sexta-feira, 16 de maio de 2008

RUN, LÚCIA, RUN 3

Não sei o que foi, se senti dúvida, ceticismo naquele silêncio, se me senti desafiada, provocada. Só sei que foi assim, Fabiano. Senti o vigor da certeza crescendo em mim, como se o meu ego, o meu id e o meu super-id se alinhassem, como se todas as minhas células se sintonizassem e – ah, que poder, que fuerza, que yang, que mobilização, que Scarlett O'Hara jurando para si mesma "eu nunca mais vou passar fome"! Amanhã eu volto a correr, prometo para mim mesma. Já me visualizo concluindo a maratona de Nova York. Ou Paris. Ou Berlim. Que pena que já é tarde da noite, senão eu começaria aqui e agora. But tomorrow is another day, Scarlett: O dia em que darei vida ao meu eu maratonista.

Não sei bem como isso se dá, Fabiano. Mas na manhã seguinte ficar um pouco mais na minha cama apresenta-se como uma proposta irresistível de felicidade. Sair da minha cama para correr – sounds like a really bad idea. Correr de quem? Correr para que? E que eu tenha feito uma promessa a mim mesma, que hoje eu volto a correr – agora me parece algum deslize de bom-senso, algo movido por vaidade, por orgulho. Volto a dormir.

RUN, LÚCIA, RUN 2

Verão de 2008. Uma amiga conta-me que ficou com um bonitão num cruzeiro de navio. Não o meu cruzeiro; outro. Envolve-se. De volta à terra firme, encontra o seu perfil orkut. Relacionamento: “Namorando”. Sniff. O que não suporto: “Mentira e traição”. Quê? Com os relacionamentos anteriores aprendi: “Que prefiro as dores da verdade às flores de mentira”. Grrr. Comunidades: “Confiança é igual virgindade”. “Fidelidade é tudo”. “Amo tudo em minha namorada”. “A verdade dói, a mentira mata”. *&%$@#!

Mentira, hipocrisia, falta de caráter, personalidade borderline? “O que você acha?”, ela me pergunta.

Faltou-me, agora me dou conta, a presença que a empatia requer. Ponho-me a fazer, bem, uma análise dessa faceta da condição humana. Por vezes, eu argumento, as pessoas identificam-se com virtudes ou hábitos que admiram – mesmo que lhes faltem. Veja o orkut. Conheço pessoas filiadas à comunidade “Adoro ler livros” que estariam melhor representadas numa comunidade “Um dia ainda termino de ler um livro”. Haveria mais honestidade se os membros de “Odeio mentira” que eu conheço migrassem para “Odeio que mintam para mim”. “Inteligência é afrodisíaca”? Os afiliados que eu conheço encontrariam mais ressonância em “Beleza e poder (mesmo em pessoas burras e superficiais) são afrodisíacos”.

Propaganda enganosa? Não, eu continuo, não necessariamente. Talvez essas pessoas estejam buscando as virtudes ou os hábitos que admiram e que lhes faltam. Talvez elas o estejam fazendo cercando-se da energia dessas virtudes ou desses hábitos – não é essa a idéia dos mantras, da programação neurolingüística? De O Segredo? Dos Vigilantes do Peso? Dos Alcoólicos Anônimos?

Mmm.

Olhemos o meu perfil no orkut, sugiro. Ao participar da comunidade “A Loca”, eu digo “seria incrível ter a energia de ir à Loca todos os domingos – o que não tenho há mais de um ano”. “CB Bar”? “Seria incrível ter a energia de ir ao CB todos os sábados – o que só tive uma vez”. “Iranian Cinema”? “Amei ter assistido a quatro filmes iranianos – o último deles, À Caminho de Kandahar, há sete anos”. Ela se anima. Com a minha filiação à comunidade “Run!”, ela argumenta, eu quero dizer “eu corro de quem me convida para correr.”

Epa! Alto lá! O que está acontecendo aqui, BHY? Só eu posso falar dos meus vícios com toda essa leveza e humor. Ah, não!, eu intervenho. Com “Run!” quero dizer “correr me faz bem, em breve voltarei a correr”.

Silêncio.

RUN, LÚCIA, RUN 1

A proximidade das Olimpíadas de Beijing lembra-me que há dois temas que eu gostaria de compartilhar com vocês: As minhas bem-aventuranças e mal-andanças com os esportes, e a minha relação, er, especial com o Tibete.

Começo com os esportes. Não sou naturalmente esportiva. Futebol é bonito – sobretudo quando são dribles em câmera lenta, tomada fechada, e ao som de Que bonito é. Atletismo é maravilhoso – sobretudo quando visto pela lente renascentista de Leni Riefenstahl. Basquete é uma explosão – sobretudo se assisto a um jogo do Nicks no Madison Square Garden.

Quanto aos esportes que eu pratico. Corrida e natação são as âncoras, no meio de várias novidades aeróbicas como step, street dance e spinning. Nos períodos em que pratico com freqüência e continuidade, eu o faço mais por disciplina do que por runner’s high ou qualquer outro tipo de prazer. Não curto a energia “woohoo, galera!” que cerca essas atividades, não desejo mais e melhores tênis de corrida, maiôs ou monitores cardíacos, tampouco vibro por efetuar um deslocamento, em terra ou em água, num menor intervalo de tempo.

É uma relação um bocado tênue, eu reconheço. Qualquer coisa me afasta da prática dos esportes – e poucas coisas me levam de volta.

quarta-feira, 7 de maio de 2008

THAT DOES NOT COMPUTE, WILL ROBINSON

Acabo de conhecê-lo e ele me pergunta de onde eu sou. Intuo que ele queira saber de onde eu conheço o aniversariante, ou em que bairro de São Paulo eu moro. Não. Esse paulista me pergunta mesmo de que país eu sou. De que país da Europa eu sou, ele esclarece.

Não fosse ele lindo lovely sexy, eu teria respondido de pronto: Sou brasileira, paulistana. Mas essa pergunta fica ali congelada – eu sorrio enquanto algum locus do meu cérebro percorre minha memória em busca de informações e experiências que, associadas ou reassociadas, me ajudem a valorar aquela pergunta: Que eu tenha uma aparência européia, isso é bom ou ruim? De um homem, que se diga que ele parece italiano, isso é bom. Mas europeu? Mmm. E de uma mulher? Italiana seria bom. Ou não?

Não tem registro, Will Robinson.

É que eu falo de boca fechada, ele me explica, o que é típico dos povos ao norte do Equador. Durante invernos rigorosos, é preciso usar o calor e a energia do corpo com parcimônia – inclusive falando pouco, mais rápido, e de boca quase fechada.

Quê? Perigo, Will Robinson.

