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quarta-feira, 6 de agosto de 2008

ABRINDO O MAR VERMELHO

Minha amiga Ana Sofia gosta de contar que uma das coisas mais importantes que aprendeu na faculdade de Direito, onde estudamos juntas, deu-se numa aula de processo civil. Uma aula sobre prescrição e decadência. Certos direitos e certas obrigações extinguem-se depois de um certo lapso de tempo, defendeu o professor, porque não podemos revisitar o passado indefinidamente. Pra frente é que se anda, ele concluiu, um pouco à moda de Aldir Blanc ou Ary Barroso. Para a Ana Sofia esse enunciado foi um hino de libertação do passado, um ode ao contínuo reinventar-se – um Mar Vermelho a abrir-se diante dela.

Tenho certeza que tive muitas, ou ao menos algumas, experiências semelhantes na faculdade – só que agora nenhuma me ocorre.

Mas me lembro de várias situações onde aprendi algo cujo valor só percebi depois, e muitas vezes aos poucos. Uma dessas situações foi apresentar e comentar, numa aula de filosofia do direito, um texto do pensador italiano Norberto Bobbio. Dell' uso delle grandi dicotomie nella teoria del diritto. Eu tinha 23 anos.

Era esperado que um mestrando trabalhasse com textos em espanhol, inglês e francês. Mas italiano? Tudo que eu sabia (sei) da língua de Dante vinha de Parole, Parole. (Fãs da Dalida: Attenzione a essa interpretação de Mina Sono! Tão incrível como aquela onde Dalida canta com um Alain Delon qui n'est pas là!) Durante muito tempo carreguei esse texto do Bobbio e um dicionário português-italiano pra cima e pra baixo, com esperança que agora, sim, rolaria. E com o auxílio luxuoso de um amigo tão inteligente quanto generoso, Marco Pelegatti, e do meu pai, que é um grande tradutor de qualquer língua – e não sou eu que digo: Ele ganhou um Prêmio Jabuti por um original em alemão –, com a ajuda deles, rolou. Debrucei-me sobre esse texto com tal afinco que ainda hoje me lembro de algumas de suas frases.

Mas a grande revelação desse texto, esse Mar Vermelho que se abre para mim aos poucos, é que certas idéias, sensações e sentimentos, só os conhecemos, ou os conhecemos melhor, pelo contraste, pela oposição. Daí o uso das grandes dicotomias na teoria do Direito, de que fala Bobbio. E também – e agora sou eu que falo – no pensamento de Platão (o mundo da razão e o mundo dos sentidos), de Santo Agostinho (Cidade de Deus e Cidade dos Homens), e de René Descartes (mente e corpo). Daí o bem e o mal do zoroastrismo (Aúra-Masda e Arimã), das religiões abraâmicas (Deus e Diabo), e dos filmes de ação de Hollywood (mocinho e bandido). Daí os contrastes nas imagens, os contrapontos na música.

Assim como não temos, a maioria de nós, um ouvido absoluto para sons, também não temos um olhar absoluto, um sentir absoluto, um pensar absoluto. Ouvimos, sentimos, pensamos, processamos e elaboramos o mundo por comparação – em relação a algum parâmetro, a alguma experiência, a algum conhecimento. Tudo é relativo, teria dito Albert Einstein.

Comparar dois elementos (daí os termos dicotomia ou dualismo), da mesma natureza, que estão em pólos opostos (daí o termo polaridades, como prefere Carl C. Jung) ajuda, pelo contraste, a conhecer cada um desses elementos opostos. E também, para os não-maniqueístas, a entender que há um espectro entre esses elementos opostos. Para usar o mais didático dos exemplos, comparar as cores preto e branco ajuda, pelo contraste, a conhecer o preto, a conhecer o branco. E a entender que há, entre o preto e o branco, infinitos matizes de cinza – daí a expressão zona cinzenta (gray zone) para aquilo que não é claramente legal ou ilegal, certo ou errado, ético ou antiético. Para quem entende que há infinitos matizes de cinza, e que o preto e o branco estão em constante transformação – voilà o yin e o yang do taoísmo e do confucionismo.

E tudo isso para que mesmo?

terça-feira, 15 de julho de 2008

EU SINTO MUITO, EU AMO VOCÊ! 4

Trair a minha confiança é uma coisa. Outra, e bem mais perversa, é fazê-lo na semana em que – como você sabia – a minha família lembra um ano da morte dos meus sobrinhos Rafaella e Caio no acidente da TAM. What a sense of timing! Que compaixão! Que sensibilidade! Você é assim – uma superpessoa!

Espera: Tô ouvindo alguma coisa. Ei, é uma mensagem do universo pra você: "Ardil atrai ardil, crueldade atrai crueldade – você colhe o que você planta!" Olha, os Beatles também estão aqui pedindo para avisá-lo que "in the end, the love you take is equal to the love you make".

Divindade, se sou eu que crio a minha realidade, que parte de mim criou essa situação? Porque meu trabalho de criação não resulta na realidade que quero? Me ajuda? Por favor limpe em mim o que está contribuindo para esse problema.

Eu sinto muito.
Por favor me perdoe.
Eu amo você.
Muito obrigada.

domingo, 13 de julho de 2008

EU SINTO MUITO, EU AMO VOCÊ! 3

Há uns poucos meses aprendi mais algumas lições sobre o ho’oponopono. Compartilho aqui quatro delas. (Se você não acredita em nada disso, ao menos divirta-se imaginando a sua trilha sonora para essa série de posts. Que tal Twilight Zone? A minha trilha sonora, essa eu já escolhi.)

Uno. Posso usar o ho’oponopono não só quando eu vejo um problema, uma doença no outro – mas sobretudo quando eu vejo um problema, uma doença em mim. Para usar a metáfora do post e-love-2, posso usar o ho’oponopono quando eu me dou conta que passei, nos meus relacionamentos, a jogar tênis. Ou, pior, esconde-esconde e queimada. Ouch!

