das imagens! É ainda pior, Too-tsie, do que Britney Spears em Gimme More nos VMAs. É alguma brincadeira que eu não consigo entender? Se fosse Laurie Anderson ou David Byrne, eu diria que se trata de uma proposta de estranhamento. Mas aqui – está parecendo negligência, imprudência ou imperícia mesmo.

quinta-feira, 10 de abril de 2008

LENDO IMAGENS

No doubt everyone has seen Victoria Beckham in the Marc Jacobs ads. Bom, ao menos um desses anúncios. E, bom, algumas pessoas, como esta blogueira, não tinham idéia de que as pernas que saem de uma enorme bolsa (uma sacola, das de compras) na qual se vê C JAC, e que nossos olhos lêem Marc Jacobs, os pés com sapatos cujos saltos estão no antepé, e não no calcanhar – de que essas pernas eram da Posh Spice. A mulher mais fotografada do mundo, que aprendemos a ver montadérrima e fazendo carão, aqui se permite ser retratada um pouco fora de controle, um pouco feia, um pouco desajeitada, um pouco pastelão.

Uma imagem fala por mil palavras. Mas será? Tantas imagens ao nosso redor, tantas delas de coisas ou pessoas que nos são tão familiares, tendem a automatizar o nosso olhar. Diante de uma imagem de Ms. Beckham, por exemplo, o cérebro desta blogueira está programado não para olhar, mas para sentenciar. E não em mil palavras, mas em três. Ela está bonita. Ela está feia. Ela está magra.

Mas ver Ms. Beckham um pouco fora de controle, um pouco feia, um pouco desajeitada, um pouco pastelão – isso nos desperta um certo estranhamento, provoca-nos um segundo olhar. Agora aquilo que me é familiar deixa-me maravilhada, instigada, curiosa. Não é mais "ela está bonita?" (e a sua resposta binária, sim ou não), mas "o que acontece aqui?" – e a sua resposta cheia de possibilidades.

Essa descoberta, de que eu olho o que me é familiar com automatismo – mas posso olhá-lo com o maravilhamento, a instigação e a curiosidade daquilo que me é novo, essa descoberta já é muita coisa. Mas esta blogueira adora ir além, adora saber what’s behind the scenes.

Mas saber what’s behind the scenes não é (re)transformar o estranhamento em familiaridade ou mesmo banalização? Não é substituir uma mágica por um truque? E quando esse behind the scenes se revela por palavras? Ler sobre imagens não é, parafraseando Steve Martin, como dançar sobre arquitetura?

Não para mim – pelo menos não por ora. As mil palavras de Cathy Horin sobre a colaboração entre Marc Jacobs e o fotógrafo Juergen Teller – mais: sobre o diálogo entre a publicidade e a arte –, essas mil palavras educam, apuram o meu olhar. E deixam-me, diante dessas imagens que provocam um segundo olhar, e uma pergunta diferente da banalidade do "ela está bonita?", deixam-me ainda mais maravilhada, instigada, curiosa.



Para ver as tais fotografias:
Entre no site do Marc Jacobs
Clique em MARC JACOBS COLLECTIONS
Clique em ADS
Clique em cada um dos anúncios para ver o próximo

segunda-feira, 31 de março de 2008

CADA UM COM O SEU FETICHE

Há cerca de dez anos Ana Fadigas, então editora da Sexy, convidou-me para ter meus pés fotografados para um ensaio para a revista. Recebi aquele convite com um je ne sais quoi de indignação. Que parte de mim, pensei, está sugerindo que eu não sou uma moça pheena? Estávamos no spa Sete Voltas, onde havíamos nos conhecido há alguns dias. E interagíamos, até então, em torno de temas intelectualizados – como a modernização editorial do Estadão, da qual ela havia participado ativamente.

Desde então, acredito que mudei eu – e os tempos também. Primeiro, hoje eu receberia esse convite como um elogio, e provavelmente o aceitaria. Ok, Sexy não é Dazed & Confused ou In Style – mas seriam só os meus pés. Segundo, hoje eu presumiria que esse convite refletiria a opinião da Ana sobre os meus pés – e não sobre o tipo de moça que eu sou. Por fim, na época eu imaginava que pés eram um entre dez ou doze fetiches – hoje eu sei que são um entre milhares.

Nas últimas semanas conheci mais dois desses milhares de fetiches.

Através do Tony Goes conheci o blog Sem bolso. São histórias do Daniel, um jovem brasileiro que estuda em Londres, e que se mantém fazendo faxina pelado. De roupa, imagino, ele ganharia seis ou sete libras por hora. Pelado, ele nos conta, ganha vinte libras por hora. Como isso também é novidade para o Daniel, ele nos brinda com uma versão terceiro milênio de Entfremdung – o estranhamento do trabalho de que fala Karl Marx. Em inglês esse fetiche se chama nude cleaning.