Procuro numa janela o meu próprio reflexo, tento imaginar o quanto a minha boca abre ao pronunciar cada sílaba. Percebo-me prestando atenção não no que ele fala, não no que as pessoas falam – mas em como os seus lábios se movem enquanto eles falam. É esse o olhar do dublador, Herbert? Do leitor de lábios, Alezito? Do fonoaudiólogo, Marília?

Por alguns dias, I can’t take my mind off of it. Googlo climate, language, lips. E encontro algumas teorias que correlacionam – caramba! – clima e sonoridade de idiomas. Pego-me falando algumas coisas em frente ao espelho. O rato roeu a roupa do rei de Roma. The rain in Spain stays mainly in the plain. Olho o lábio das pessoas com que converso – algumas parecem incomodadas; desvio o olhar. Na TV, observo como jornalistas de idiomas e culturas distintas comunicam uma mesma informação. Globo News, CNN, BBC, Deutsche Welle, TVE, RAI, TV5.

Observo tudo isso, experimento tudo isso – é, algumas pessoas abrem mais a boca do que as outras. Mas meu cérebro não cria nada com isso. Ainda não tem registro, Will Robinson.

Alguns dias depois, estou na Livraria Cultura. Folheio The Game: Penetrating the Secret Society of Pick-up Artists, de Neil Strauss. Eu também não sabia, mas há uma cultura de sedução nos Estados Unidos, que faz uso de ferramentas mais comumente associadas à comunicação social e à neuro-lingüística. Enfim. Uma das táticas mais bem sucedidas, ensina o autor, é o neg hit ou cantada negativa – uma frase ou pergunta inusitada e ambígua, algo entre o elogio e a crítica. O neg hit funciona porque, entre outras coisas, gets her to think of the neg hit; therefore, gets her to think of you.

Was he neg hitting on me? Ah, não importa. Meu cérebro encontrou algum significado para aquela pergunta, aquele comentário. Closure, caso encerrado, resolução. Mas a grande descoberta aqui, a grande conexão, foi eu ter-me dado conta desse meu, er, sistema de busca e atribuição de sentido ou significado ao mundo, às minhas experiências.

E esse sistema é bom ou ruim? Como sistema ou ferramenta, imagino que seja bom. Mas uma coisa é esse sistema ser disparado como resultado de uma escolha que faço aqui e agora. Outra coisa, e muito diferente, é que ele opere em piloto-automático, buscando o significado de estímulos, ou ansiando por respostas a perguntas – apenas porque esses estímulos ou perguntas apertaram, em mim, certos botões.

E há algo mimético nisso. Não é só "o que ele quis dizer com eu falo de boca fechada?". É também, com 186 milhões (ouch!) de brasileiros, "que motivo do crime o promotor Francisco Cembranelli apresentará na sua denúncia?", "a Nike manterá o contrato com o Ronaldo?". É esse automatismo, imagino, que nutre a curiosidade superficial e saltitante (die Neugier) de que fala Martin Heidegger.

Atenção pick-up artists, marqueteiros, id e super-id: Começo a entender como seus neg hits e teasers se operam em mim! More power to me!

High five, Will Robinson!

terça-feira, 6 de maio de 2008

FAZENDO A CLEÓPATRA

Mas por que falo de Cleópatra agora?

Porque na semana passada um, er, presentear lembrou-me desse de Cleópatra a Júlio César. Explico, Fabiano.

Você e os meus leitores, imagino, lembram-se da minha amiga Kaká, ah Libanesa, aquela que ME FAZ TÃO BEM. Pois. No final de janeiro, talvez vocês também se lembrem, ela se mudou para Dubai. Em São Paulo ela deixou dezenas de amigos, centenas de leitores, dois cachorros – y su madre Ana también.

Enfim. Noite de segunda-feira. Kaká pede que seu confidente Tony Goes atraia Ana até o prédio onde ele mora (e onde mora esta blogueira). Ela (Ana) deve buscar, naquela mesma noite, uma encomenda da Kaká, que chegou ao Tony em São Paulo por uma Paula, vindos (a encomenda e a Paula) de Dubai.

Ana chega. Tony a espera na portaria do prédio. Entrega-lhe a encomenda: Uma mala, e das grandes. E não é só isso, ele explica a uma constrangida Ana. O resto, ele precisa da ajuda da Ana para carregá-lo.

Dirigem-se ao elevador. E eis que, de trás de uma coluna, surge a audaz, ousada, linda e sexy Kaká. Em passagem-relâmpago por São Paulo, a primeira desde que se mudou para Dubai, a Libanesa presenteia su madre com, er, si mesma. Su madre está dichosísima y emocionadísima. A Kaká, vestida de Jeannie é um Gênio, não fez a egípcia: Ela fez a Cleópatra.

Mas será que foi mesmo assim?

Sim: Eu estava lá. A Kaká não me convidou para essa trama. Mas o Tony me contou, e eu me aboletei. Eu também não fiz a egípcia: Eu fiz a íntima.

segunda-feira, 5 de maio de 2008

O NARIZ DE CLEÓPATRA

Falemos um pouco mais de presentes, Fabiano. Vamos agora para Alexandria, costa norte do Egito. 48 a.C. Sobra pouco, ao Egito, do esplendor e poder que conhecemos em Êxodus. Roma é o novo Egito.

Conta-nos Plutarco que, buscando apoio para reger sozinha o Egito (e não dividir o trono com seu irmão e marido Ptolomeu 13, como era o desejo do falecido pai dos dois, Ptolomeu 12), a jovem Cleópatra faz com que seu confidente Apolodoro leve até o cônsul romano Júlio César, hospedado no palácio dos Ptolomeus em Alexandria (onde Cleópatra é persona non grata), um presente. Esse presente é um tapete. Bom, Plutarco diz uma colcha – mas uma colcha?

Enfim. Desenrolado, esse tapete revela a audaz, ousada, linda e sexy Cleópatra. Tão maravilhado ficou Júlio César que Cleópatra levou o trono do Egito. E, ainda, um filho do cônsul romano – que ela tratou de batizar de Ptlomeu César, e de chamar de Cesarion. (Cleópatra, todo mundo sabe, mais tarde levaria também Marco Antonio.)

E tão maravilhados ficamos nós com esse, er, presentear com si mesma que não nos cansamos de ver a Cleópatra de Elizabeth Taylor, Vivien Leigh, Claudette Colbert e de todo mundo desenrolar-se daquele tapete para Júlio César.

Mas será que foi mesmo assim?

Imagino que não saberemos como realmente aconteceu esse primeiro encontro. Por Osíris, foi em 48 a.C.! E Plutarco escreveu circa 110 d.C. As atuais pesquisas no Palácio de Alexandria submerso podem, é verdade, revelar-nos novas informações desse encontro – mas, reconheçamos, mesmo essas informações refletiriam não como aconteceu o encontro, mas como Cleópatra escolheu que ele fosse registrado. A história é escrita pelos vencedores – e eles têm as suas versões dos fatos.