Dos. O ho’oponopono requer que eu assuma completa responsabilidade pelo problema, pela doença. Se eu o vejo em mim ou no outro ou no mundo, não importa: Eu criei esse problema, essa doença. Aliás, eu não criei apenas esse problema, essa doença: Eu criei toda a minha realidade, eu criei toda a realidade do meu mundo.

Tres. Responsabilidade é uma coisa. Outra coisa, e muito diferente, é culpa. Talvez sentir culpa consista em carregar algum fardo, a executar algum auto-flagelo. Assumir responsabilidade é conscientizar-me de que eu poderia ter feito melhor – e em seguida fazer esse melhor: Pedir desculpas, reparar o dano que eu causei, transformar os meus comportamentos.

Catorce. Não dá para fazer tudo isso sozinha, não é? Um lado meu (a Vítima?) logo trataria, como as crianças na minha roda de leitura, de me defender: Foi ela que começou! Um outro lado meu (a Superior?) decretaria: You know what? I am what I am. F@*k you! Um outro ainda (a Louca?) decidiria – oops, paro por aqui. Mas vocês entenderam: Não dá para fazer tudo isso sozinha. Então peço ajuda à força divina. Assim:

Divindade, limpe em mim o que está contribuindo para esse problema.

Eu sinto muito.
Por favor me perdoe.
Eu amo você.
Muito obrigada.

A minha trilha sonora para essa série de posts? É a maravilhosa At the Hop, do delicioso Devendra Banhart. Não tem nada a ver com ho’oponopono, eu sei. Mas Devendra recolocou o xamanismo no mundo pop. Jallalla!

EU SINTO MUITO, EU AMO VOCÊ! 2

Postado originariamente em 13/2/2007, EU SINTO MUITO, EU AMO VOCÊ! 2

Na estrada perigosamente molhada que liga Brasília a Luziânia, um Gol Turbo preto ultrapassa-nos em alta velocidade. Cinco, dez quilômetros à frente vemos uma motociclista, macacão de nylon e capacete, caída no chão, algumas peças ao seu redor. Ela se levanta com dificuldade e apressa-se para o canteiro que divide a estrada. Um pouco adiante, no acostamento, vemos estacionado o Gol Turbo preto. O motorista salta do carro, atravessa a pista em direção à motociclista, mesmo se lança, se projeta em sua direção, nenhuma atenção no fluxo de carros e caminhões. Ele encontra a motociclista no canteiro, olha-a nos olhos, e logo a abraça.

“Eu sinto muito, eu amo você!”, eu e o Thomas o imaginamos dizendo.

sábado, 12 de julho de 2008

EU SINTO MUITO, EU AMO VOCÊ!

Postado originariamente em 13/2/2007, EU SINTO MUITO, EU AMO VOCÊ!

No ISH lemos um texto sobre uma prática de cura do xamanismo havaiano, ho’oponopono. Essa prática nos lembra que o outro não é o outro: O outro só existe como reflexo, como projeção de mim mesma, só está no meu universo para me ensinar algo sobre mim mesma.

Se eu vejo no outro um problema, uma doença – Lúcia don’t preach! Devo antes encontrar esse problema, essa doença em mim, e curar a mim mesma! Curando a mim mesma eu curo o outro, eu curo o meu mundo, eu curo o mundo.

O amor, diz o ho’oponopono, é a melhor forma de cura. Basta que eu invoque o espírito do amor, sem pensar em algo ou alguém em particular, para que o amor cure dentro de mim o problema ou a doença que vejo no outro. Basta que eu repita e repita “eu sinto muito, eu amo você!”.

quinta-feira, 10 de julho de 2008

O SEU OLHAR AINDA MELHORA O MEU

Postado originariamente em 9/7/2007, O SEU OLHAR MELHORA O MEU. Desde então muita coisa aconteceu na minha vida – mas não conheci ninguém com uma narrativa como a da Ludeju. Feliz aniversário!

“Jallalla!” Quando ela começa a falar com aquela voz grave e linda, a Ludeju tem toda a minha atenção, os meus sentidos, a minha emoção. Ela não vai reportar uma idéia, uma sensação, um sentimento – enfim, ela não vai apresentar-me (apresentar-nos) algo pronto como ela o percebe, sente, vivencia. Não. Como é que eu explico? É como se a Ludeju fosse tecer, fabricar, compor essa idéia, essa sensação, esse sentimento comigo – palavra por palavra, gesto por gesto, olhar por olhar.

Mal começo a dar forma às suas palavras, seus gestos, seus olhares – e a Ludeju salta para uma segunda idéia, sensação ou sentimento. Sem que eu perceba a conexão entre eles, ou intua aonde a Ludeju quer chegar. Por alguns instantes perco-me na profusão, na exuberância dessas palavras, gestos, olhares, pausas, entonações, posturas. Tudo isso para que mesmo? Para onde estamos indo? E então a Ludeju salta para uma terceira idéia. E outra, e outra.

E chega o momento em que essas idéias para mim incompletas e até então estanques começam a dialogar, a se cruzar, a se entrelaçar. E como camadas numa tela de Beatriz Milhazes, ou como núcleos de personagens num filme de Robert Altman ou Alejandro González Iñárritu, essas idéias inicialmente estanques encaixam-se, combinam-se, completam-se... para compor algo surpreendente, revelador!