Através de uma amiga, que por ora manterei anônima, conheci o site 89. Talvez ela não se oponha a ser identificada: No seu blog ela já falou do seu amigo Richard – e ele é, er, battery-operated. Enfim, pensei tratar-se de um movimento pela volta do rock'n roll na rádio 89. Nope! Trata-se de material pornográfico altamente segmentado e organizado por gênero, etnia, atributos físicos, idade, prática, fetiche. Sim, como num menu. (Só sexo consentido, por pessoas em maioridade sexual.)

Para se ter acesso a esse universo de imagens, é preciso fornecer o número do cartão de crédito. Mas há amostras grátis, algumas das quais eu provei. Amigos, digamos que essas imagens não deixam nada à imaginação. Digamos que foram produzidas a dez dólares por hora. Digamos que não é o sexo de Victoria Abril e Javier Bardem em Entre las Piernas, ou de Victoria Abril e Antonio Bandeiras em ¡Átame! BHY, sobre essa cena, BHY, eu e o meu ex-marido Raphael tivemos o privilégio de conversar com Pedro Almodóvar na noite de autógrafos de Patty Diphusa em Nova York. Qualquer hora eu conto a história.

Enfim. No meio de imagens muito explícitas no 89, a que me causou um, er, estranhamento foi a de duas moças de lingerie, sentadas numa cama, enchendo bexigas, dessas de aniversário. Et ça c’est tout. Em inglês esse fetiche se chama ballooning.

A trilha sonora desse post é 99 Luftballons. Aqui a muito engajada Nena nos fala de bexigas que são soltas para protestar contra uma nova corrida armamentista, no começo dos anos 80, entre Estados Unidos e União Soviética. Muita coisa mudou desde então. E não falo apenas da ordem geopolítica ou do corte de cabelo de roqueiros. Hoje, soltar um monte de bexigas para protestar ou celebrar é um no-no ambiental: Bexigas são muito lindas no ar – mas causam danos terríveis quando retornam à terra ou à água. E como bem sabem os atores do 89, tudo que sobe, desce.

terça-feira, 25 de março de 2008

APRENDENDO COM AS FOTOS NSFW DE KRISTIN DAVIS

Sinto muito por todas as pessoas que tiveram sua vida sexual invadida por paparazzi ou pela publicação, sabe-se lá como, de fotos ou vídeos feitos para uso pessoal. Daniela Cicarelli, Tato Malzoni, Paris Hilton, seu ex-namorado (ele foi vítima ou réu nessa estória?), Vanessa Hudgens, Pamela Anderson, Tommy Lee. Sinto muito – mas talvez não o suficiente para abster-me de dar uma olhadinha nessas imagens.

Pois é, Fabiano. Ter ido até Beverly Hills e reparado nos leitores ávidos por fofocas ajudou-me a enxergar o que sempre esteve aqui: A leitora ávida por fofocas em mim. Melhor: A voyeur ávida por fofocas em mim. Não sou o tipo de voyeur que vai atrás da publicação ou do vídeo com essas imagens, que vai até um sex shop ou mesmo até uma banca de jornal. Não. Minha curiosidade não é suficientemente grande para disparar esse movimento todo. Mas no conforto da minha casa, é-me difícil deixar de googlar três ou quatro palavras e – voilà! – ter a minha fração de entretenimento às custas da privacidade alheia.

Mas esse mea-culpa agora por que?

Porque ontem não deixei de googlar Kristin Davis nude e – voilà! – ter a minha fração de entretenimento às custas da privacidade de Ms. Davis. Não da princesa episcopal Charlotte York de Sex and the City, mas da atriz scandal-free, ela mesma: Fotos NSFW tiradas por um namorado em 1992 espalharam-se na internet durante o último fim de semana.

Há um segundo aprendizado aqui, e esse eu vou transcrever do Page Six: “YOUNG women should be very, very careful about not letting nude photographs of themselves leave their hands”. Women and men of all ages, eu diria.

E há, talvez, um terceiro aprendizado aqui – um que ouvi pela primeira vez em Mad About You, mas que parece pertencer a um filme de Woody Allen: Na vida real, ninguém é lindo fazendo sexo. Refiro-me à perspectiva de quem só vê, claro. Por seis temporadas, vimos cenas de sexo das protagonistas de Sex and the City – hey, it’s Sex and the City. E ainda que o sexo reservado à personagem de Ms. Davis fosse mais engraçado e tolo do que, er, sensual (o ménage à trois onde ela se viu excluída, o vício pelo Rabbit, o chef pâtissier que é, er, a gay straight man, o marido com problemas de impotência e ejaculação precoce e preferência por thrill sex), Ms. Davis always looked jolly good on screen. Mas não na vida real. Eu até diria que essas fotos dão um novo significado ao acrônimo NSFW: Not Safe For Ms. Davis' Work as an actress. (Ouch! Pois é, Fabiano: Eis o Perez Hilton em mim.) E essa é uma mulher que em 2006, aos 41 anos, foi eleita a mais bonita do mundo pela revista feminina britânica Eve. (Mm, eu e Lord Herbert teríamos votado em Aishwarya Rai.) E essa é uma mulher que nunca saiu da Top 99 Women do portal masculino AskMen.