Mas há uma nova informação que nos permite, ao menos, uma releitura desse primeiro encontro: Uma moeda com o perfil de Cleópatra, datada de 32 a.C., exposta na Inglaterra em 2007, revela-nos – por Ísis! – que Cleópatra era um bocado feia. O seu nariz não era longo, como acreditaram Pascal e os leitores de Asterix, incluindo esta blogueira – mas adunco. Fosse produzido hoje, Monica Bellucci estaria fora do elenco de Astérix & Obélix: Mission Cléopâtre.

E isso, em contraponto, sugere que Cleópatra era ainda mais inteligente do que imaginávamos. De fato, é preciso inteligência para seduzir os dois homens mais poderosos de Roma. Seduzir os dois? É preciso inteligência para presentear um dos homens mais poderosos de Roma. Veja Ptolomeu 13. Buscando apoio para reger sozinho o Egito, Ptolomeu 13 também presenteou Júlio César – com a cabeça arrancada do general Pompeu, adversário de César em Roma. Não funcionou: Júlio César ficou chocado com tamanha barbárie.

Voltemos então ao segundo parágrafo: Desenrolado, esse tapete revela a audaz, ousada, inteligente e sexy Cleópatra. Agora sim. E talvez M Pascal, estivesse vivo, editaria o seu “le nez de Cléopâtre: s'il eût été plus court, toute la face de la terre aurait changé.”: L'intelligence de Cléopâtre: s'elle eût été plus court, toute la face de la terre aurait changé.”

terça-feira, 29 de abril de 2008

TODO O PODER AOS GENEROSOS

Fabiano, se você estiver na costa noroeste dos Estados Unidos e do Canadá, entre Oregon e Alasca, e for convidado para um potlach em uma comunidade indígena, não se preocupe em levar um presente. Preocupe-se, sim, em como trazer para o Brasil todos os seus presentes. Explico: Depois de entretê-los (os convidados) com gastronomia, música e dança, o homenageado distribuirá todos os seus bens entre vocês. E se houver rivais do homenageado entre os convidados, é possível que ele, o homenageado, destrua parte de seus bens.

Os praticantes do potlach não acumulam riqueza? Acumulam, sim. E a custo de muito trabalho – eles não são a cigarra da fábula de Esopo. Mas acumulam riqueza tão-somente para, em seguida, distribuí-la, presenteá-la, desfazer-se dela – eles não são a formiga da fábula de Esopo. Na época de ouro do comércio de pele de animais, a riqueza era tanta, e o potlach era tão suntuoso e extravagante, que os governos dos Estados Unidos e do Canadá chegaram a proibí-lo. Sim: No mundo protestante de austeridade e parcimônia, o potlach é uma perda irracional de recursos.

Por que todo esse desprendimento, todo esse presentear, toda essa generosidade? Tudo isso, intuo, revela uma fé absoluta na abundância do universo, no Deus-dará, na força da comunidade – o que, por si só, deve ser uma libertação, uma leveza, um luxo.

Mas para antropólogos (e alguns economistas), o potlach é uma manifestação típica daquilo que chamam de economia do presente. Na economia do presente, bens e serviços circulam sem um acordo explícito de pagamento imediato ou futuro: A dádiva gera recompensas sociais ou intangíveis como o karma, a honra, a lealdade, a gratidão. O potlach, para os seus praticantes, é a medida de status social: Aqueles com mais prestígio ou poder num clã ou numa tribo não são os que têm mais riqueza – mas sim os que se desprendem mais dessa riqueza, os que presenteiam mais, os que são mais generosos.

Fabiano, já na costa sudeste do Brasil, em São Paulo, a celebração do meu aniversário – se a celebração do meu aniversário fosse um potlach, esta blogueira teria sido destituída de qualquer prestígio ou poder. Já a minha família e os meus amigos, eles estariam num grande empate técnico: Foram muitos os presentes, foram muitos os bens e serviços que circularam. A todos os que me presentearam no meu aniversário – para me ater à blogosfera, o Carioca Virtual e o BHY –, a vocês todo o prestígio, o poder, o karma, a honra, a minha lealdade e a minha gratidão!

quarta-feira, 16 de abril de 2008

DE TOLERANTIA

Sou um pouco como naquela canção do Sam Cooke: Don’t know much about geography, don’t know much biology. Sei ainda menos sobre a teoria dos redutos, como a chamam os geógrafos, ou dos refúgios, como preferem os biólogos. A última vez em que olhei temas desse universo com rigor foi nos anos 80, quando traduzi o livro Biologia da Poluição.

Mas nasci e cresci entre cientistas. E conheço o geógrafo Aziz Ab’Saber para saber, como naquela canção do Spandau Ballet, to know this much is true: Ele é uma das pessoas mais éticas e lúcidas do país. É verdade que sou suspeita. Respeito e admiro o professor Aziz não só como homem público (o cientista, o professor, o cidadão) mas também como amigo: Os laços que unem o meu pai ao Professor Aziz, e a minha família aos Ab’Saber, são a própria definição de philia.

Também respeito e admiro o zoólogo e compositor Paulo Emílio Vanzolini, inclusive na esfera pessoal. Até os meus vinte e poucos anos, fomos vizinhos. Vizinhos de fundo. E convivi muito com os seus filhos Fernanda e Toni.

Portanto, lendo a matéria de Eduardo Geraque na Folha de São Paulo, sinto-me diante de algum tipo de erro. Alguém, e de alguma forma, cometeu um erro de discernimento ou de comunicação. E diante do que leio, eis o meu discernimento: Não, o Professor Aziz não está “nessa fase de invenção, de dizer que ele descobriu a teoria dos refúgios”, tampouco ele “colocou isso na internet”.

Como já lhes contei, procuro ser tolerante diante de certos erros de discernimento ou de comunicação – inclusive quando sou objeto desses erros. Por exemplo, também já lhes contei, quando alguém usa palavras duras como frivolidade, hipocrisia ou burrice para se referir à minha escolha de dieta vegetariana. Esclarecer-me, justificar-me, defender-me muitas vezes não vale a pena: Deixe que esses erros evanesçam. Assim é se lhe parece, diria Luigi Pirandello. Cada um pensa como pode, diria Mário Quintana.

Mas a tolerância só é uma virtude, diria André Comte-Sponville, se acompanhada de limite. E uma sugestão de apropriação indevida de tese científica, em letra impressa – no meu discernimento, aqui o limite foi ultrapassado. E, diante disso, são precisos uma retificação e um pedido de desculpas ao Professor Aziz. Não dá para fazer por menos.

E enquanto não acho (melhor: não procuro) a fotografia do meu pai com um filhote de onça no colo, a bordo de um navio numa expedição no Rio Amazonas, ilustro este post com outra foto dele – aqui no III Seminário Sobre a Realidade Amazônica. Tratei de colocar-lhe um papagaio no antebraço. Não sei se chega a causar um estranhamento, um ostranenie, como numa foto de Juergen Teller. Mas que ficou fofo, ficou.