Será que me fiz entender? E se eu tentasse de outro modo? O que a Ludeju não faz – apresentar algo pronto como ela o percebe, sente, vivencia –, isso eu disse bem. Mas o que ela faz, então? Ela cria uma conexão? Sim, mas isso é amplo demais. E se eu disser que ela me transporta ao seu mundo interno? Assim começou melhor. E lá, eu no seu mundo interno – ou ela no meu mundo interno, vai saber –, lá a Ludeju faz com que eu pense com ela uma idéia, tenha com ela uma sensação, sinta com ela um sentimento. E quando ela anuncia – jallalla! – que disse o que tinha a dizer, não é mais a idéia da Ludeju, a sensação da Ludeju, o sentimento da Ludeju. Essa idéia, essa sensação, esse sentimento... agora são meus também! E com eles meu horizonte se ampliou, meu coração abriu, meu olhar melhorou.

Ficou ainda mais confuso? Barroco? Sei que não me explico bem. Talvez haja um vocabulário, no alemão ou no grego, ou entre os neologismos de Jacques Derrida, Naom Chomsky ou Martin Heidegger, um vocabulário que expresse esse pensar-com, esse ter-a-sensação-com, esse sentir-com. Ou talvez isso seja algo do qual não se fale – seja algo que apenas se sinta. Talvez o Arnaldo Antunes tenha chegado próximo ao cantar um olhar-com... um olhar que ora é seu, ora é meu.

Taí: Se a minha vida tivesse uma trilha sonora, cada vez que a Ludeju aparecesse nós ouviríamos Arnaldo Antunes e Zaba Moreau cantando O Seu Olhar.

sexta-feira, 20 de junho de 2008

MON JAPON

Para Douglas Mendez, que adoraria ter-me como amiga – eu também adoraria tê-lo como amigo!

O generoso comentário do Douglas Mendez no meu post O MEU JAPÃO chegou-me um pouco como a pequena madeleine que Marcel Proust mergulha no chá, e então saboreia.

“Invadiu-me um prazer delicioso, isolado, sem noção de sua causa”, que me levou de volta ao passado – melhor, trouxe-o para o presente: Estou de pé em frente a uma tela que retrata um homem de barba, que veste kimono, sentado no tatami em seiza ou em lótus e, a seu lado, um homem de barba, que veste calça e paletó, sentado numa cadeira. Nos meus ouvidos, tenho fones de um aparelho de audioguia. O audio transcreve uma carta que o pintor, francês, escrevera: “Mon Japon!”, ele suspira a certa hora.

O meu Japão, agora me dou conta, não é algo que eu criei ontem para expressar a minha experiência: É uma experiência de japonisme que eu ouvi num audioguia. Googlei algumas palavras e eis a tela: “Paul Alexis Lendo um Manuscrito a Zola”, de Paul Cézanne. Ocorre que a tela é parte do acervo do Masp, onde jamais fiz um tour audioguiado. Aliás, não acredito que o Masp ofereça esse serviço.

Será que eu estou criando agora esse passado? Será que eu combinei a minha experiência frente a “Paul Alexis Lendo um Manuscrito a Zola” no Masp com uma outra, como aquela frente a “Retrato de Émile Zola”, de Édouard Manet no Musée d'Orsay? Sim, pois no Musée d’Orsay fiz tours audioguiados.

Não sei. Mas é-me muito libertador, BHY, saber que, ao contrário do que argumentei em fevereiro deste ano, posso não apenas atribuir um novo significado a uma experiência do passado: Posso também mudar o meu passado.

quarta-feira, 18 de junho de 2008

YESHUA BAR ABBA

Para mim, abba foi primeiro o grupo sueco pop, o de Dancing Queen e Knowing Me, Knowing You, depois um tipo de rima na poesia, onde o primeiro verso rima com o quarto, e o segundo com o terceiro, e só então – e muito recentemente – a palavra em aramaico para pai.

Por que falo sobre isso agora?

Porque alguns estudiosos argumentam que decorre daí, do desconhecimento das palavras em aramaico para “filho de” (bar) e pai (abba), decorre daí boa parte do anti-semitismo.

Explico.

Nos textos do Novo Testamento, que foram escritos originalmente em grego koiné, Jesus dirige-se a Deus como abba ou pai. Esse dirigir-se a Deus com intimidade contrariava a tradição judaica de dirigir-se a Deus com temor ou subserviência. E teria valido a Jesus também o nome Yeshua bar Abba: Jesus, o filho do Pai.

Portanto, quando Pilatos perguntou à multidão de judeus “qual dos dois vocês querem que eu solte?”, e eles responderam “Barrabás!” – quem eles realmente queriam soltar era bar Abba, nome que foi helenizado para Barrabás.

Será que é esta a verdade? Aqui eu responderia como Pilatos: Quid est veritas?

Para os cristãos, a verdade é que Jesus é o filho de Deus encarnado. Para os muçulmanos, que ele é um dos profetas mais amados por Alá. Para os judeus, que ele não é o Messias. Para alguns historiadores e arqueólogos, que Jesus foi um líder judeu entre tantos. Para outros, que ele é um personagem fictício da mitologia cristã.

Para mim, e agora me refiro a bar Abba e Barrabás, a verdade é que essa teoria dilui o anti-semitismo. E qualquer teoria que dilui o ódio, o medo, a aversão, a discriminação a grupos de pessoas, em decorrência de etnia, nacionalidade, gênero, espiritualidade, orientação sexual, idade, necessidades especiais – qualquer teoria dessas é a minha religião.

terça-feira, 29 de abril de 2008

TODO O PODER AOS GENEROSOS

Fabiano, se você estiver na costa noroeste dos Estados Unidos e do Canadá, entre Oregon e Alasca, e for convidado para um potlach em uma comunidade indígena, não se preocupe em levar um presente. Preocupe-se, sim, em como trazer para o Brasil todos os seus presentes. Explico: Depois de entretê-los (os convidados) com gastronomia, música e dança, o homenageado distribuirá todos os seus bens entre vocês. E se houver rivais do homenageado entre os convidados, é possível que ele, o homenageado, destrua parte de seus bens.