E há, parece-me, a confirmação de um quarto aprendizado aqui. Um aprendizado que esta blogueira soube desde sempre – ou ao menos desde que assistiu ao lindo La Nuit Américaine, de François Truffaut: O cinema pode transformar qualquer realidade. E não falo de grandes efeitos especiais. Busquei a cena da noite americana ela mesma, da técnica de iluminação e filtragem usada para fazer com que uma imagem filmada durante o dia fique, na tela, com cara de noturna. Não achei. Mas essas imagens aqui, ao som de Grand Choral de Georges Delerue, onde o personagem de M Truffaut aparece ajeitando com precisão o rosto e as mãos da personagem de Jacqueline Bisset, essas imagens ilustram lindamente o que falo. Há um bocado disso, estou certa, no sexo na sétima arte.

quinta-feira, 20 de março de 2008

DEPOIS DE 3 TAÇAS

Reflexões sobre eu e o álcool, 1

Não me sirva o seu Romanée-Conti. Não vale a pena: Tenho os sentidos apuradíssimos para muitas coisas, mas álcool não é uma delas. E não me faltam só os sentidos apurados para degustar o melhor do álcool. Talvez também me falte um fígado adequado para digerir qualquer álcool. Que delícia ser como naquela canção do Kid Abelha, depois de 3 taças, qualquer um me encanta, tudo sai de graça, qualquer um se torna minha grande paixão. Mas para mim, depois de 3 taças, é sempre aquela náusea.

Foi aos 17 anos, quando entrei na faculdade, que me senti pela primeira vez cercada por pessoas que bebiam. E mais: Por pessoas que não eram indiferentes ao meu consumo de álcool: Elas esperavam que eu bebesse, elas me incentivavam a beber. E eu? Humph. Bom, eu queria pertencer justamente a essa, er, turma do funil. E olha que havia todas as turmas por ali – incluindo os Opus Dei, para quem beber era uma violação do corpo, contraproducente à sublimação da alma, e os PCdoB, para quem beber era uma alienação da vida, contrário aos ideais da revolução.

Talvez por ser mulher, talvez por ter-me cercado de pessoas intelectualizadas, nunca fui objeto de um trote, de um ritual onde a minha aceitação numa comunidade fosse explicitamente condicionada ao consumo de quantias insanas de álcool. Não. Vi-me sujeita a uma versão bem sutil desse processo de iniciação. Estudei na Faculdade de Direito da USP e na University of Ottawa, no Canadá – e a construção de camaradagens e vínculos nesses espaços passava, e muito, pelos arriba, abajo, al centro y para dentro. E eu, ali, ora insistindo na minha água, ora trapaceando com o mesmo copo de destilado, brincando com os gelinhos.

O álcool aos 17, 18 anos é um rito de passagem da infância à vida adulta. Mas ali e então, eu não via isso com tanta simplicidade. Eu me sentia desafiada, incitada a mostrar audácia, coragem, ousadia de beber – e não gostava nada daquela sensação. A época em que eu estudei no Canadá era a do Just Say No (to peer pressure), uma campanha anti-drogas dirigida a crianças e adolescentes. Yeah, like it is that easy: Ainda me era difícil como uma mulher casada, aos 25 anos.

Mas o que me surpreende é que esse sentir-me cercada por pessoas que esperam que eu beba, essa dificuldade to just say no, eu não os deixei no início da minha vida adulta: Ainda hoje os trago. Mas agora eu me sinto não desafiada, mas convidada. E não convidada a beber em si – mas convidada à entrega, à vulnerabilidade, à perda de controle, a deixar-me levar pela embriaguez. E um convite à minha vulnerabilidade é-me bem mais sedutor do que um desafio à minha coragem. Mas ainda aquela náusea depois de 3 taças, e ainda os sentidos pouco apurados para o melhor do álcool.

É claro que uso de álcool é diferente, e muito, de abuso de álcool. Mas não consigo pensar em nenhum outro produto cujo uso seja tão amplamente incentivado. Talvez sua avó incentive que você coma um pedaço de bolo; seu personal trainer, mais proteína; seu clínico geral, que você beba mais água; a publicidade, uma Coca-Cola. Mas reconheça: Com maior freqüência há alguém, ou algo, incentivando que você beba álcool, ou mais álcool.

E por que é assim? Talvez porque vejamos o álcool como algo divino desde, bem, desde sempre. Pense em Baco e nos rituais de embriaguez nas Dionísias gregas ou nos Bacanais romanos. Pense na festa judaica Purim, onde se deve beber até não se saber diferenciar o amaldiçoado Haman do abençoado Mordechai. E pense, com tantos poderes, e no meio de um povo com tantas necessidades, no milagre que Jesus de Nazaré escolheu como o seu primeiro: Transformar água em vinho numa festa de casamento em Canaã da Galiléia. Falo sério.