HE’S TOTALLY LIP-SYNCHING!
Papagaio! Por Herbert Richers e a sua descendência! Esse vídeo do Spandau Ballet para True é o pior lip-synching da história das imagens! É ainda pior, Too-tsie, do que Britney Spears em Gimme More nos VMAs. É alguma brincadeira que eu não consigo entender? Se fosse Laurie Anderson ou David Byrne, eu diria que se trata de uma proposta de estranhamento. Mas aqui – está parecendo negligência, imprudência ou imperícia mesmo.

sábado, 12 de abril de 2008

O BEIJO

Esse beijo estampado, parede a parede, na estação de metrô Vila Madalena, no anúncio do novo filme de Wong Kar Wai, esse beijo que tem algo daquele de Gustav Klimt, apenas os rostos e as mãos visíveis, os restos dos corpos mesclados, fundidos, como que no mito de Aristófanes, esse beijo que me faz parar, olhar e desejar ficar ali bem mais – elegi esse beijo de Jude Law e Norah Jones na estação de metrô Vila Madalena a experiência urbana mais deliciosa da minha semana.

quinta-feira, 10 de abril de 2008

LENDO IMAGENS

No doubt everyone has seen Victoria Beckham in the Marc Jacobs ads. Bom, ao menos um desses anúncios. E, bom, algumas pessoas, como esta blogueira, não tinham idéia de que as pernas que saem de uma enorme bolsa (uma sacola, das de compras) na qual se vê C JAC, e que nossos olhos lêem Marc Jacobs, os pés com sapatos cujos saltos estão no antepé, e não no calcanhar – de que essas pernas eram da Posh Spice. A mulher mais fotografada do mundo, que aprendemos a ver montadérrima e fazendo carão, aqui se permite ser retratada um pouco fora de controle, um pouco feia, um pouco desajeitada, um pouco pastelão.

Uma imagem fala por mil palavras. Mas será? Tantas imagens ao nosso redor, tantas delas de coisas ou pessoas que nos são tão familiares, tendem a automatizar o nosso olhar. Diante de uma imagem de Ms. Beckham, por exemplo, o cérebro desta blogueira está programado não para olhar, mas para sentenciar. E não em mil palavras, mas em três. Ela está bonita. Ela está feia. Ela está magra.

Mas ver Ms. Beckham um pouco fora de controle, um pouco feia, um pouco desajeitada, um pouco pastelão – isso nos desperta um certo estranhamento, provoca-nos um segundo olhar. Agora aquilo que me é familiar deixa-me maravilhada, instigada, curiosa. Não é mais "ela está bonita?" (e a sua resposta binária, sim ou não), mas "o que acontece aqui?" – e a sua resposta cheia de possibilidades.

Essa descoberta, de que eu olho o que me é familiar com automatismo – mas posso olhá-lo com o maravilhamento, a instigação e a curiosidade daquilo que me é novo, essa descoberta já é muita coisa. Mas esta blogueira adora ir além, adora saber what’s behind the scenes.

Mas saber what’s behind the scenes não é (re)transformar o estranhamento em familiaridade ou mesmo banalização? Não é substituir uma mágica por um truque? E quando esse behind the scenes se revela por palavras? Ler sobre imagens não é, parafraseando Steve Martin, como dançar sobre arquitetura?

Não para mim – pelo menos não por ora. As mil palavras de Cathy Horin sobre a colaboração entre Marc Jacobs e o fotógrafo Juergen Teller – mais: sobre o diálogo entre a publicidade e a arte –, essas mil palavras educam, apuram o meu olhar. E deixam-me, diante dessas imagens que provocam um segundo olhar, e uma pergunta diferente da banalidade do "ela está bonita?", deixam-me ainda mais maravilhada, instigada, curiosa.



Para ver as tais fotografias:
Entre no site do Marc Jacobs
Clique em MARC JACOBS COLLECTIONS
Clique em ADS
Clique em cada um dos anúncios para ver o próximo

segunda-feira, 7 de abril de 2008

FAZENDO AMOR

Sobre ações amorosas, 3

Meu aniversário é dia 18, mas já comecei a me presentear. São várias ações amorosas – para comigo. Amanhã terei o primeiro de doze encontros com a minha roda de leitura de dez crianças. Elas escolherão, para lermos juntas, um livro entre A bolsa amarela, De olho nas penas, Diário de Kaxi e Pippi Meialonga. Estou inscrita na Corrida Reebok 10 km, prova que se define com o inusitado conceito "corrida-balada". Ah, se ela corre, eu corro. (Minha linda, a festa do fetiche, como você sugere em comentário – está um pouco em cima da hora para 2008. Que tal 2009? Ou que tal se o Chico organizasse como um dos eventos dele – e nós fôssemos como convidadas?) Participo de Vida Vício Virtude, ciclo de conferências com curadoria de Adauto Novaes. Já temos (eu, Lord Herbert e Tony Goes) os ingressos para o espetáculo do muito talentoso Rufus Wainwright.

Na muito linda Going to a town, Mr. Wainwright lamenta a America que faz guerra, e nos convida a fazer amor – no one goes to hell for having loved. He's got a soul to feed, America. Eu também. E Mr. Wainwright tem ajudado-me a alimentá-la desde que eu ouvi a sua voz na Tower Records da Union Square, em 2001, cantando sobre cigarettes and chocolate milk.


sexta-feira, 4 de abril de 2008

אהיה אשר אהיה

Sobre ações amorosas, 2

É claro que há um amor que se sente. E não me refiro apenas ao eros, ao amor romântico. Eu mesma já lhes mencionei uma experiência mística que tive em 2007, um sentir-me amada por um Deus pai, um abba, um papai. Ainda não estou preparada para compartilhar essa experiência aqui. Mas a quem me perguntar pessoalmente, eu conto.

Enfim. Depois da reflexão com o meu grupo de desenvolvimento pessoal no ISH, como comecei a contar em SANS LE CHOIX, JE NE SUIS RIEN, dei-me conta de que o amor de que fala A Liberdade é Azul, para o qual Paulo escolhe a palavra grega agape, traduzida para o latim como caritas – esse amor não é um sentimento. Ou, ao menos, não é um sentimento. Bento 16, na encíclica Deus Caritas Est, diz que "o sentimento pode ser uma maravilhosa centelha inicial, mas não é a totalidade do amor". Até porque "os sentimentos vão e vêm".

O que é, então, o amor de que fala A Liberdade é Azul? Para a Cynthia e o Scott Peck, é uma ação.

Mas essa ação é desencadeada por um sentimento amoroso? Não necessariamente. A mãe age com amor com o filho que ama – e mesmo quando, chorando a noite toda, ele lhe desperta irritação ou raiva. (Bom, nem toda mãe consegue, muito menos sempre.) A nossa protagonista age com amor com a mulher que desconhece – e que, imagino, desgoste. A irmã Helen Prejean (retratada em Dead Man Walking de Tim Robbins) age com amor com o homem que assassinara dois adolescentes brutalmente – um homem que, imagino, cause-lhe algum tipo de repulsa.