Os praticantes do potlach não acumulam riqueza? Acumulam, sim. E a custo de muito trabalho – eles não são a cigarra da fábula de Esopo. Mas acumulam riqueza tão-somente para, em seguida, distribuí-la, presenteá-la, desfazer-se dela – eles não são a formiga da fábula de Esopo. Na época de ouro do comércio de pele de animais, a riqueza era tanta, e o potlach era tão suntuoso e extravagante, que os governos dos Estados Unidos e do Canadá chegaram a proibí-lo. Sim: No mundo protestante de austeridade e parcimônia, o potlach é uma perda irracional de recursos.

Por que todo esse desprendimento, todo esse presentear, toda essa generosidade? Tudo isso, intuo, revela uma fé absoluta na abundância do universo, no Deus-dará, na força da comunidade – o que, por si só, deve ser uma libertação, uma leveza, um luxo.

Mas para antropólogos (e alguns economistas), o potlach é uma manifestação típica daquilo que chamam de economia do presente. Na economia do presente, bens e serviços circulam sem um acordo explícito de pagamento imediato ou futuro: A dádiva gera recompensas sociais ou intangíveis como o karma, a honra, a lealdade, a gratidão. O potlach, para os seus praticantes, é a medida de status social: Aqueles com mais prestígio ou poder num clã ou numa tribo não são os que têm mais riqueza – mas sim os que se desprendem mais dessa riqueza, os que presenteiam mais, os que são mais generosos.

Fabiano, já na costa sudeste do Brasil, em São Paulo, a celebração do meu aniversário – se a celebração do meu aniversário fosse um potlach, esta blogueira teria sido destituída de qualquer prestígio ou poder. Já a minha família e os meus amigos, eles estariam num grande empate técnico: Foram muitos os presentes, foram muitos os bens e serviços que circularam. A todos os que me presentearam no meu aniversário – para me ater à blogosfera, o Carioca Virtual e o BHY –, a vocês todo o prestígio, o poder, o karma, a honra, a minha lealdade e a minha gratidão!

sexta-feira, 4 de abril de 2008

אהיה אשר אהיה

Sobre ações amorosas, 2

É claro que há um amor que se sente. E não me refiro apenas ao eros, ao amor romântico. Eu mesma já lhes mencionei uma experiência mística que tive em 2007, um sentir-me amada por um Deus pai, um abba, um papai. Ainda não estou preparada para compartilhar essa experiência aqui. Mas a quem me perguntar pessoalmente, eu conto.

Enfim. Depois da reflexão com o meu grupo de desenvolvimento pessoal no ISH, como comecei a contar em SANS LE CHOIX, JE NE SUIS RIEN, dei-me conta de que o amor de que fala A Liberdade é Azul, para o qual Paulo escolhe a palavra grega agape, traduzida para o latim como caritas – esse amor não é um sentimento. Ou, ao menos, não é só um sentimento. Bento 16, na encíclica Deus Caritas Est, diz que "o sentimento pode ser uma maravilhosa centelha inicial, mas não é a totalidade do amor". Até porque "os sentimentos vão e vêm".

O que é, então, o amor de que fala A Liberdade é Azul? Para a Cynthia e o Scott Peck, é uma ação.

Mas essa ação é desencadeada por um sentimento amoroso? Não necessariamente. A mãe age com amor com o filho que ama – e mesmo quando, chorando a noite toda, ele lhe desperta irritação ou raiva. (Bom, nem toda mãe consegue, muito menos sempre.) A nossa protagonista age com amor com a mulher que desconhece – e que, imagino, desgoste. A irmã Helen Prejean (retratada em Dead Man Walking de Tim Robbins) age com amor com o homem que assassinara dois adolescentes brutalmente – um homem que, imagino, cause-lhe algum tipo de repulsa.

E eu? Eu procuro agir com amor com alguém que eu amo quando, ali e então, esse alguém me desperta irritação ou raiva. Mas, reconheço, isso requer um bocado da minha energia: Eu também tenho um cérebro reptiliano programado para agir em modo, como diz Lenine em Do it, “se tá puto, quebre; tá feliz, requebre”. Agir com amor com alguém que desgosto? Sim, quando essa é a minha escolha. E agir com amor com alguém que desgosto requer ainda mais da minha energia – e sequer me ocorre doar-lhe a minha herança.

Com alguém que me causa algum tipo de repulsa? Bom, interajo pontualmente com pessoas que me causam algum tipo de repulsa – mas nunca cheguei a me relacionar continuamente com elas. É uma experiência muito diferente daquela da minha amicíssima Cláudia A.: Ela trabalha, dentro de uma penitencíária, como advogada de mulheres carentes em cárcere. Estou envolvida nos esforços de cultura de paz liderados, em São Paulo, pela Palas Athena – e isso envolve a luta por cidadania e dignidade para todos, inclusive aqueles que cometeram crimes hediondos. É um amor em ação? Quero acreditar que sim. Mas o exerço sem interagir com aqueles que cometeram crimes hediondos. Seria diferente se eu interagisse com eles e, conjecturo, com ao menos um pouco das suas agressividades? Talvez. Seria diferente se entre as suas vítimas estivesse alguém que eu amasse? Talvez.

Digo talvez porque eu desejaria, numa situação-limite, seguir o exemplo virtuoso e libertador de Massataka e Keiko Ota: Eles escolheram perdoar (perdoar, o que é diferente de inocentar ou deixar impunes) os homens que seqüestraram e mataram seu filho Ives, de oito anos. E fundaram uma organização de cultura de paz que, entre outras coisas, trabalha pela recuperação de presos. Mas por vezes alguma coisa se perde entre o que eu desejo fazer e o que eu consigo fazer.

