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quarta-feira, 6 de agosto de 2008

ABRINDO O MAR VERMELHO

Minha amiga Ana Sofia gosta de contar que uma das coisas mais importantes que aprendeu na faculdade de Direito, onde estudamos juntas, deu-se numa aula de processo civil. Uma aula sobre prescrição e decadência. Certos direitos e certas obrigações extinguem-se depois de um certo lapso de tempo, defendeu o professor, porque não podemos revisitar o passado indefinidamente. Pra frente é que se anda, ele concluiu, um pouco à moda de Aldir Blanc ou Ary Barroso. Para a Ana Sofia esse enunciado foi um hino de libertação do passado, um ode ao contínuo reinventar-se – um Mar Vermelho a abrir-se diante dela.

Tenho certeza que tive muitas, ou ao menos algumas, experiências semelhantes na faculdade – só que agora nenhuma me ocorre.

Mas me lembro de várias situações onde aprendi algo cujo valor só percebi depois, e muitas vezes aos poucos. Uma dessas situações foi apresentar e comentar, numa aula de filosofia do direito, um texto do pensador italiano Norberto Bobbio. Dell' uso delle grandi dicotomie nella teoria del diritto. Eu tinha 23 anos.

Era esperado que um mestrando trabalhasse com textos em espanhol, inglês e francês. Mas italiano? Tudo que eu sabia (sei) da língua de Dante vinha de Parole, Parole. (Fãs da Dalida: Attenzione a essa interpretação de Mina Sono! Tão incrível como aquela onde Dalida canta com um Alain Delon qui n'est pas là!) Durante muito tempo carreguei esse texto do Bobbio e um dicionário português-italiano pra cima e pra baixo, com esperança que agora, sim, rolaria. E com o auxílio luxuoso de um amigo tão inteligente quanto generoso, Marco Pelegatti, e do meu pai, que é um grande tradutor de qualquer língua – e não sou eu que digo: Ele ganhou um Prêmio Jabuti por um original em alemão –, com a ajuda deles, rolou. Debrucei-me sobre esse texto com tal afinco que ainda hoje me lembro de algumas de suas frases.

Mas a grande revelação desse texto, esse Mar Vermelho que se abre para mim aos poucos, é que certas idéias, sensações e sentimentos, só os conhecemos, ou os conhecemos melhor, pelo contraste, pela oposição. Daí o uso das grandes dicotomias na teoria do Direito, de que fala Bobbio. E também – e agora sou eu que falo – no pensamento de Platão (o mundo da razão e o mundo dos sentidos), de Santo Agostinho (Cidade de Deus e Cidade dos Homens), e de René Descartes (mente e corpo). Daí o bem e o mal do zoroastrismo (Aúra-Masda e Arimã), das religiões abraâmicas (Deus e Diabo), e dos filmes de ação de Hollywood (mocinho e bandido). Daí os contrastes nas imagens, os contrapontos na música.

Assim como não temos, a maioria de nós, um ouvido absoluto para sons, também não temos um olhar absoluto, um sentir absoluto, um pensar absoluto. Ouvimos, sentimos, pensamos, processamos e elaboramos o mundo por comparação – em relação a algum parâmetro, a alguma experiência, a algum conhecimento. Tudo é relativo, teria dito Albert Einstein.

Comparar dois elementos (daí os termos dicotomia ou dualismo), da mesma natureza, que estão em pólos opostos (daí o termo polaridades, como prefere Carl C. Jung) ajuda, pelo contraste, a conhecer cada um desses elementos opostos. E também, para os não-maniqueístas, a entender que há um espectro entre esses elementos opostos. Para usar o mais didático dos exemplos, comparar as cores preto e branco ajuda, pelo contraste, a conhecer o preto, a conhecer o branco. E a entender que há, entre o preto e o branco, infinitos matizes de cinza – daí a expressão zona cinzenta (gray zone) para aquilo que não é claramente legal ou ilegal, certo ou errado, ético ou antiético. Para quem entende que há infinitos matizes de cinza, e que o preto e o branco estão em constante transformação – voilà o yin e o yang do taoísmo e do confucionismo.

E tudo isso para que mesmo?

quarta-feira, 25 de junho de 2008

ISSO É COISA QUE SE TEXTE?

Minha mãe me pergunta, com entusiasmo, sobre o casaquinho com cachecol que eu comprei para o meu cachorro Clio. O casaquinho que eu comprei do porteiro, ela esclarece. E então comenta: "Um porteiro que vende roupa de cachorro – isso eu ainda não tinha visto!"

Não é nada disso. Eu comprei, isso sim, um casaquinho com cachecol para a filhinha do porteiro do prédio onde eu moro, que nasceu há cerca de um mês. A confusão deu-se porque eu textei (ai, meus ouvidos!) essa informação para a minha irmã Marília de forma – agora reconheço – ambígua. Era algo como “comprei p bb do porteiro ksaco c kxecol mto fofo”. E a minha irmã leu, imagino, que eu havia comprado “para o meu bebê, do porteiro, um casaco com cachecol muito fofo”.