E eu? Eu procuro agir com amor com alguém que eu amo quando, ali e então, esse alguém me desperta irritação ou raiva. Mas, reconheço, isso requer um bocado da minha energia: Eu também tenho um cérebro reptiliano programado para agir em modo, como diz Lenine em Do it, “se tá puto, quebre; tá feliz, requebre”. Agir com amor com alguém que desgosto? Sim, quando essa é a minha escolha. E agir com amor com alguém que desgosto requer ainda mais da minha energia – e sequer me ocorre doar-lhe a minha herança.

Com alguém que me causa algum tipo de repulsa? Bom, interajo pontualmente com pessoas que me causam algum tipo de repulsa – mas nunca cheguei a me relacionar continuamente com elas. É uma experiência muito diferente daquela da minha amicíssima Cláudia A.: Ela trabalha, dentro de uma penitencíária, como advogada de mulheres carentes em cárcere. Estou envolvida nos esforços de cultura de paz liderados, em São Paulo, pela Palas Athena – e isso envolve a luta por cidadania e dignidade para todos, inclusive aqueles que cometeram crimes hediondos. É um amor em ação? Quero acreditar que sim. Mas o exerço sem interagir com aqueles que cometeram crimes hediondos. Seria diferente se eu interagisse com eles e, conjecturo, com ao menos um pouco das suas agressividades? Talvez. Seria diferente se entre as suas vítimas estivesse alguém que eu amasse? Talvez.

Digo talvez porque eu desejaria, numa situação-limite, seguir o exemplo virtuoso e libertador de Massataka e Keiko Ota: Eles escolheram perdoar (perdoar, o que é diferente de inocentar ou deixar impunes) os homens que seqüestraram e mataram seu filho Ives, de oito anos. E fundaram uma organização de cultura de paz que, entre outras coisas, trabalha pela recuperação de presos. Mas por vezes alguma coisa se perde entre o que eu desejo fazer e o que eu consigo fazer.

Há, ainda, mais uma pergunta: Essa ação amorosa que faço por alguém que não amo, e que não é desencadeada por um sentimento amoroso – essa ação se faz seguir de um sentimento amoroso? De acordo com A Liberdade é Azul, não necessariamente. Apesar de sua ação amorosa, até o final do filme vemos a nossa protagonista rodeada de uma certa malaise. O amor que ela escolheu não lhe deu um mundo brilhante, colorido e fácil – o mundo de que fala, por exemplo, o personagem apaixonado de Gene Kelly em Singin' in the Rain. O amor que ela escolheu também não se fez acompanhar de uma sensação de alegria, felicidade ou mesmo completude. Pelo menos não lá e então. Mas libertou-a (ou ajudou a libertá-la) da vingança e do ressentimento – e isso, como atesta Ota-san ("o ódio come a gente"), é muita coisa.

Quanto à minha própria experiência, não sei. Preciso prestar um pouco mais de atenção. Provavelmente eu sinta algo mais próximo do alívio ("mantive-me centrada") do que do amor. Algo que, imagino, a Joss Stone ou a Beyoncé devem ter sentido quando o Ashton Kutcher anunciou-lhes: "You just got punk'd!".

Mas essa ação amorosa, se eu a faço por alguém que não amo, se ela não é desencadeada por um sentimento amoroso, se ela não se faz seguir de um sentimento amoroso – o que cria essa ação amorosa? E por que, entre tantos adjetivos, qualificamos essa ação como amorosa?

A encíclica Deus Caritas Est ajuda-nos com a primeira dessas perguntas: Bento 16 diz que o amor pode ser criado pela vontade. Mas não nos ajuda com a segunda dessas perguntas: Bento 16 não diz o que o amor é. Talvez, imagino, porque na visão cristã de Deus, Deus é amor. E Deus, quando Moisés perguntou-lhe o seu nome, respondeu: אהיה אשר אהיה. Eu sou o que sou. O amor, logo, é o que é.

Enquanto eu apreendo o amor que é o que é, deixo-os com (what a surprise!) uma versão remixada de Gloria Gaynor interpretando I am what I am, de La Cage aux Folles. Por muito tempo esta blogueira acreditou que I am what I am fosse o nome não de Deus – mas dessa canção.

SANS LE CHOIX, JE NE SUIS RIEN

Sobre ações amorosas, 1

A lição de casa para o meu trabalho de desenvolvimento pessoal no ISH era identificar algo (uma poesia, uma música, um objeto, uma imagem) que representasse, para mim, o amor. Pensei em muita coisa. Decidi pelo filme que mais me inspirou: A Liberdade é Azul (Trois Couleurs: Bleu), de Krzysztof Kieslowski. Levei ontem ao grupo um post que escrevi sobre o filme em fevereiro de 2007, SANS L’AMOUR, JE NE SUIS RIEN.

Se você pretende assistir a esse filme, e quer preservar a sua surpresa, não leia o resto do post. (Caramba..! Esse é um cuidado que não tomei com os meus colegas no ISH.) Enfim. A protagonista, lindamente interpretada por Juliette Binoche, perde o marido perfeito e a filha num acidente de automóvel. Primeiro a vemos entregando-se à dor da perda através de um projeto de anti-vida, de desligamento de tudo e de todos. Em seguida a vemos tomando conhecimento de que o marido não era tão perfeito assim: Ele tinha uma amante que dele estava grávida.

E então nos perguntamos: Como é que a nossa protagonista vai lidar com tudo isso?

Se fosse uma história de Nelson Rodrigues, acho que assistiríamos a uma catarse. Ciente de que seu casamento de comercial de margarina fora uma farsa, nossa protagonista se entregaria a algum ritual libertador: Sexo com o melhor amigo do marido? Com o motorista do lotação?

Provavelmente Hollywood nos brindaria com um novo amor para a protagonista – a second chance, como se convencionou chamar. O cara bacana, sensível, bonitão e tudo o mais – um personagem que Aydan Quinn, e não Sean Penn, interpretaria.

Mas como é a trilogia de M Kieslowski, a nossa protagonista se encontra com a amante do marido para doar a ela, e ao bebê, tudo que havia herdado do marido. Ela escolhe o perdão à vingança e ao ressentimento.

E é essa a liberdade do título do filme, tanto no sentido de libertação do ressentimento (pois o ressentimento prende-nos a um passado doloroso), como no sentido de liberdade de escolha. Algumas vezes não temos controle sobre a situação em que nos encontramos – mas ainda assim temos a liberdade de escolher os pensamentos, os sentimentos e as ações com os quais reagiremos a essa situação.