Há, ainda, mais uma pergunta: Essa ação amorosa que faço por alguém que não amo, e que não é desencadeada por um sentimento amoroso – essa ação se faz seguir de um sentimento amoroso? De acordo com A Liberdade é Azul, não necessariamente. Apesar de sua ação amorosa, até o final do filme vemos a nossa protagonista rodeada de uma certa malaise. O amor que ela escolheu não lhe deu um mundo brilhante, colorido e fácil – o mundo de que fala, por exemplo, o personagem apaixonado de Gene Kelly em Singin' in the Rain. O amor que ela escolheu também não se fez acompanhar de uma sensação de alegria, felicidade ou mesmo completude. Pelo menos não lá e então. Mas libertou-a (ou ajudou a libertá-la) da vingança e do ressentimento – e isso, como atesta Ota-san ("o ódio come a gente"), é muita coisa.

Quanto à minha própria experiência, não sei. Preciso prestar um pouco mais de atenção. Provavelmente eu sinta algo mais próximo do alívio ("mantive-me centrada") do que do amor. Algo que, imagino, a Joss Stone ou a Beyoncé devem ter sentido quando o Ashton Kutcher anunciou-lhes: "You just got punk'd!".

Mas essa ação amorosa, se eu a faço por alguém que não amo, se ela não é desencadeada por um sentimento amoroso, se ela não se faz seguir de um sentimento amoroso – o que cria essa ação amorosa? E por que, entre tantos adjetivos, qualificamos essa ação como amorosa?

A encíclica Deus Caritas Est ajuda-nos com a primeira dessas perguntas: Bento 16 diz que o amor pode ser criado pela vontade. Mas não nos ajuda com a segunda dessas perguntas: Bento 16 não diz o que o amor é. Talvez, imagino, porque na visão cristã de Deus, Deus é amor. E Deus, quando Moisés perguntou-lhe o seu nome, respondeu: אהיה אשר אהיה. Eu sou o que sou. O amor, logo, é o que é.

Enquanto eu apreendo o amor que é o que é, deixo-os com (what a surprise!) uma versão remixada de Gloria Gaynor interpretando I am what I am, de La Cage aux Folles. Por muito tempo esta blogueira acreditou que I am what I am fosse o nome não de Deus – mas dessa canção.

SANS LE CHOIX, JE NE SUIS RIEN

Sobre ações amorosas, 1

A lição de casa para o meu trabalho de desenvolvimento pessoal no ISH era identificar algo (uma poesia, uma música, um objeto, uma imagem) que representasse, para mim, o amor. Pensei em muita coisa. Decidi pelo filme que mais me inspirou: A Liberdade é Azul (Trois Couleurs: Bleu), de Krzysztof Kieslowski. Levei ontem ao grupo um post que escrevi sobre o filme em fevereiro de 2007, SANS L’AMOUR, JE NE SUIS RIEN.

Se você pretende assistir a esse filme, e quer preservar a sua surpresa, não leia o resto do post. (Caramba..! Esse é um cuidado que não tomei com os meus colegas no ISH.) Enfim. A protagonista, lindamente interpretada por Juliette Binoche, perde o marido perfeito e a filha num acidente de automóvel. Primeiro a vemos entregando-se à dor da perda através de um projeto de anti-vida, de desligamento de tudo e de todos. Em seguida a vemos tomando conhecimento de que o marido não era tão perfeito assim: Ele tinha uma amante que dele estava grávida.

E então nos perguntamos: Como é que a nossa protagonista vai lidar com tudo isso?

Se fosse uma história de Nelson Rodrigues, acho que assistiríamos a uma catarse. Ciente de que seu casamento de comercial de margarina fora uma farsa, nossa protagonista se entregaria a algum ritual libertador: Sexo com o melhor amigo do marido? Com o motorista do lotação?

Provavelmente Hollywood nos brindaria com um novo amor para a protagonista – a second chance, como se convencionou chamar. O cara bacana, sensível, bonitão e tudo o mais – um personagem que Aydan Quinn, e não Sean Penn, interpretaria.

Mas como é a trilogia de M Kieslowski, a nossa protagonista se encontra com a amante do marido para doar a ela, e ao bebê, tudo que havia herdado do marido. Ela escolhe o perdão à vingança e ao ressentimento.

E é essa a liberdade do título do filme, tanto no sentido de libertação do ressentimento (pois o ressentimento prende-nos a um passado doloroso), como no sentido de liberdade de escolha. Algumas vezes não temos controle sobre a situação em que nos encontramos – mas ainda assim temos a liberdade de escolher os pensamentos, os sentimentos e as ações com os quais reagiremos a essa situação.

Nossa protagonista fez uma escolha de amor. Uma das últimas cenas do filme a traz concluindo um concerto iniciado pelo marido, um maestro e compositor, com o trecho da carta de Paulo sobre amor: Ainda que eu falasse línguas, as dos homens e as dos anjos, se eu não tivesse amor, seria como um bronze que soa ou como um címbalo que tine.

terça-feira, 1 de abril de 2008

BON VOYAGE!

Soube há pouco que a Samanta, prima das minhas primas Soraya, Valéria e Juliana, e sobrinha dos meus tios Leonardo e Ivani, morreu.

No domingo estivemos, eu e os meus irmãos, no Sírio Libanês, onde a Samanta encontrava-se em coma induzida. Apesar da gravidade do quadro, eu acreditei que os 31 anos, a vitalidade e a inteligência da Samanta, o amor e a fé dos seus pais, parentes e amigos, a proficiência dos médicos do Sírio Libanês – que tudo isso operaria a sua cura.

A Samanta era espiritualista. Seus pais são espiritualistas. Muitos dos seus amigos são espiritualistas. Para os espiritualistas, a morte é um instante em um caminho infinito: Em algum momento ou lugar, todos os que se amam ou amaram se reencontram.