Esse esclarecimento desperta um olhar isso-é-coisa-que-se-texte? na minha mãe. What a WOMBAT, ela deve estar pensando. Para a minha mãe, a referência mais próxima do que eu lhe descrevo talvez seja o telegrama – uma comunicação que se convencionou reservar para informações de importância ou urgência. Eu não mandaria um telegrama para contar algo assim – é cla-ro. Nem ao menos faria um telefonema.

Mas e textar? Bien sûr! É tão objetivo, discreto, rápido, simples, gostoso – que se convencionou fazer mesmo para informações sem qualquer importância ou urgência. Talvez eu o use tanto porque os meus dois polegares deslizam sobre o teclado com rapidez e precisão – uma habilidade que desenvolvi em duas décadas de uso da calculadora financeira HP 12c. GFF: Uma calculadora de método antiquado (notação polonesa inversa) e design anacrônico preparou-me para os novos desafios da sociedade da informação.

YKW? Texto melhor do que muito adolescente: Quando houver um campeonato de texting por aqui, a taça é minha!

segunda-feira, 23 de junho de 2008

QUAL É A PARADA?

Quarta-feira, véspera de Corpus Christi, uns poucos dias antes da Parada Gay. Falo ao telefone com a veterinária da clínica onde o meu cachorrinho Clio treina agility: Ele teve uma parada cardíaca, ela o ressuscitou. Mas ele ainda corre risco de vida e precisa fazer, nas próximas horas, um eletrocardiograma, um ecocardiograma e um raio-X torácico.

Como é que é isso?

Como é que uma mesma palavra serve para nomear idéias tão opostas quanto parada cardíaca e Parada Gay? Para nomear a interrupção, a paralisação, a suspensão do funcionamento do coração – aquilo que, até os anos 70, era o próprio critério de morte, uma sentença de Thanatos. Mas, também, para nomear a mobilização, a participação, a celebração de um estilo de vida, de uma festa de Eros – aquilo que é o maior show da Terra, o mais magnífico, o maior e o mais grandioso espetáculo processional do mundo. Oops, essa é a street parade do circo Barnum & Bailey. Mas vocês me entendem.

O substantivo parada, no sentido de desfile ou marcha – e os seus correspondentes nas outras línguas românicas, parada (espanhol), parata (italiano), parade (francês), paradă (romeno) – vem do latim parere – de preparar, aparar, parir, esforçar-se para obter. E o verbo em português parar, no sentido de cessar – do qual parado/parada é o particípo? Vem, OMG, do mesmo latim parare – de preparar, aparar, parir, esforçar-se para obter. Segundo o Houaiss, o verbo parar só ganhou o sentido de cessar ou interromper no séc XIV. Até então, tinha o sentido de fazer, mobilizar, apresentar. Talvez daí venha parada, o desfile: Uma apresentação. Mas que o verbo parar tenha evoluído para significar o seu oposto, isso não me ajuda a eliminar o paradoxo entre os sentidos contidos em parada – apenas o confirma.

E a etimologia da palavra em inglês parade? Pois o nome Parada de Orgulho Gay é a, er, tropicalização de Gay Pride Parade – parade é uma palavra comum para desfile informal, não-militar, como em carnival parade ou Christmas parade. Bem, a palavra em inglês parede também vem do latim parere – através do moyen français parer. Isso também não me ajuda.

Fazer o que? Como dizia o meu orientador Celso Lafer na época de mestrado, talvez esse seja mais um paradoxo, contradição ou ambigüidade com o qual eu tenha que saber lidar.


QUAL É A PARADA? 2

E foi tirar esse enigma da minha cabeça para receber a sua solução. Talvez não a solução consensual e erudita, mas a solução que me faz sentido – e que mais uma vez me chega assim cantarolada, em versos do Chico Buarque:

O homem sério que contava dinheiro – parou
O faroleiro que contava vantagem – parou
A namorada que contava as estrelas – parou
Para ver, ouvir e dar passagem

Pra ver a banda passar, cantando coisas de amor

Voilà. Quem está parada é a Avenida Paulista – para ver, ouvir e dar passagem à maior mobilização da Terra!

quarta-feira, 18 de junho de 2008

YESHUA BAR ABBA

Para mim, abba foi primeiro o grupo sueco pop, o de Dancing Queen e Knowing Me, Knowing You, depois um tipo de rima na poesia, onde o primeiro verso rima com o quarto, e o segundo com o terceiro, e só então – e muito recentemente – a palavra em aramaico para pai.

Por que falo sobre isso agora?

Porque alguns estudiosos argumentam que decorre daí, do desconhecimento das palavras em aramaico para “filho de” (bar) e pai (abba), decorre daí boa parte do anti-semitismo.

Explico.