Nossa protagonista fez uma escolha de amor. Uma das últimas cenas do filme a traz concluindo um concerto iniciado pelo marido, um maestro e compositor, com o trecho da carta de Paulo sobre amor: Ainda que eu falasse línguas, as dos homens e as dos anjos, se eu não tivesse amor, seria como um bronze que soa ou como um címbalo que tine.

terça-feira, 1 de abril de 2008

BON VOYAGE!

Soube há pouco que a Samanta, prima das minhas primas Soraya, Valéria e Juliana, e sobrinha dos meus tios Leonardo e Ivani, morreu.

No domingo estivemos, eu e os meus irmãos, no Sírio Libanês, onde a Samanta encontrava-se em coma induzida. Apesar da gravidade do quadro, eu acreditei que os 31 anos, a vitalidade e a inteligência da Samanta, o amor e a fé dos seus pais, parentes e amigos, a proficiência dos médicos do Sírio Libanês – que tudo isso operaria a sua cura.

A Samanta era espiritualista. Seus pais são espiritualistas. Muitos dos seus amigos são espiritualistas. Para os espiritualistas, a morte é um instante em um caminho infinito: Em algum momento ou lugar, todos os que se amam ou amaram se reencontram.

Até que se reencontrem, desejo aos que ficam a força e o desapego para lidar com a dor dessa separação. E à Samanta, uma boa viagem!

segunda-feira, 31 de março de 2008

CADA UM COM O SEU FETICHE

Há cerca de dez anos Ana Fadigas, então editora da Sexy, convidou-me para ter meus pés fotografados para um ensaio para a revista. Recebi aquele convite com um je ne sais quoi de indignação. Que parte de mim, pensei, está sugerindo que eu não sou uma moça pheena? Estávamos no spa Sete Voltas, onde havíamos nos conhecido há alguns dias. E interagíamos, até então, em torno de temas intelectualizados – como a modernização editorial do Estadão, da qual ela havia participado ativamente.

Desde então, acredito que mudei eu – e os tempos também. Primeiro, hoje eu receberia esse convite como um elogio, e provavelmente o aceitaria. Ok, Sexy não é Dazed & Confused ou In Style – mas seriam só os meus pés. Segundo, hoje eu presumiria que esse convite refletiria a opinião da Ana sobre os meus pés – e não sobre o tipo de moça que eu sou. Por fim, na época eu imaginava que pés eram um entre dez ou doze fetiches – hoje eu sei que são um entre milhares.

Nas últimas semanas conheci mais dois desses milhares de fetiches.

Através do Tony Goes conheci o blog Sem bolso. São histórias do Daniel, um jovem brasileiro que estuda em Londres, e que se mantém fazendo faxina pelado. De roupa, imagino, ele ganharia seis ou sete libras por hora. Pelado, ele nos conta, ganha vinte libras por hora. Como isso também é novidade para o Daniel, ele nos brinda com uma versão terceiro milênio de Entfremdung – o estranhamento do trabalho de que fala Karl Marx. Em inglês esse fetiche se chama nude cleaning.

Através de uma amiga, que por ora manterei anônima, conheci o site 89. Talvez ela não se oponha a ser identificada: No seu blog ela já falou do seu amigo Richard – e ele é, er, battery-operated. Enfim, pensei tratar-se de um movimento pela volta do rock'n roll na rádio 89. Nope! Trata-se de material pornográfico altamente segmentado e organizado por gênero, etnia, atributos físicos, idade, prática, fetiche. Sim, como num menu. (Só sexo consentido, por pessoas em maioridade sexual.)

Para se ter acesso a esse universo de imagens, é preciso fornecer o número do cartão de crédito. Mas há amostras grátis, algumas das quais eu provei. Amigos, digamos que essas imagens não deixam nada à imaginação. Digamos que foram produzidas a dez dólares por hora. Digamos que não é o sexo de Victoria Abril e Javier Bardem em Entre las Piernas, ou de Victoria Abril e Antonio Bandeiras em ¡Átame! BHY, sobre essa cena, BHY, eu e o meu ex-marido Raphael tivemos o privilégio de conversar com Pedro Almodóvar na noite de autógrafos de Patty Diphusa em Nova York. Qualquer hora eu conto a história.

Enfim. No meio de imagens muito explícitas no 89, a que me causou um, er, estranhamento foi a de duas moças de lingerie, sentadas numa cama, enchendo bexigas, dessas de aniversário. Et ça c’est tout. Em inglês esse fetiche se chama ballooning.

A trilha sonora desse post é 99 Luftballons. Aqui a muito engajada Nena nos fala de bexigas que são soltas para protestar contra uma nova corrida armamentista, no começo dos anos 80, entre Estados Unidos e União Soviética. Muita coisa mudou desde então. E não falo apenas da ordem geopolítica ou do corte de cabelo de roqueiros. Hoje, soltar um monte de bexigas para protestar ou celebrar é um no-no ambiental: Bexigas são muito lindas no ar – mas causam danos terríveis quando retornam à terra ou à água. E como bem sabem os atores do 89, tudo que sobe, desce.

quarta-feira, 26 de março de 2008

CADA UM PENSA COMO PODE

Reflexões sobre eu e o álcool, 4

Querido Alberto. Comecei respondendo ao seu instigante comentário ao meu post ASSIM SOU SE LHE PAREÇO, que “beber tem que ser sempre uma opção; coagir o outro a qualquer ato é imoral”, e quando me dou conta – escrevi todo um novo post.

Para beber, não me sinto objeto de coação – mas sim de uma expectativa fuerte. Para algumas pessoas, como disse o Alê Bom à Bessa (ouch!), não beber é uma ofensa. Mas a expectativa fuerte do outro é problema dele, não? O meu problema é não me deixar levar por ela. Mas isso às vezes, humph, é um trabalho em tempo integral.

Ah, algumas pessoas tendem a levar as coisas para o lado pessoal, como se diz. Por exemplo, algumas levam o fato de eu ser vegetariana para o lado pessoal. Mais: Consideram-no uma ofensa. E, diante dessa ofensa, tratam logo de retribuí-la. Já ouvi que compadecer da dor dos animais é uma frivolidade – que é mais típico de quem não se compadece da dor dos seres humanos. E que compadecer da dor de mamíferos, peixes e aves é uma hipocrisia. E a dor dos vegetais que eu como? Ou a dor dos insetos que são mortos no cultivo daquilo que eu como? Ou a dor dos germes que são mortos na lavagem da louça em que eu como? E tudo isso porque eu digo, não, obrigada, não quero ir a uma churrascaria com você. Falo sério.

Mas o que será isso? A expressão trágica, como diria Marshall B. Rosenberg, criador da comunicação não-violenta, de uma necessidade não atendida? E que necessidade será essa? Que eu o acompanhe a uma churrascaria? Que eu sempre lhe diga sim? Que eu retribua a lealdade que ele me dedica? Que eu retribua as concessões que ele faz por mim? E porque não falar isso assim, como é – ao invés de usar o meu vegetarianismo para me chamar de frívola ou hipócrita?