Até que se reencontrem, desejo aos que ficam a força e o desapego para lidar com a dor dessa separação. E à Samanta, uma boa viagem!

sábado, 15 de março de 2008

EU TE AMO... EU TAMBÉM

Hoje eu começo pelo final, depois eu conto o começo. Melhor: Hoje eu começo pelos agradecimentos, depois eu conto a estória. É que amanhã de manhãzinha eu tenho um compromisso importante com a minha roda de leitura. Mas eu não conseguiria dormir sem compartilhar ao menos um pedacinho com vocês. Quem leu o meu post EU TE AMO... EU TAMPOUCO sabe porque.

Obrigada, Priscila V., por apresentar-me à palavra intento, no seu significado esotérico. Obrigada, Arnaldo, por ter escrito e postado dois artigos tão claros sobre esse conceito tão complexo. (Não é que tudo dar certo dá um pouco de medo?)

Obrigada, Silvinha, por adiar nosso jantar para domingo. Obrigada Aninha, Marília e Clio, por aceitar que eu saísse mais cedo do nosso encontro.

Obrigada, Edgard Scandurra, por nos colocar na conexão Le Petit Trou.

Obrigada, Ricardo E. Hoje foi você o catalisador de mais uma das coisas incríveis, de mais um dos pequenos milagres que têm acontecido na minha vida nas últimas duas semanas! Je t’aime!

Merci, Jane Birkin, por sua performance intensa e entusiástica. Merci, merci, Mme Birkin, por inspirar-me com a sua gratidão a todos e a tudo ao seu redor. Merci, merci, merci, Mme Birkin, por ter respondido, quando eu lhe disse je t’aime... moi aussi!

terça-feira, 11 de março de 2008

EU TE AMO... EU TAMPOUCO

Numa mensagem telefônica a minha mãe me informa, toda animada, que Jane Birkin vai se apresentar no Sesc Pinheiros nesta quinta-feira.

Sim, meninas: Birkin é a bolsa Hermès objeto-de-desejo de toda mulher chic. Mas é, também, a atriz cult que conhecemos no genial Blow Up de Michelangelo Antonioni (baseado em conto do maravilhoso Julio Cortázar), e a cantora cult que conhecemos em Je t'aime... Moi non plus, em dueto com seu namorado, o poeta e tudo-o-mais Serge Gainsbourg.

A canção surpreendeu alguns com a letra nonsense de M. Gainsbourg (a começar do título Eu te amo... Eu tampouco, inspirado numa frase de Salvador Dali), confundiu outros com a, er, troca de mulheres (Mme Birkin interpretava uma canção que M. Gainsbourg compusera para Brigitte Bardot), escandalizou muitos outros com a interpretação, tão sexy, d'amour physique de Mme Birkin – e deliciou esta blogueira, que não fazia a menor idéia de que havia ali alguma novidade ou motivo para alvoroço.

Mas nesta quinta-feira o encontro com esse ícone da minha infância, adolescência e tudo o mais não acontece. É que escolhi que o meu intento é continuar a explorar, descobrir, compartilhar e crescer com o meu grupo de desenvolvimento pessoal no Ish – e as nossas reuniões acontecem nas noites de quinta-feira. (Sim, Cecília Meireles: É uma grande pena que não se possa estar ao mesmo tempo nos dois lugares!)

Depois lhes conto tudo sobre intento. Mas já adianto que ouvi essa palavra (no seu significado esotérico) pela primeira vez há apenas dez dias, através da übber-conectada Priscila V. Desde então coisas incríveis estão a acontecer na minha vida. Tão incríveis que eu não me surpreenderei se nos próximos dias eu for presenteada com um encontro com Mme Birkin – ou mesmo, como Lucy Liu naquele episódio de Sex and the City, com uma bolsa Birkin.

segunda-feira, 10 de março de 2008

APRENDENDO COM BRITNEY SPEARS

Eu sei, Fabiano: Eu me conecto melhor com as pessoas, incluindo os meus fiéis leitores, quando falo não das idiossincrasias da sociedade de massa – mas das minhas próprias. Ou, para falar como uma cristã, quando reparo não no cisco que está no olho do outro, mas na trave de madeira que está no meu próprio olho.

Mas quem é o outro? Para falar como um xamanista, o outro não é o outro. O outro só existe como reflexo, como projeção de mim mesma. O outro só está no meu universo para me ensinar algo sobre mim mesma.

Então às vezes eu preciso ir até Beverly Hills e reparar na Britney Spears, nos paparazzi, nos leitores ávidos por fofocas, no Perez Hilton – para então enxergar o que sempre esteve aqui: A Britney Spears em mim, a paparazza em mim, a leitora ávida por fofocas em mim, e mesmo o Perez Hilton em mim.

A que posso comparar esse processo? Talvez a um Alice do Outro Lado do Espelho ao contrário: Primeiro eu exploro um universo que me parece tão estranho. Mas chega uma hora em que ele se torna tão familiar – é nessa hora que eu o enxergo em mim.

terça-feira, 26 de fevereiro de 2008

CAIXA DE PANDORA

Versão que li para o meu grupo de desenvolvimento pessoal no ISH em dezembro de 2007, a partir de registros postados em março de 2007: IT’S TOO DARN HOT, CAIXA DE PANDORA, LIVRE ARBÍTRIO, DUKKHA ARIYA SACCA, EPÍSTOLA AOS ROMANOS

Há muita coisa aqui ao redor do porto da balsa em Porto Seguro onde, nessa manhã de carnaval, eu e o Thomas esperamos pela Sabine. Estamos no Bar da Japonesa, mas me sinto um pouco – na caixa de Pandora!

Caixa de Pandora? Por que um julgamento tão sumário? É porque eu tenho, por natureza ou formação, uma mente voltada a julgar, analisar, opinar, criticar? Isso me ajuda, e muito, quando avalio o perfil de risco e retorno de um investimento. Mas e aqui? Isso me atrapalha, e muito. E se eu buscasse, como ensina o Krishnamurti, observar sem julgar? E como é que eu começo? Talvez ampliando os meus sentidos – e registrando cada pedacinho do que sinto.