Nos textos do Novo Testamento, que foram escritos originalmente em grego koiné, Jesus dirige-se a Deus como abba ou pai. Esse dirigir-se a Deus com intimidade contrariava a tradição judaica de dirigir-se a Deus com temor ou subserviência. E teria valido a Jesus também o nome Yeshua bar Abba: Jesus, o filho do Pai.

Portanto, quando Pilatos perguntou à multidão de judeus “qual dos dois vocês querem que eu solte?”, e eles responderam “Barrabás!” – quem eles realmente queriam soltar era bar Abba, nome que foi helenizado para Barrabás.

Será que é esta a verdade? Aqui eu responderia como Pilatos: Quid est veritas?

Para os cristãos, a verdade é que Jesus é o filho de Deus encarnado. Para os muçulmanos, que ele é um dos profetas mais amados por Alá. Para os judeus, que ele não é o Messias. Para alguns historiadores e arqueólogos, que Jesus foi um líder judeu entre tantos. Para outros, que ele é um personagem fictício da mitologia cristã.

Para mim, e agora me refiro a bar Abba e Barrabás, a verdade é que essa teoria dilui o anti-semitismo. E qualquer teoria que dilui o ódio, o medo, a aversão, a discriminação a grupos de pessoas, em decorrência de etnia, nacionalidade, gênero, espiritualidade, orientação sexual, idade, necessidades especiais – qualquer teoria dessas é a minha religião.

segunda-feira, 16 de junho de 2008

ERRAMOS: YESHUA BAR YOSEF

Faça você mesmo: Entre no Google, digite Yeshua ben Yosef, e clique em Pesquisa Google. O Google buscará e encontrará 7.720 páginas da internet com o texto Yeshua ben Yosef, e listará os resultados por ordem de relevância. Este blog estará entre as três primeiras páginas de web encontradas.

E é assim, informa-me o contador do Religare!, Site Meter, que muitos vêm aqui: Em busca de Yeshua ben Yosef.

Como é que é isso? Será que o que este blog diz sobre Yeshua ben Yosef, que eu sugeri ser o nome verdadeiro de Jesus de Nazaré, é mesmo tão relevante? É mais provável, agora me parece, que Yeshua ben Yosef não seja o nome verdadeiro de Jesus de Nazaré.

Explico.

Jesus é a helenização de um nome em hebraico – um nome que se acredita ser ישוע .ישוע pode ser transliterado para o inglês (e para línguas românicas, imagino) como Yeshua, Yeshu ou Yehoshua – a forma preferida por estudiosos é Yeshua.

Na época do nascimento de Jesus, os judeus não usavam sobrenome: As pessoas (ao menos os homens) eram chamadas de Fulano, filho de Beltrano. Em hebraico, “filho de” é ben. Mas na época do nascimento de Jesus, o aramaico havia substituído o hebraico como língua falada. Em aramaico, “filho de” é bar. Portanto, um melhor nome verdadeiro para Jesus de Nazaré – Jesus, filho de José – é Yeshua bar Yosef.

É pouco provável que este blog tenha boa colocação numa busca Google por Yeshua bar Yosef: Yeshua bar Yosef é o nome inscrito em um ossuário de pedra calcária de cerca de dois mil anos, encontrado recentemente em Israel. Segundo documentário co-produzido por James “Titanic” Cameron e Simcha Jacobovici, e exibido milhares de vezes pelo Discovery Channel, esse ossuário guarda os restos mortais de Jesus de Nazaré – tese que, se comprovada, derrubaria a teologia da ressurreição do Filho do Homem.

domingo, 25 de maio de 2008

ERRAMOS: LÚCIA RENNT

Do trocadilho já se disse que é o menos sofisticado dos recursos retóricos, a mais simplória forma de humor, a mais baixa manifestação de inteligência.

Ainda assim, não resisto a fazer um trocadilho com o genial Run, Lola, Run de Tom Tykwer ao escolher o título do post sobre a minha amiga Julie que está sempre, er, correndo. Ou dos posts sobre as minhas bem-aventuranças e mal-andanças com a, er, corrida. Ok, é mais uma referência do que um trocadilho.

Talvez pior faux pas de redação e estilo seja transcrever palavras numa língua que não é nem aquela em que as palavras foram originalmente proferidas, nem aquela em que se escreve o resto do texto. Para dar um exemplo que talvez só eu e a minha grandeamiga Fernanda de L. achemos engraçado, ao citar trechos de A Montanha Mágica de Thomas Mann num texto em português, não use o original em francês! (Confirmado: Só eu e a Fernanda de L. achamos engraçado.)

Ainda assim, não resisto a usar o título com que o alemão Lola rennt é conhecido, diz o IMDb, na Austrália e nos Estados Unidos.

Imagino que The New York Times Manual of Style and Usage reprove ambas as escolhas. Mas vou deixar assim: Run, Lola, Run é bom pra caramba.