Eu e um baiano, que mora em São Paulo, ficamos meses sem nos falar. Daí uma hora ele me liga e diz: Estou passando agora na sua casa, estou morrendo de saudades. Então eu explico que já tenho outros planos, e proponho que nos encontremos num outro dia. Não sei bem como, ele sempre acha uma forma de me dizer que para mim tudo tem que ser hipermontado e hiperformal, que uma amiga de verdade sempre arruma tempo para um amigo, que eu corto toda uma energia maravilhoo-sa de improvisação, que eu sou assim – uma paulista! Miau.

Talvez eu, o churrasco-lover e o baiano estejamos, cada um a seu modo, tentando lidar com a dor de receber um não. Porque essas críticas tão duras também me chegam como um não: Um não ao meu estilo de vida, um não às minhas escolhas. Há alguns anos era-me muito doloroso ouvir críticas tão duras. Tão doloroso que eu logo transformava o meu não num sim – para não ter que ouvir nem mais uma daquelas palavras. Hoje ainda é doloroso ouvir algo assim – mas não o suficiente para eu abrir mão do meu não. Então eu respondo que eu preferiria que eles me achassem uma fofa. Mas que, parafraseando Luigi Pirandello, eu sou aquilo que lhes pareço. Ou que, repetindo Mário Quintana, cada um pensa como pode. Grr.

Em empatia a todas as pessoas que conhecem a dor de receber um não, deixo-os com a abertura de Magnolia, do muito talentoso (e muito sexy) P.T. Anderson, ao som de One, da muito talentosa (e muito melancólica) Aimee Mann. Nessa abertura, todos os personagens são-nos introduzidos assim, de uma vez só. Não sabemos o que os une – mas a canção sugere experiências de solidão e de não: No is the saddest experience you'll ever know. Yes, it's the saddest experience you'll ever know. Because one is the loneliest number that'll you'll ever do. Aqui você encontra uma versão de One sem a interferência do som do filme.

terça-feira, 25 de março de 2008

APRENDENDO COM AS FOTOS NSFW DE KRISTIN DAVIS

Sinto muito por todas as pessoas que tiveram sua vida sexual invadida por paparazzi ou pela publicação, sabe-se lá como, de fotos ou vídeos feitos para uso pessoal. Daniela Cicarelli, Tato Malzoni, Paris Hilton, seu ex-namorado (ele foi vítima ou réu nessa estória?), Vanessa Hudgens, Pamela Anderson, Tommy Lee. Sinto muito – mas talvez não o suficiente para abster-me de dar uma olhadinha nessas imagens.

Pois é, Fabiano. Ter ido até Beverly Hills e reparado nos leitores ávidos por fofocas ajudou-me a enxergar o que sempre esteve aqui: A leitora ávida por fofocas em mim. Melhor: A voyeur ávida por fofocas em mim. Não sou o tipo de voyeur que vai atrás da publicação ou do vídeo com essas imagens, que vai até um sex shop ou mesmo até uma banca de jornal. Não. Minha curiosidade não é suficientemente grande para disparar esse movimento todo. Mas no conforto da minha casa, é-me difícil deixar de googlar três ou quatro palavras e – voilà! – ter a minha fração de entretenimento às custas da privacidade alheia.

Mas esse mea-culpa agora por que?

Porque ontem não deixei de googlar Kristin Davis nude e – voilà! – ter a minha fração de entretenimento às custas da privacidade de Ms. Davis. Não da princesa episcopal Charlotte York de Sex and the City, mas da atriz scandal-free, ela mesma: Fotos NSFW tiradas por um namorado em 1992 espalharam-se na internet durante o último fim de semana.

Há um segundo aprendizado aqui, e esse eu vou transcrever do Page Six: “YOUNG women should be very, very careful about not letting nude photographs of themselves leave their hands”. Women and men of all ages, eu diria.

E há, talvez, um terceiro aprendizado aqui – um que ouvi pela primeira vez em Mad About You, mas que parece pertencer a um filme de Woody Allen: Na vida real, ninguém é lindo fazendo sexo. Refiro-me à perspectiva de quem só vê, claro. Por seis temporadas, vimos cenas de sexo das protagonistas de Sex and the City – hey, it’s Sex and the City. E ainda que o sexo reservado à personagem de Ms. Davis fosse mais engraçado e tolo do que, er, sensual (o ménage à trois onde ela se viu excluída, o vício pelo Rabbit, o chef pâtissier que é, er, a gay straight man, o marido com problemas de impotência e ejaculação precoce e preferência por thrill sex), Ms. Davis always looked jolly good on screen. Mas não na vida real. Eu até diria que essas fotos dão um novo significado ao acrônimo NSFW: Not Safe For Ms. Davis' Work as an actress. (Ouch! Pois é, Fabiano: Eis o Perez Hilton em mim.) E essa é uma mulher que em 2006, aos 41 anos, foi eleita a mais bonita do mundo pela revista feminina britânica Eve. (Mm, eu e Lord Herbert teríamos votado em Aishwarya Rai.) E essa é uma mulher que nunca saiu da Top 99 Women do portal masculino AskMen.

E há, parece-me, a confirmação de um quarto aprendizado aqui. Um aprendizado que esta blogueira soube desde sempre – ou ao menos desde que assistiu ao lindo La Nuit Américaine, de François Truffaut: O cinema pode transformar qualquer realidade. E não falo de grandes efeitos especiais. Busquei a cena da noite americana ela mesma, da técnica de iluminação e filtragem usada para fazer com que uma imagem filmada durante o dia fique, na tela, com cara de noturna. Não achei. Mas essas imagens aqui, ao som de Grand Choral de Georges Delerue, onde o personagem de M Truffaut aparece ajeitando com precisão o rosto e as mãos da personagem de Jacqueline Bisset, essas imagens ilustram lindamente o que falo. Há um bocado disso, estou certa, no sexo na sétima arte.

segunda-feira, 24 de março de 2008

EU BEBO O QUE?

Reflexões sobre eu e o álcool, 3

Contei-lhes há pouco que, na minha vida adulta, aprendi a beber socialmente – ou a aceitar e a segurar um copo de bebida alcoólica. Tenho várias razões para tanto. Algumas derivam da minha persona estratégica (aquilo a que eu resisto, diria Carl G. Jung, persiste), outras derivam da minha persona gregária, ávida por aceitação, pertencimento e confiança (people don’t trust a person, diriam os escoceses, who does not drink).

Mas eu bebo o que?