Há o calor e a umidade que me lembram que há uma pele que me separa do mundo. Tenho filtro solar e Off pelo corpo todo. Nos lugares em que fui picada, e há muitos deles, há Polaramine. Sinto que a minha pele está impermeabilizada e o calor, trancado no meu corpo. Não transpiro. O suor escorre por alguns poucos e inusitados poros. Sinto-o atrás das minhas orelhas, no meio das minhas costas, atrás dos meus joelhos. Há insetos que voam próximos dos meus ouvidos, os que insistem em posar no meu nariz, outros que mordem, picam todos os pontos em que não passei Off.

Há o estridor da rampa de ferro da balsa arranhando o concreto do porto. Há o barulho das Kombis com pouca manutenção, dos buggies e seus motores expostos, das buzinas que soam ora em comemoração ao carnaval, ora em protesto à fila. Os passageiros que gritam êêêêêêêêêêêê porque seus carros finalmente entram na balsa. E há o som distorcido e rachado dos carros envenenados com autofalantes gigantescos e sua música que parece se repetir. E esse é um som que não me chega só pelos ouvidos. Também, e mais, por tudo aquilo que toco. Os pés no chão, as mãos e os braços na mesa.

Há o cheiro e a fumaça da fritura dos churros, dos pastéis e dos espetinhos, do diesel do motor da balsa, da gasolina dos vários carros ligando seus motores ao mesmo tempo, alguns porque saem da balsa, muitos outros porque a fila andou. A fumaça, vejo-a com os meus olhos – mas também a sinto machucando os meus olhos e prendendo na minha garganta.

Sim, posso observar cada pedacinho. Mas todos eles juntos chegam-me como um convite à irritação, à impaciência, à exasperação, à falta de razão.

LIVRE ARBÍTRIO
Espera: Um convite não é uma ordem! Não preciso aceitar todo convite que recebo. Já me convidaram para participar de uma caçada, para assistir a uma tourada, para comer buchada de bode. E adivinhem o que?

Tenho muitas escolhas aqui!

Eu posso compensar esse desconforto todo com uma dose de prazer, como tanta gente ao meu redor parece fazer. Devorar uma porção de pastel, tomar uma cervejinha, fumar um cigarrinho.

Eu poderia, aliás, já ter escolhido estar no mundo anestesiada desses e de outros desconfortos, de outras dores da vida. Talvez um uso recreativo de Zoloft, Rivotril, Lexotam?

Eu posso, porque não, distrair-me. Pensar nas minhas coisas favoritas, como ensina a noviça rebelde aos filhos do capitão. Ou simplesmente deixar-me levar pelo pensamento, como ensina aquela outra canção, aquela do pensamento que parece uma coisa à toa, mas como é que a gente voa quando começa a pensar. Posso transportar-me para a experiência mágica, celta, enfeitiçada que eu tive na estrada de Bonito a Miranda. Visualizar o banho que eu tomarei tão logo chegar a algum lugar.

Mas e se eu deixasse a minha mente aqui, junto ao meu corpo, sem anestesia? Ainda assim teria uma escolha? Mmmm...sim! Pois não é só o calor, a umidade, os insetos, o barulho, o cheiro e a fumaça. Não. Há aqui uma paisagem bem mais complexa. Há uma vibe aqui, alguma energia compartilhada, há algo a qual as pessoas curtem pertencer. Sim, Lúcia: É dia de sol na Bahia, é manhã de carnaval!

Ainda tenho pelo menos mais uma escolha: Posso escolher aquilo com o que me sintonizo nessa paisagem, aqui e agora. Que paraíso escolher me sintonizar com o dia de sol na Bahia de Caetano, com a manhã de carnaval de Luiz Bonfá e Antonio Maria. E que inferno me sintonizar com o calor, a umidade, os insetos, o barulho, o cheiro e a fumaça.

Sei que ainda tenho essa liberdade de escolha. Mas também sei que, agora, essas duas alternativas não se apresentam em igualdade. Agora é tão mais forte, atraente, quase irresistível sintonizar-me com o calor, a umidade, os insetos, o barulho, o cheiro e a fumaça – com aquilo que será o meu próprio inferno.

Cacá, Flávia, como é mesmo que eu trago aqui a minha presença?

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2008

QUEBROU, NÃO TEM MAIS JEITO

Para a Eliana, nesse fim de semana faremos uma viagem de navio. Para mim, farei a maior prática de desbloqueio de toda a minha vida – the mother of all unblocks. Viajar de navio – nunca estive num navio, e sinto náuseas até em automóveis. Estar cercada por um monte de gente o tempo todo – chega uma hora, já lhes contei, em que eu preciso estar só. Estar sob o sol, num calor de mais de 30 graus – isso, já lhes contei também, pode chegar-me como um convite à irritação. Estar cercada por uma energia "woohoo, galera!", numa rave em alto-mar – sou mais contida, acho, e funciono melhor em situações intimistas ou em cenas alternativas.

Sim, tenho ainda outros bloqueios com os quais não lidarei nesse cruzeirinho. Mas, e parafraseando New York, New York, if I can make it in this boat – I can make it anywhere. Além do mais, estou convencida de que todos os meus bloqueios se encontram no bloqueio que experimento aqui e agora. E todos os meus bloqueios se quebram no bloqueio que quebro aqui e agora.

E bloqueios são como pátrias, famílias, religiões – e preconceitos: Quebrou não tem mais jeito.

sábado, 16 de fevereiro de 2008

MMMM...

Se você não acredita nessa receita da Noviça Rebelde para sair da dor, da agonia, da ansiedade, da tristeza, essa receita de pensar nas suas coisas favoritas – o que eu posso dizer-lhe? Que isso também vai passar? Que depois da tempestade vem a bonança? Que vai ser-lhe revelado, num sonho, uma maneira de ser feliz?

Não rola?

Mmmm... E se eu disser, como a Mallu Magalhães, tchubaruba?

Ela compõe, canta, fotografa, desenha e pinta. Ela é a sensação paulistana no MySpaceMúsica. Ela tem quinze anos. Se você não souber onde a Mallu está – she'll be tchubirubing.

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008

I NEVER BOTHER WITH PEOPLE I HATE

Para o Too-tsie, em resposta ao seu comentário no post KUNG HEY FAT CHOI!, dizendo que "desejar tudo de bom a TODOS é de uma elevação espiritual ímpar"

Surpresa! Eu pratico o Metta (amor bondade, amor universal ou amor cordial) justamente porque me é difícil desejar tudo de bom aos que não me agradam. E porque conseguir fazê-lo, acredito, é a única forma de manter a minha mente tranqüila e o meu coração aberto.

Eu uso “os que não me agradam”, mas o texto original diz "inimigos". Desejar tudo de bom aos meus inimigos? Há aí um paradoxo irreconciliável, não? Como aquele do “amai os vossos inimigos” cristão ou do “I never bother with people I hate” de The Lady is a Tramp. If I hate a person, I already bother too much with them. Quando eu li o papa Bento 16, na encíclica Deus Caritas Est, referir-se ao amor à “pessoa que não me agrada ou que nem conheço sequer”, adotei.

Mas de volta ao Metta. Eu pratico sempre que me sinto machucada por alguém. Num primeiro momento, sentir raiva dessa pessoa, ou contemplar uma retaliação (oops, tucaneei!) parece irresistível – até porque isso me protege da dor e da tristeza, não? A dor e a tristeza são dilacerantes, são yin, são paralisantes, e de repente que vontade de chorar – e chorar até ficar com dó de mim! Mas a raiva – ah, que poder, que fuerza, que yang, que mobilização, que Scarlett O'Hara jurando para si mesma "eu nunca mais vou passar fome"!

Mas uma coisa é sentir, pontualmente, dor, tristeza ou raiva em decorrência de um conflito interpessoal. Outra coisa, e muito diferente, é manter ou cultivar esses sentimentos. (Nem preciso dizer que ainda outra coisa é agir nesses sentimentos, sem reflexão – por exemplo, engajar-se em maledicência.) Aliás, sentir dor, tristeza ou raiva é muito importante – é assim que eu me dou conta de que não estou sendo atendida em algo de que necessito. Respeito, lealdade, amor, carinho? Mas assim que identifico a minha necessidade não atendida, trato de fazer cessar, de curar a minha dor, tristeza ou raiva. Como?

É aí que entra o Metta. Antes de dormir? Desejo tudo de bom àquela pessoa por quem me senti machucada. Pensei nela? O mesmo. Estou no trânsito? Também. Entrei numa fila? De novo. No começo é difícil de engolir. Rola um certo me-engana-que-eu-gosto. Mas pela repetição, pelo poder do mantra, não sei bem como isso se opera – daqui a pouco estou genuinamente a desejar tudo de bom àquela pessoa. E um pouco depois, vai entender, não me sinto mais machucada. Curei-me.

Felizmente desejo tudo de bom a toda e a cada pessoa no mundo. Até porque, ainda mais felizmente, não me vi machucada, lesada ou injustiçada no limite da minha sanidade ou dignidade. E se eu tivesse um filho cruelmente assassinado? Se eu tivesse sido vítima de abuso sexual na infância? Se eu tivesse sido condenada por um crime que não cometi?

Mas mesmo no meu universo de ofensas menores, perdoar é diferente de reconciliar. As pessoas com as quais eu não consigo construir ou reconstruir dinâmicas saudáveis, ou criar comunicação honesta – para elas, tudo de bom. Mas também o meu I'm a bubble, goodbye!

Deixo-os com The Lady is a Tramp nas interpretações de Frank Sinatra e de Ella Fitzgerald. Ouví-las assim, uma depois da outra, confirma que os dois são os maiores intérpretes de standards americanos. Mas também ressalta que o Blue Eyes é o mestre do cantar falando, falar cantando – he is so the guy!


music player
I made this music player at MyFlashFetish.com.

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2008

WHAT’S IN A NAME? ANO DO RATO DE TERRA

Não é apenas um ano novo lunar chinês que se inicia em 7 de fevereiro: É também um novo ciclo de doze anos. Cada ano é regido por um de doze animais, e por um de cinco elementos – madeira, fogo, terra, metal e água.

Há, estou certa, explicações astronômicas, astrológicas, energéticas e matemáticas para esse sistema. Eu conheço apenas a lenda. Buda convidou todos os animais para uma festa de ano novo. Doze compareceram. Em agradecimento, Buda instituiu que cada um deles regeria um ano. O rato foi o primeiro a chegar à festa: É dele o primeiro ano. Não conheço uma lenda que explique como os cinco elementos entraram nesse sistema.

O ano que se inicia é um Ano do Rato de Terra. Rato de Terra? Não soa muito promissor, eu sei. Compare-o com o Ano do Dragão de Fogo (1976), ou mesmo com o Ano do Dragão de Terra (1988), que eu tive a felicidade de passar com amigos chineses na Tailândia – se me lembro bem, esse joguinho de cartas foi parte dos rituais de prosperidade. Mas acredite: Por conta da pontualidade e da primazia desse ratón en la fiesta de Buda, este é um ano muito bom para começar, iniciar, transformar, renascer, renovar, recomeçar. E por conta do elemento terra, para fazê-lo de forma realista e pragmática.

Então, Toni, que você tenha me interrompido – e bem na hora da revolta dos trabalhadores de Fordlândia contra o hamburger!– porque viu um ratão passando na frente do Vanilla Caffè, isso não é indicativo da sua dispersividade, da chatice das minhas estórias, nem do tamanhão desse rato. Isso, agora me está claro, é indicativo da sua boníssima fortuna!