Tenho opiniões sobre muitas coisas, mas sobre o álcool que eu vou beber não é uma delas. Na sua casa aceito logo o que você me oferece. Num restaurante ou num bar, aceito logo o que você me recomenda. Mas se você me recomenda um chope, aí peço um prosecco ou um cosmopolitan. (Chope, cerveja, refrigerante ou água com gás não rolam. Ah, tenho alguma persona que sabe impor limites – até mesmo à minha persona gregária.) E sim, leitores antenadíssimos, também peço caipirinha de cachaça – e rosé, esse eu pedirei quando encontrar o Sofia na carta de vinhos. Não porque entendo de vinho (não entendo), mas porque apóio aqueles vinhos que subsidiam os filmes arriscados e maravilhosos dos Coppola.

Quando sou eu a receber, continuo confiando nas recomendações do Wine Spectator e do muito atencioso e paciente Marcelo Lopes, do Santa Luzia. E confiando nos meus, er, outros sentidos. E hoje os meus olhos e os meus ouvidos só querem saber da Freixenet – o que são esses comerciais de animação?

O primeiro deles holografa os borrões do maravilhoso vídeo de Crazy, de Gnarls Barkley. Em Crazy, borrões de Rorschach dançam em papel mata-borrão branco. Em Freixenet, borrões dançam num copo de leite.

Os outros dois rotoscopiam cenas de um universo, er, tres Hôtel Costes, ao som de Yachts, de Coco Steel & Lovebomb. Nessa técnica, filma-se uma imagem e, depois, desenha-se cada um dos seus quadros. Bom, pelo menos era assim em Take on Me, do a-ha, vídeo que mesmerizou esta blogueira em 1985. Esses dois comerciais foram dirigidos por Zoran Bihac e animados por Sasa Zivkovic, dupla que também colaborou nesse (olha isso!) vídeo de hip hop alemão.








quinta-feira, 20 de março de 2008

ASSIM SOU SE LHE PAREÇO

Reflexões sobre eu e o álcool, 2

Yo, I'll tell you what I want, what I really, really want: Água. Mas não vou insistir nisso porque, como diria Carl G. Jung, aquilo a que eu resisto, persiste – e como persiste!

Às vezes você aceita que eu vou beber a minha água, e apenas a minha água. Mas, logo me dou conta, é porque você presume que estou grávida, que sou evangélica ou muçulmana, the designated driver (a amiga da vez?), uma alcoólatra em recuperação – ou que tomei uma bala.

Por que outro motivo uma pessoa não beberia álcool?

Um lado meu até quer explicar, não para me justificar, mas porque quero que você conheça a minha essência. Mas um outro lado, talvez mais pragmático, apenas entende que o nosso é um mundo de aparências. E que, parafraseando Luigi Pirandello, assim sou se lhe pareço.

A trilha sonora desse post é o delicioso samba-rock Eu Bebo Sim, interpretado pela divina Elizeth Cardoso. Se você pensa que esse tipo de propaganda do álcool ficou nos anos 70, pense em Rehab de Amy Winehouse, Lived in Bars de Cat Power, ou em Cachaça, de Carlinhos Brown (aqui na interpretação da Timbalada).

DEPOIS DE 3 TAÇAS

Reflexões sobre eu e o álcool, 1

Não me sirva o seu Romanée-Conti. Não vale a pena: Tenho os sentidos apuradíssimos para muitas coisas, mas álcool não é uma delas. E não me faltam só os sentidos apurados para degustar o melhor do álcool. Talvez também me falte um fígado adequado para digerir qualquer álcool. Que delícia ser como naquela canção do Kid Abelha, depois de 3 taças, qualquer um me encanta, tudo sai de graça, qualquer um se torna minha grande paixão. Mas para mim, depois de 3 taças, é sempre aquela náusea.

Foi aos 17 anos, quando entrei na faculdade, que me senti pela primeira vez cercada por pessoas que bebiam. E mais: Por pessoas que não eram indiferentes ao meu consumo de álcool: Elas esperavam que eu bebesse, elas me incentivavam a beber. E eu? Humph. Bom, eu queria pertencer justamente a essa, er, turma do funil. E olha que havia todas as turmas por ali – incluindo os Opus Dei, para quem beber era uma violação do corpo, contraproducente à sublimação da alma, e os PCdoB, para quem beber era uma alienação da vida, contrário aos ideais da revolução.

Talvez por ser mulher, talvez por ter-me cercado de pessoas intelectualizadas, nunca fui objeto de um trote, de um ritual onde a minha aceitação numa comunidade fosse explicitamente condicionada ao consumo de quantias insanas de álcool. Não. Vi-me sujeita a uma versão bem sutil desse processo de iniciação. Estudei na Faculdade de Direito da USP e na University of Ottawa, no Canadá – e a construção de camaradagens e vínculos nesses espaços passava, e muito, pelos arriba, abajo, al centro y para dentro. E eu, ali, ora insistindo na minha água, ora trapaceando com o mesmo copo de destilado, brincando com os gelinhos.

O álcool aos 17, 18 anos é um rito de passagem da infância à vida adulta. Mas ali e então, eu não via isso com tanta simplicidade. Eu me sentia desafiada, incitada a mostrar audácia, coragem, ousadia de beber – e não gostava nada daquela sensação. A época em que eu estudei no Canadá era a do Just Say No (to peer pressure), uma campanha anti-drogas dirigida a crianças e adolescentes. Yeah, like it is that easy: Ainda me era difícil como uma mulher casada, aos 25 anos.

Mas o que me surpreende é que esse sentir-me cercada por pessoas que esperam que eu beba, essa dificuldade to just say no, eu não os deixei no início da minha vida adulta: Ainda hoje os trago. Mas agora eu me sinto não desafiada, mas convidada. E não convidada a beber em si – mas convidada à entrega, à vulnerabilidade, à perda de controle, a deixar-me levar pela embriaguez. E um convite à minha vulnerabilidade é-me bem mais sedutor do que um desafio à minha coragem. Mas ainda aquela náusea depois de 3 taças, e ainda os sentidos pouco apurados para o melhor do álcool.

É claro que uso de álcool é diferente, e muito, de abuso de álcool. Mas não consigo pensar em nenhum outro produto cujo uso seja tão amplamente incentivado. Talvez sua avó incentive que você coma um pedaço de bolo; seu personal trainer, mais proteína; seu clínico geral, que você beba mais água; a publicidade, uma Coca-Cola. Mas reconheça: Com maior freqüência há alguém, ou algo, incentivando que você beba álcool, ou mais álcool.

E por que é assim? Talvez porque vejamos o álcool como algo divino desde, bem, desde sempre. Pense em Baco e nos rituais de embriaguez nas Dionísias gregas ou nos Bacanais romanos. Pense na festa judaica Purim, onde se deve beber até não se saber diferenciar o amaldiçoado Haman do abençoado Mordechai. E pense, com tantos poderes, e no meio de um povo com tantas necessidades, no milagre que Jesus de Nazaré escolheu como o seu primeiro: Transformar água em vinho numa festa de casamento em Canaã da Galiléia. Falo sério.